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Resumen de ponencia
Política internacional e América Latina contemporânea: um enfoque crítico

*Meire Mathias



Os países latino-americanos são tributários de uma realidade histórico-social com características que decorrem de profundas e extensas raízes das desigualdades de ordem econômica, social e cultural. Assim sendo, com base no pensamento gramsciano, o estudo busca demonstrar que a reorganização do sistema mundial nos pós-guerra fria alterou não somente a forma de seus integrantes se relacionarem entre si, mas também a maneira como funciona e se reproduz, tendo em vista a dinâmica do processo de internacionalização do capital, em correspondência com o papel do Estado. Toma-se por referência os apontamentos de Harvey acerca do Estado neoliberal, que deve favorecer direitos individuais à propriedade privada, o regime de direito e as instituições de mercados de livre funcionamento e do livre comércio.

A perspectiva neoliberal, desde os anos 1990, facilitou o processo de acumulação e concentração de capitais, criou mecanismos de expansão para maior atuação dos organismos financeiros internacionais, acelerou o processo de mercantilização de esferas da vida até então resguardadas. A intensificação na atuação do capital financeiro, em prejuízo da atividade produtiva em países periféricos, não somente levou à imposição de condicionalidades para a tomada de empréstimos financeiros (geradores de maior dependência), como também aumentou a vulnerabilidade produtiva desses países (geradora de desemprego estrutural) e a precarização das condições de trabalho, mediante o modelo neoliberalizante.

Gramsci reflete a partir do ponto de vista das periferias, em relação ao centro, e dos grupos subalternos, havendo uma dimensão dialética constitutiva do seu pensamento. Neste sentido, desenhou os contextos históricos sociais em que surge não somente a expansão do sistema geopolítico de Estados, como também do desenvolvimento desigual capitalista. Em sua obra carcerária, é possível identificar a atuação política do capital relacionando internamente o sistema de Estados. De acordo com o autor, é verdade que a conquista do poder e a afirmação de um novo mundo produtivo são indissociáveis; que a propaganda em favor de uma coisa é também propaganda em favor da outra; e que, na realidade, somente nessa coincidência é que reside a unidade da classe dominante, a qual é, ao mesmo tempo, econômica e política; mas se manifesta o complexo problema da correlação de forças internas ao país em questão, da correlação das forças internacionais, da posição geopolítica do determinado país” (GRAMSCI, 1999; p. 427-428, Q 10 II § 61).

No pensamento gramsciano, o Estado condensa as relações de força que disputam o poder da sociedade em uma síntese superior, por isso, é abrangido por disputas. O Estado, portanto, é percebido como expressão política superior da dominação de classe. Nesse contexto, compreende-se que pelos caminhos da política se funda, se destrói e se defende o Estado, com o objetivo de preservar ou aniquilar estruturas econômico-sociais, sendo essa a razão das lutas pelo poder no interior de uma estrutura orgânica - denominada Estado.

Destaca-se que a relevância da dinâmica do poder como chave de interpretação da realidade para sua transformação, em favor dos grupos subalternos e das periferias, não somente permite a construção de uma explicação crítica das relações internacionais, como também reconhece o alcance e a densidade desta teorização do campo marxista para os estudos de política internacional.

A complexidade das relações internacionais e, em especial, as condições de atuação da América Latina no cenário internacional, dada a sua posição periférica e condição dependente, leva à reflexão sobre o exercício da hegemonia que, seguramente, implica disputas. Em Gramsci, hegemonia é uma forma estável e duradoura de dominação, implica consenso e coerção. Contudo, sugere-se que sob a perspectiva das relações internacionais, indica a combinação de consenso, cooptação e coerção.

Em outras palavras, apreender a política internacional, tendo em vista as disputas hegemônicas, significa considerar os Estados enquanto unidades políticas competitivas e, fundamentalmente, as conexões entre as dimensões interna x externa das nações, entre Estado e sociedade civil, entre economia e política, entre coerção e persuasão na configuração do poder. Sob esta perspectiva, o objetivo do trabalho é contribuir com os estudos que se empenham em desenvolver, complementar, aprimorar matrizes teóricas com vistas à análise crítica da ordem mundial contemporânea, dado o propósito de refletir sobre a significação da política internacional, particularmente na América Latina.




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* Mathias
Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Universidade Estadual de Maringá - CCHLeA/UEM. Maringá, PR, Brasil