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Resumen de ponencia
Como os torcedores pensam o questionamento de suas práticas heterossexistas e racistas nos estádios de futebol?

*Gustavo Bandeira



Algumas proibições sobre manifestações de torcedores têm aparecido nos estádios de futebol. A interdição aos cânticos racistas está mais explícita do que aos cânticos entendidos como homofóbicos. A FIFA, inclusive, já aplicou sanções e as interdições aparecem de maneira mais explicita nas regras do jogo. Além desse combate a termos com referencial racista, alguns grupos nas redes sociais e a própria FIFA se posicionaram favoráveis à diminuição dos insultos machistas e homofóbicos nos estádios de futebol. No senso comum ainda é possível escutar entendimentos de que o futebol, especialmente em suas praças esportivas, permitiria uma liberação das normas sociais, sendo mais permissivo que outros ambientes culturais para manifestações de diferentes ordens. Os comportamentos dos torcedores nos estádios de futebol não são naturais. Os estádios de futebol inserem os sujeitos em diferentes pedagogias. Ele é um espaço de vivência intensa de diferentes conteúdos produzidos sobre gênero, emoções e sobre o torcer. Nesse ambiente historicamente associado ao masculino, uma série de ações são entendidas como legítimas a partir de processos de naturalização que mais do que marcarem as opções fragilmente consensuadas de vivência nesse espaço, marcam algumas das formas de manifestação como as únicas possíveis. A naturalização de determinadas práticas acaba por mascarar que os sentidos são sempre disputados. Esse processo de naturalização, que conta com a reiteração das performances a cada partida, acaba permitindo que o estádio de futebol seja entendido como um espaço privilegiado para determinadas práticas e, mais do que isso, capaz de dividir algumas ações entre ‘dentro’ e ‘fora’ do estádio. A violência é um dos temas mais presentes nas discussões sobre o futebol. Com forte expressão na mídia especializada, rende intermináveis debates, especialmente, nas discussões que envolvem as torcidas, com maior constância quando se tratam das torcidas organizadas. Práticas corporais dos atletas poderão ser chamadas de violentas ou serem entendidas como parte inerente das partidas. Durante as partidas, a utilização da força para vencer uma jogada poderá ser utilizada como registro legítimo. Uma falta praticada poderá gerar uma série de discussões sobre se essa jogada é legal ou não, se o árbitro deveria punir os envolvidos com cartão amarelo ou vermelho... Revidar ou não a uma agressão também é uma atitude valorada de forma distinta em situações diferentes. A violência, como qualquer outro conceito que tem seu significado produzido na cultura, não é um conceito essencial, fixo ou estável. Algumas manifestações violentas poderão ser adjetivadas de monstruosas, hediondas, terríveis. Outras poderão ser entendidas como legítimas e desejáveis, sendo naturalizadas em um determinado contexto e entendidas como não violentas. É produtivo pensar que essas classificações e adjetivações não são um ‘reflexo’ das ações, mas são constitutivas do entendimento possível que acabam por produzir algumas ações como violentas e outras como não violentas. É possível pensar que a violência no esporte, tal qual gênero e sexualidade, seja performativamente construída na tensão entre legitimidade e ilegitimidade. Entendendo que um conjunto significativo de práticas torcedoras tenha sido colocada em questão contemporaneamente, neste trabalho pretendo apontar como os torcedores que frequentam estádios interpretam esse questionamento de práticas bastante naturalizadas por esses atores. O tempo do jogo foi solicitado em diferentes oportunidades para justificar que o que se passa no estádio de futebol seria restrito aquela socialização bastante pontual, que envolveria os processos de chegada ao estádio e se dissiparia quando da saída deste ambiente. Os torcedores reconhecem que os ditos nos estádios podem ser recebidos por um público que não estaria acostumado com essa socialização de maneira distinta da forma como é acolhida nesse ambiente. Aqui, existe uma disputa por significados em que ora os torcedores parecem não estar muito preocupados em explicar essas significações, deixando-as subordinadas a uma estética do estádio que eles pretendem mais específica, ora procuram argumentar que os termos que ali aparecem não possuem o mesmo significado que em outros contextos culturais. Em diferentes oportunidades esse público que não estaria acostumado com as práticas dos estádios poderia ser nomeado como politicamente correto. Os torcedores entendem que essa suposta ética do politicamente correto estaria espalhada no circuito mais amplo da cultura ocupando certa normativa sobre o discurso público.




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* Bandeira
Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS. Porto Alegre, Brasil