As formulações teóricas de Jürgen Habermas são uma referência fundamental para estudos de diversas áreas das ciências humanas que têm como foco as relações entre o Estado e a sociedade civil. Categorias como “esfera pública” e “ação comunicativa”, da forma como foram elaboradas por ele, constituem parte significativa do repertório sociológico, pois se firmaram como conceitos incontornáveis na abordagem de temas relevantes à vida democrática nas sociedades atuais (HABERMAS, 1987, 1992, 2003). A sociedade contemporânea se dirige frequentemente à noção de esfera pública em busca de uma articulação conceitual entre o público e as instituições sociais. Com efeito, ela é, ao mesmo tempo, uma realidade delineada historicamente e um princípio normativo para a sociedade, capaz de explicitar alguns mecanismos importantes relativo à circulação das ideias.
Não obstante o potencial analítico e heurístico fornecido por essas categorias, alguns pontos da obra habermasiana estiveram sujeitos a críticas diversas, levando o autor alemão a realizar, ao longo do tempo, algumas redefinições em seus conceitos, sobretudo, em relação à noção de esfera pública, que, segundo alguns autores, teria sido concebida por Habermas de maneira a destacar suas características integradoras, em detrimento dos aspectos que impossibilitam a participação plena por parte de diversos grupos e indivíduos (FRASER, 1992; CALHOUN, 1992). Atento a essas críticas, e às reformulações concebidas por Habermas, neste trabalho traço uma comparação entre o autor alemão e Jeffrey Alexander, buscando averiguar se a teoria de Alexander sobre as performances pode ajudar a complementar as formulações habermasianas, ainda que elas sejam concebidas a partir de logicas teóricas distintas, no sentido de ajudar a entender o sucesso ou fracasso dos processos comunicativos empreendidos pelos intelectuais. O sociólogo americano tem uma extensa obra, que aborda temas distintos, como os movimentos sociais dos mais diferentes matizes (ALEXANDER, 2006a, 2011, 2017), processos eleitorais (2010), a esfera civil (2006a), além de aprofundadas reflexões sobre a própria natureza e objeto da teoria sociológica (1987, 2017).
Apesar da complexidade social existente nas sociedades modernas, em que há uma distância cada vez maior entre atores e audiências, Alexander assinala a existência de um centro simbólico que constitui uma espécie de metalinguagem cultural compartilhada: o discurso da “salvação civil”. No discurso civil, a disputa sobre o controle simbólico se traduz na distinção simbólica entre “cidadão” e “inimigo”, par binário que só se constitui relacionalmente, o que implica a constituição recíproca da inclusão e da exclusão social, uma vez que a definição do “cidadão” se realiza em sua distinção em relação aos que são vistos como “perigosos” e “inimigos” do país, da democracia, etc. Nesta luta simbólica, Alexander vê como central a atuação dos intelectuais, bem com como a dos movimentos sociais. No entanto, o tipo de recurso cultural mobilizado por mulheres e homens de ideias não teria a ver, para ele, com a persuasão racional, e aqui ele se afasta de Habermas, mas com a criação de narrativas estimulantes e voltadas à criação de significado cultural sobre a sociedade e seus conflitos principais. Para ele, intelectuais são como que profetas e sacerdotes que condensam e articulam significados sobre o mundo social, que podem ganhar adesão mais emocional que cognitiva dos agentes sociais. O intelectual seria a encarnação icônica do compromisso com os valores do “universal” codificados pelo discurso da “salvação civil”, e seu poder estaria associado com a capacidade de difusão de suas imagens sobre a sociedade para vastas audiências, mesmo para aqueles grupos à primeira vista distantes da vida intelectual.
Nas últimas décadas, Alexander vem empreendendo esforços para desconstruir o que ele denomina “programas fracos” da sociologia da cultura (2006b, 2011, 2017). A pedra angular da interpretação oferecida por ele reside na premissa de se buscar os princípios explicativos da cultura no horizonte de significados capazes de orientar a ação simbólica. O “cultural” não deve ser buscado em uma dimensão exterior à própria cultura, mas, como algo que permite a reprodução e a transformação das estruturas sociais. Essa visão implica o reconhecimento de uma autonomia relativa dessa instancia frente às outras dimensões, fazendo com que a cultura opere como uma “variável independente” na conformação de ações e instituições, e não como um subsistema. Trabalhamos com a hipótese de que a noção de performance, ao abordar diretamente as ações simbólicas, propicia um melhor entendimento a respeito do sucesso ou o fracasso dos processos de comunicação ocorridos nas sociedades modernas, marcada pela explosão e autonomização das audiências, característica que, segundo nosso entendimento, restringe o sucesso das formas de ação puramente racionais. De forma secundária, iremos averiguar se a chamada “sociologia cultural” de Jeffrey Alexander representa uma abordagem que proporciona uma melhor articulação teórica para o problema da integração entre os sistemas e a cultura do que aquela possibilitada pela noção de “mundo da vida”, de Habermas.