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Resumen de ponencia
Subjetividades fronteiriças na trajetória do projeto coletivo sobre Espaços globais para a expansão do capital transnacional no continente americano

Grupo de Trabajo CLACSO: Fronteras, regionalización y globalización

*Júlio Da Silveira Moreira



A dinâmica atomizada, produtivista e competitiva das universidades dificulta as articulações e redes de pesquisadores na construção de pensamento crítico. Nesse contexto, o projeto de coletivo atualmente intitulado "Espaços globais para a expansão do capital transnacional no continente americano" tem tido êxitos e avanços, reunindo pesquisadores ao longo dos anos em constantes publicações, seminários, congressos, oficinas de análises e discussão e atividades de movimentos sociais, guiados por um planejamento de fundo, pela interdisciplinaridade das áreas e pela liberdade intelectual com que os referenciais teóricos, metodologias e análises de conjuntura são discutidos e abertamente expostos a questionamentos.
A primeira fase do projeto, iniciado em 2011, possuía o título "Planos geoestratégicos, deslocamentos e migrações forçadas na área do Projeto de Desenvolvimento e Integração da Mesoamérica (Projeto Mesomérica)". O projeto partiu da revelação de como o Projeto Mesoamérica, também chamado plano Puebla-Panamá, se caracterizou como uma estratégica geopolítica para assegurar a hegemonia do imperialismo estadunidense sobre todo o continente americano, especialmente a área da fronteira com o México até o extremo sul do continente. Isso tem se dado por uma rede ou malha de aparatos institucionais (tais como acordos bilaterais, organizações de cooperação, grandes obras de infraestrutura) chamados de planos geoestratégicos, que se interligam em diferentes escalas geográficas e articulam a classe capitalista transnacional com as classes dominantes em cada contexto local.
Como extensão do Plano Puebla Panamá, surgiram o Plano Colômbia e depois a complexa Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-americana (IIRSA), com seus vários eixos de integração abrangendo todo o subcontinente e implicando em grandes obras de transporte, energia e infraestrutura, que têm se revelado não servir a uma suposta integração regional, mas sim a perpetuar os canais de evasão de recursos e apropriação para os centros de acumulação do capitalismo transnacional.
As muitas discussões e atividades coletivas têm permitido um mapeamento ou cartografia dessas dinâmicas de atuação do capital transnacional associado com os Estados sobre os territórios do continente americano, a ponto de culminar, em 2016, com a criação do GT CLACSO "Fronteiras, regionalização e globalização", e com a renomeação do projeto coletivo para "Espaços globais para a expansão do capital transnacional no continente americano", reconhecendo quatro espaços fundamentais: a fronteira México-Estados Unidos; a região do Projeto Mesoamérica; a Amazônia; e a região Andino-Patagônica do Sul.
Quando se fala do capital transnacional a partir do pensamento crítico, deve-se falar também em resistências e movimentos sociais. Atualmente, as discussões sobre as resistências enfatizam muito os conceitos de território e de autonomia. Inspirados pelos movimentos zapatistas no México e pelos movimentos camponeses e indígenas no Brasil e em toda a América Latina, assim como nas experiências de autonomia e produção solidária da vida nas cidades, autores como Zibechi, Holloway e Ceceña têm contribuído para estabelecermos a relação entre o território geográfico e geopolítico e as formas cotidianas de resistência e sobrevivência das coletividades, e colocam em evidência na academia temas como a ecologia política, o ecossocialismo e o direito socioambiental.
Essas colocações são fundamentais como choque de paradigma nas análises sobre a economia política e as configurações do capital transnacional, de tal forma que, além de compreender a fundo as estruturas de opressão, os pesquisadores possam também visibilizar os processos de resistência, saindo de um quadro de ceticismo para relações de solidariedade e comprometimento com os atores sociais.
É nesse sentido que introduzimos, no presente trabalho, o estudo das subjetividades transfronteiriças, observando que não existe só o capital e o Estado nos territórios de fronteira, mas existem também extensos fluxos que passam ao largo das estruturas institucionais e que constituem uma realidade invisibilizada em estudos fronteiriços - podemos trazer, como exemplo, os povos indígenas cujos territórios ocupam áreas contínuas em mais de um país, revelando que sua existência no território antecede a existência jurídica dos Estados-nacionais que estabeleceram fronteiras. Podemos mencionar também os fluxos cotidianos de moradores das regiões de fronteira, que cruzam diariamente ou periodicamente para trabalhar, para obter recursos, para perfazer práticas culturais ou mesmo para realizar atividades chamadas ilícitas pelo aparato estatal. Nas regiões de fronteira se realizam as chamadas culturas híbridas (Canclini) e formas de pensar amparadas na bifocalidade (Vertovec). Com a amplitude dessas subjetividades transfronteiriças pretendemos discutir e aportar às metodologias e referenciais teóricos do mencionado projeto coletivo.




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* Da Silveira Moreira
Universidade Federal da Integracao Latinoamericana UNILA. Foz do Iguacu, Brasil