Esta comunicação tem como objeto a cidade de Lisboa e a memória da resistência à ditadura estadonovista (1933-1974). De entre as múltiplas leituras que um objeto tão complexo como a cidade permite, esta comunicação trata da relação entre a cidade de Lisboa e os seus lugares do político, explorando a relação entre o presente, no contexto de uma sociedade democrática (pós revolução de 1974), e o passado, durante o longo período ditatorial do Estado Novo. A articulação entre estes dois tempos é feita através da análise da questão da inscrição na cidade – ou da sua ausência – da memória da resistência à ditadura do Estado Novo. Assume-se que é fundamental analisar a dupla dimensão – espacial e simbólica – dos lugares do político bem como o processo histórico a eles associado, com os diferentes tempos e conjunturas históricas, de modo a surpreender os seus relacionamentos e complexidades, bem como as batalhas pela memória. Assim, pretendemos articular os combates do passado com as expectativas de futuros.
Uma leitura de Lisboa feita com base nos lugares do político – territórios de confronto – surpreende diferentes realidades. Num primeiro nível de análise, que nos remete para o passado ditatorial, a cidade de Lisboa foi o território das práticas e dos processos de resistência ao Estado Novo, do confronto, físico e desigual, entre os opositores e o aparelho repressivo do regime. Pretende-se mostrar como a cidade, que a ditadura pretendia que fosse um território ordeiro, foi sempre, ao contrário o lugar do confronto.
Num segundo momento, a análise de Lisboa como território de confronto, de revolução e de resistência investiga a cidade hoje – em 2018 – refletindo sobre a inscrição (ou a ausência) na cidade da memória da resistência bem como as respetivas batalhas travadas pela memória durante o ciclo democrático iniciado com a Revolução de 25 de Abril de 1974.
Imediatamente depois da Revolução dos Cravos de 1974 assistimos a um movimento de destruição de certo modo iconoclasta, física e simbólica de iniciativa popular revolucionária que é importante referir, como parte do processo mais amplo de luta pela memória inscrita na cidade.
Durante o período democrático, ou seja desde 1974 até à atualidade, foram sendo construídos na cidade lugares de memória, num reconhecimento de figuras significativas da resistência e da oposição ao Estado Novo, bem como, em menor número, dos combates coletivos contra o regime, que cumpre analisar. Interessa-nos, neste caso investigar tanto os monumentos construídos como a toponímia - numa perspectiva crítica, enquanto rede de significados. Neste caso, é importante debater os agentes e as dinâmicas que permitiram este reconhecimento, distinguindo as iniciativas associadas ao poder central ou municipal, ou as que nasceram de iniciativas cidadãs.
Por outro lado, a análise do espaços e práticas de resistência, feita no primeiro momento desta comunicação, permite-nos confrontar a cidade com as suas ausências e com as suas liminaridades– entre o que não está esquecido, mas não é lembrado.
Mas a leitura da cidade de Lisboa também nos revela as permanências da forma como o Estado Novo pensava e apresentava a história de Portugal. De entre as questões mais complexas e delicadas está a do Império e a forma como a sociedade analisava – e analisa ainda hoje – a expansão portuguesa.
Através da análise de alguns dos casos mais significativos e emblemáticos procurámos ler a história contada por Lisboa, no que à inscrição da memória da resistência diz respeito, reconhecendo a forma como a memória e o esquecimento – inadvertido ou conciliador – moldam a cidade.
A história que a cidade conta, como têm mostrado recentes exemplo de contestação de toponímia e de monumentos, em vários locais do mundo, não está fechada e continua a ser um território disputado por diferentes forças políticas. As batalhas pela memória passam, definitivamente, pela inscrição na cidade, entendida como o território do político. A decisão do que queremos relembrar continua a ser uma parte fundamental da vivência da cidade.