No cerne das primeiras discussões sobre cotas raciais, havia um grupo de intelectuais liderados por um conhecido sociólogo e dono de grande conglomerado midiático, Ali Kamel. Eles se colocaram contra ações afirmativas e estiveram à frente de um grande esforço da mídia em produzir notíciais calcadas no mito da democracia racial, cuja produção acadêmica fundamentou a Ação de Descumprimendo de Preceito Fundamental 186 proposta pelo Partido dos Democratas, julgada em 2012 pelo STF, onde foi declarada a constitucionalidades das cotas por unanimidade.
É mister evidenciar de que forma as ideologias implícitas nas notícias desses jornais de grande circulação influenciam na problematização das relações raciais – ao invisibilizá-la, corrobora com a naturalização de uma mentalidade colonial e racista, que reserva para as populações negras as posições mais subalternas e para as populações brancas, os lugares de maior privilégio.
O impacto das ações afirmativas tem causado mudanças significativa na vida de milhares de famílias negras pelo país. A reverberação nacional da discussão sobre as relações raciais entra com cada vez mais força para dentro das casas das periferias através das redes de apoio e da mídia, que não pode mais adiar e está sendo obrigada a repensar a forma como representa as pessoas negras em seus programas e páginas.
Este trabalho se propõe a evidenciar a importância da organização social negra em instituições de ensino superior, por meio da construção do Coletivo de Estudantes Negros – Iolanda de Oliveira, na Universidade Federal Fluminense, enquanto espaço de resistência, liberdade, empoderamento, fortalecimento, politização, estudos e afetividade. Utilizando para esse fim a análise de entrevistas qualitativas sobre as atividades em que se engajaram seus membros durante a existência do grupo. Entendendo que a formação de grupos/coletivos se deve ao aumento gradual da presença de estudantes negros/as, beneficiados pela adoção das políticas de ações afirmativas pela UnB, pretende-se evidenciar não só a realidade das relações interraciais na UFF, da ação do Racismo Institucional, promovendo assim, a reflexão sobre a maneira com que ocorrem as dinâmicas sociais em relação à raça na universidade, mas também a força do engajamento do “novo público” que ingressou nesta universidades federal e de como a organização coletivo é potencial para “abalar as estruturas” deste Racismo.
Alicerçado por centenas de pesquisas oriundas do trabalho intelectual de negros, apoiado na experiência de vida e nos exemplos e legados do movimento negro, portas a dentro da universidade, o Coletivo de Estudantes Negros da UFF – Iolanda de Oliveira, o CENUFF tem feito sua parte. Desde que foi fundado, em 2013, pelos alunos de graduação, Ana Luiza Monteiro Alves – a Nalui (Estudos de Mídia), Nathali Ferreira de Deus Lima (Antropologia), Maiah Lunas (Ciências Sociais), Luciene Cunha (Ciências Sociais), Iran Santos (História), Vitor Hugo Monteiro Franco (História), o Coletivo de Estudantes Negros da UFF tem se esforçado para transformar a estrutura da instituição para beneficiar a população negra que usufrui ou que usufruirá da universidade.
Com o intuito de resgatar nomes de intelectuais negros invisibilizados, a exemplo de outros coletivos e instituições ligados aos movimentos sociais, o grupo resolveu que se chamariam Iolanda de Oliveira, homenageando a primeira professora negra da UFF e que até hoje ministra aulas na Faculdade de Educação.
Sendo a UFF uma das instituições de educação superior que mais sofreu expansão após a Lei de Cotas, teve o ingresso de muitos negros. Assim, os alunos do CENUFF, aliados a outros grupos e alunos independentes realizaram uma série de intervenções na universidade, conquistando transformações tanto nas vidas pessoais de muitos negros, como suporte afetivo em vários momentos, como estruturais. Estas últimas passamos a enumerar de maneira genérica neste trabalho, para futuramente abordar com maior detalhamento durante a exposição presencial, caso essa proposta seja aceita, acompanhadas de imagens e vídeos curtos de depoimentos, se a estrutura assim o permitir: cotas em cursos de pós-graduação – mesmo com uma Lei Federal, a maioria dos cursos de pós-graduação da UFF ainda não adotaram medidas de ação afirmativa para fins de ingresso; concurso para professor especializado na estudo de Sociologia das Relações Raciais – demanda iniciada e duramente batalhada diariamente pelos alunos negros, que por felicidade conseguiram e hoje, quem ocupa a cadeira é a Profa. Dra. Flávia Rios; grupo de pesquisa empírica que estudou a situação das ações afirmativas na Faculdade de Direito, coordenado pelo Prof. Dr. Delton Meirelles – o grupo trouxe dados alarmantes sobre a invisibilização do graduando negro, por exemplo, nas pesquisas de graduação e, através de reuniões com diretoria da Faculdade e da UFF, conquistaram cotas raciais para bolsas de monitoria de disciplinas e para estágio interno no âmbito de toda a universidade; grupo de estudos de autores negras e negros; disciplinas que abordam o temas que atendam a Lei 10.639 de 2003; Comissão de Aferição de Autodeclaração Raça-Cor; cursinhos auto-organizados de preparatórios para ingresso em mestrados e doutorados; além de outras ações como palestras, mini-cursos, rodas de conversa, campanhas visuais com cartazes, entre muitas outras inicitativas, informam Nalui e Nathali.
Além disso, outros grupos foram criados fortalecidos pela existência do CENUFF, contando, ou não, com a participação de seus membros, como o Grupo de Pesquisa Anastácia Bantu, que estuda teoria discriminatórias de gênero e raça a partir do pensamento de mulheres negras; o Coletivo Caó, de estudantes negros da Faculdade de Direito, etc.
Essas iniciativas demonstram o caráter exponencial e concreto da entrada de negros da universidade pós ações afirmativas. Quanto mais entraram, mais possibilidade de pluralização de conhecimento e oportunidades estão ocorrendo na instituição, que, como informa Luciene, “esta transformando a UFF, aos ‘trancos e barrancos’, e isso é para o bem de nós todos, da democracia, da saúde mental de todos os membros desse lugar”.
Enfim, terminamos com a palavra de uma das nossas integrates, Erli Santos, que afirma que “a luta antirracista, Coletiva, nossas necessidades, nossa força, identificando a multiplicidade de vozes que muito dizem sobre isso, é, no meu entendimento, uma ferramenta poderosíssima, porque permite a cada uma e cada um de nós, e ao grupo, maiores possibilidades de seguir em frente, levando muitos conosco hoje”.