O debate sobre a possibilidade (e necessidade) de uma literatura negra no Brasil está ganhando cada dia mais força graças ao diálogo entre escritores e movimentos negros.
Neste contexto assistimos a um protagonismo das mulheres negras. Posicionando-se nas interseções entre raça e gênero, estas têm um ponto de vista privilegiado sobre as dinâmicas sociais e políticas que estruturam a sociedade brasileira e oferecem novos olhares sobre os processos de construção da identidade nacional.
A literatura produzida por mulheres negras não somente inaugura novos conteúdos na literatura chamada “nacional” mas leva a uma discussão profunda do inteiro cânone literário, sendo que revela alguns não ditos essenciais sobre temáticas como a mestiçagem, o sincretismo, a multiculturalidade da sociedade brasileira.
A novidade não é só nos conteúdos mas também nas formas de expressão, que tencionam criar uma outra relação entre experiência vivida e escrita, que, emmbora não se limite a uma imitação passiva da primeira pela segunda, implica a impossibilidade do esquecimento do corpo e do lugar de fala de quem escreve e o compromisso com a batalha para “contar a História dos seus”, ou seja para falar da realidade do ponto de vista dos sujeitos que foram marginalizados e folklorizados dentro das macronarrativas nacionais.
Conceição Evaristo tem cunhado um termo para falar disso tudo: escrevivência. Constrói-se uma estética que manifesta poderosamente o corpo e as suas vivências, diferenciando-se das estéticas até hoje hegemônicas no Brasil, às do modernismo e do pós-modernismo, baseadas na abstração, no desaparecimento do eu de quem escreve, na busca do artifício retórico e da linguagem não mimética. De facto assistimos a uma superação da retórica anti-identitária do modernismo e pós-modernismo e a um desmascaramento desta retórica como sendo produzida maioritariamente por quem, pertencendo ao sujeito considerado como “norma” (homem, branco, cis, étero-sexual, de classe média, de cultura urbana) não precisa se autodeclarar.
Assim fazendo, esta literatura gera uma revolução de formas e conteúdos, questionando o cânone e tentando responder a perguntas fundamentais sobre o que é ser brasileiro a partir de outro lugar de fala.
Minha comunicação enquadra-se na sociologia das ausências e das emergências, como definidas por Boaventura Sousa Santos. De facto, esta pretende interrogar as retóricas sobre a identidade nacional brasileira a partir de outro lugar de fala, usando os textos e as discussões das escritoras e dos escritores negros como ferramentas epistemológicas para desconstruir os discursos hegemônicos e ativar outros processos de imaginação social.
Em particular, concentro-me sobre a pregnância do eixo racial na discussão sobre o que é Brasil e discuto os imaginários mais icónicos acerca disso (a antropofagia em literatura, as teorias da mestiçagem nas ciências sociais) a partir dos questionamentos que emergem pela tomada de protagonismo cada vez mais forte de intelectuais e escritores negros e mestiços que se assumem como negros dentro da própria escrita e se comprometem com a luta contra o chamado “o racismo à brasileira”. Este é um racismo supostamente “cordial”, que mergulha na valorização da mestiçagem ao mesmo tempo que promove ideais de branquitude e um eurocentrismo epistemológico.
Vou tratar estes argumentos tomando como ponto de partida a escrita de Conceição Evaristo, mulher negra e originária de uma favela e escritora que hoje começa a receber, finalmente, o reconhecimento do establishment literário. Iniciando a sua trajetória como colaboradora do projeto “Cadernos negros”, do coletivo Quilomboje, de São Paulo, a escritora mineira tem publicado um primeiro romance, “Ponciá Vicêncio”, definido como o “romance de formação da literatura afro-basileira” Eduardo Duarte de Assis); ao que se acrescentam outros romances, contos e poemas que trazem a mulher negra como sujeito de literatura, dando voz a quem foi invisibilizado, ou, se visibilizado, hétero-representado, folklorizado, objetivado.