O propósito desta comunicação é problematizar imagens naturalizadas sobre a matemática que na escola se processa como efeito da colonialidade do saber. Como atitude metódica orientamo-nos na perspectiva terapêutico-desconstrucionista, inspirados na forma de fazer e pensar filosofia terapêutico-gramatical do filósofo Ludwig Wittgenstein e da filosofia desconstrucionista de Jacques Derrida. Alinhando-nos à crítica desconstrucionista da tradição metafísica do pensamento ocidental realizada de modos distintos pelos dois filósofos, procuramos articular as impossibilidades de estar plenamente dentro ou inteiramente fora das formas de vida e questionar as instabilidades entre as supostas fronteiras que separam um dentro de um fora da escola.
Cada forma de vida inventa modos de organizar a vida comunitária através da participação de seus membros numa multiplicidade de jogos de linguagem ou práticas culturais diferenciadas que mobilizam propósitos, crenças, saberes, valores, desejos, memórias e relações de poder. Dentre as diferentes formas de vida em interação no mundo, esta pesquisa focaliza a instituição escolar e, particularmente, a educação (matemática) que nela se processa. Partindo da constatação de que a educação escolar - e, por extensão, a educação matemática escolar - constituiu e constitui um problema para os Estados nacionais que a instalaram, após terem sido submetidos a processos de colonização. O propósito que orientou a escrita da tese foi o de descrever terapeuticamente aspectos do desejo de escolarização moderno a partir das diferentes significações que eles apresentam, tanto para a Comunidade indígena Gunadule de Alto Caimán (Colômbia) – junto à qual realizamos o trabalho de campo que orienta a referida descrição terapêutica -, quanto para outras formas de vida a que fomos remetidos no percurso investigativo.
Esta pesquisa articula-se a um dos desafios atuais postos a todos, que é cuidar ou ‘preservar’ a diversidade de formas humanas e de todas as formas naturais de vida (animais e plantas), é preciso entender os efeitos do processo de dominação epistemológica baseado na hegemonia da concepção de conhecimento do europeu, e ao mesmo tempo, repensar as formas de se praticar a pesquisa. Entendendo que ao falarmos de “cuidado ou preservação” não estamos referindo-nos ao sentido de cristalização ou imutabilidade de uma ‘suposta identidade cultural originária’ de cada uma das formas de vida envolvidas neste processos, pelo contrário, nos referimos ao estudo das formas de diálogo intercultural pós-colonial , isto é, ao fato de pensar que não mais se proceda na pesquisa com base na imposição unilateral de valores, formas de ver e pensar de uma cultura a outra, o que poderia assegurar a autonomia de cada forma de vida condicionada.
Por tanto, ao procurar inverter e deslocar as ordens estabelecidas como efeitos da colonialidade nas suas diversas manifestações , como Aníbal Quijano já nos apresentou em varios de seus textos, é necessária uma descompactação que procure romper com diversas categorias pensadas como “universais’, estudar e questionar não apenas as experiências, identidades e relações históricas que se sustentam na imposição de uma classificação étnico-racial da população mundial colonizada, ao mesmo tempo que questionar a dieta unilateral de imagens sobre a Matemática que na escola se processa.
Tal descompactação, implica perguntar-se, qual é o papel de toda a concepção moderna de conhecimento (Matemático) acumulado nas maneiras em que organizamos a vida? Este questionamento se coloca para repensar criticamente o modelo de racionalidade que preside a ciência moderna e, que se tornou, ao longo da história, um modelo global como efeito da colonialidade do saber mediante usos da escolarização.
Assim, é de nosso interesse questionar essa naturalização e neutralidade da Matemática ao inverter e deslocar as ordens dessas imagens que nos aprisionam, que tem-se perpetuado com a colonialidade do saber, provocando uma fragmentação dos conhecimentos, ao mesmo tempo, que se legitima uma dominação epistêmica, que, se organiza na base da hegemonia da concepção de conhecimento Matemático eurocêntrico. Tal concepção moderna de conhecimento Matemático, não só, se perpetua como efeito da escolarização, mas ao mesmo tempo, inspira a organização curricular e a própria escola.
Assim, este artigo mais do nos trazer respostas, pretendemos abrir discussões desde a Educação Matemática, em especial desde a Etnomatemática, a respeito dessas imagens da Matemática que na escola se processam e que nos mantem presos como efeito da dieta unilateral alimentada como efeito da colonialidade do saber, e que opera através da naturalização de hierarquias territoriais, raciais, culturais e epistêmicas, que têm possibilitando relações de dominação epistêmica e com isto a subalternação de conhecimentos e experiências.