É corrente definir os meios de comunicação como defensores da democracia e levar esta ideia como um paradigma quando se fala em jornalismo. Entretanto, refletindo e apurando o olhar, pode-se questionar a que tipo de democracia está se referindo esta defesa. Refere-se a uma democracia participativa, com ampla participação popular, que coloca diferentes atores sociais em debate? É uma democracia representativa, que constantemente incentiva ações participativas, envolvendo a sociedade civil? Ou à uma democracia representativa, onde a participação popular só é acionada a cada ano de eleição? Também, pode-se indagar sobre quais as intenções estão no topo das prioridades jornalísticas: vender jornal e defender seus anunciantes ou potencializar os debates políticos e públicos com intuito de fortalecer a democracia, acima de qualquer outra intensão?
A partir destes questionamentos, que no contexto deste trabalho foram feitos em um período conturbado para a democracia portuguesa, outra pergunta veio para reger esta pesquisa: O que é democracia para a imprensa? Como respostas, vieram ainda mais perguntas: Seria ela um cenário já constituído, estabelecido por uma norma e seguida a risca pelos cidadãos. Ou seria algo ainda em formação e conflito? Teria a democracia na imprensa uma ideologia? Qual?
Ampliando ainda mais os problemas colocados, pensou-se na questão dos media populares, mais especificamente os jornais. Neste cenário, buscou-se questionar a sua dúbia função ao carregar a palavra popular, que joga no cenário de análise o seu papel político e social. Por este motivo, surgiu a curiosidade de entender como um jornal comercial, assumidamente destinado para o “povo”, trata da democracia. Buscou-se entender quais os contextos, os personagens e as ideologias que a imprensa destaca.
Este artigo tem como objetivo demonstrar e discutir aspectos despolitizantes em textos do jornalismo que se referem à democracia. Analisa-se temas ligados ao contexto português, discutindo tópicos que foram politicamente relevantes no início do século XXI. A pesquisa fundamenta-se na necessidade de debate da relação entre imprensa e democracia. Defende-se que boa parte da despolitização do discurso sobre democracia na imprensa é provido de uma super valorização à representação (onde os cidadãos são pouco ativos na construção do debate político), vinculada a um apagamento da participação por meio dos cidadãos.
Este texto é a compilação do resultado de uma tese de doutorado defendida pelo programa doutoral Democracia no século XXI, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Os resultados alcançados irromperam da análise de textos retirados da imprensa popular comercial, especificamente, com os jornais diários “Correio da Manhã” e “Jornal de Notícias”. Escolheu-se estas publicações por possuírem características de imprensa popular, sendo que as suas emergências não remontam a ações populares, ou seja, não emergem de um ato direto do povo. Por isso, considera-se estes meios como instrumentos construído e executado por uma elite simbólica, que visa um público específico, caracterizado pelo termo popular, no sentido estrito.
Foi a partir destas questões que esta pesquisa foi se desenvolvendo. Escolheu-se o contexto português e o período de transformações no pensamento e na abordagem sobre a democracia, no princípio do século XXI. Este artigo analisa a amplitude da democracia em textos publicados na imprensa popular de Portugal. Exploram-se, aqui, algumas abordagens que retiram temas de seus contextos históricos, sociais e políticos e\ou evitam a identificação de agentes de poder inseridos em determinados acontecimentos. Buscou-se debater e apontar instrumentos que são utilizados para que a leitura sobre a democracia fique perdida meio a distintos ruídos. Este texto utiliza-se da análise de conteúdo e de discurso como ferramenta para refletir sobre o que se diz acerca de democracia na imprensa e, de forma paralela, aborda a relação dos media na eleição de uma visão hegemônica de democracia, ou seja, baseada em um conceito fundamentado em uma ideologia representativa e liberal.