O ano é 2018. Ainda que se entenda que a história não se dá de forma progressiva, evolutiva ou linear, os espectros do passado assombram. Há cinquenta anos atrás, no mês de março, o estudante secundarista Edson Luís foi assassinado, na cidade do Rio de Janeiro, pelas forças militares. Cinquenta anos depois, o que permanece parece ser a construção de uma série de arquivos e de números que pretendem revelar, mas, muitas vezes, acabam ocultando todo sangue derramado e toda repressão. Cinquenta anos depois permanece a violência, vinculada à estrutura social e histórica brasileira. Cinquenta anos depois, a democracia brasileira – tão frágil – continua sendo colocada à prova. Cinquenta anos depois, o Estado brasileiro instala uma intervenção federal militar em um dos maiores estados brasileiros, o Rio de Janeiro. Cinquenta anos depois, a repressão do Estado continua desaparecendo e assassinando pessoas. Paradigmático é, nesse sentido, a execução da vereadora eleita Marielle Franco, – no mesmo mês e cidade em que mataram Edson Luís – mulher, negra, cria da favela da Maré, bissexual e a quinta vereadora mais votada da cidade do Rio de Janeiro, pela Partido Socialismo e Liberdade; e de seu motorista Anderson Gomes. A sua execução foi bastante clara: cada tiro – no total nove – foram dados em direção à Marielle, mas sobretudo àqueles a quem ela representava, àqueles que ousam se opor à intervenção federal militar, que ousam defender os direitos humanos, que ousam denunciar o genocídio da população negra, que ousam olhar, atuar e lutar por aqueles que mais precisam, que ousam resistir. Ainda que haja muitas diferenças, assim como em 1968 com Edson Luís, a morte da vereadora não passou em branco e as narrativas sobre a sua memória e morte estão em disputa. Se por um lado, o Brasil e o mundo realizaram atos e se mobilizaram na tentativa de defender o legado e exigir respostas sobre a sua morte, por outro, a vereadora negra foi alvo de uma avalanche de fake news e de difamações de toda parte, obrigando, inclusive, o partido do qual fazia parte a iniciar uma campanha para submeter as calúnias aos devidos processos jurídicos. Na disputa pela narrativa, se denuncia a tentativa de descontextualização da luta da ativista e da apropriação do seu assassinato, despolitizando-o e usando-o de forma até mesmo a deslegitimar os Direitos Humanos ou, ainda, defender aquilo a que a vereadora se opunha radicalmente: a intervenção federal. Dois textos, “O segundo assassinato de Marielle Franco” e “Os dois assassinatos de Marielle”, entre outros, remetem ao fato de que, após a execução sumária e morte do corpo, há, em curso, uma tentativa de matá-la uma segunda vez, destruir a sua credibilidade, apagar sua reputação, “como se depois da morte física de Marielle fosse necessário perpetrar uma segunda morte simbólica”. A última e única forma de silenciar essa mulher que não admitia ser interrompida foi matando-a. Apesar disso, o rosto de Marielle figura hoje no imaginário dos brasileiros. Seu rosto nos mobiliza, nos interpela, nos chama, e nada disso pode, de fato, ser apagado. A questão de uma resistência à “segunda morte” é também objeto de questionamento, no contexto da ditadura civil-militar brasileira, na qual sob o pretexto de serem “subversivos”, ou “terroristas”, o Estado brasileiro os retirava de uma esfera do “humano” a medida em que criavam personagens, criminosos, aos olhos da população, que deveriam ser detidos e que eram passíveis de aniquilação. Esta comunicação tem como objetivo, a partir das questões aqui apresentadas, debater a produção literária acerca da ditadura civil-militar brasileira, especificamente os romances produzidos a partir do século XXI, Ainda estou aqui (2015), de Marcelo Rubens Paiva; Azul-corvo (2010), de Adriana Lisboa; K. – relato de uma busca (2011), de Bernardo Kucisnki e Soledad no Recife (2009), de Uraniano Mota. Escritos com um distanciamento temporal de mais de quarenta anos, as obras constroem uma leitura acerca do passado histórico a partir do presente e, principalmente, da tentativa de elaboração da experiência traumática por parte dos sobreviventes e dos herdeiros da ditadura, os quais resistem à segunda morte, ou seja, ao apagamento e esquecimento. A discussão pretende analisar as formas de (re)construção da resistência e dos militantes da resistência em tais obras, ou seja, partindo da hipótese que apresentam outra perspectiva literária para o que significava e significa, contemporaneamente, resistir à repressão, na defesa pelos direitos humanos. Resistir assume ainda outro sentido que se estende à própria literatura, a partir de seus narradores e autores que, décadas depois, inscrevem, nas obras literárias, as experiências traumáticas do período e as histórias apagadas e escondidas dos personagens.