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Resumen de ponencia
A interconexão e a interdependência entre as políticas locais e globais do ciclo ativismo feminista contemporâneo

*Tereza Rafaella Cordeiro Maciel



A presente pesquisa, ainda em curso, analisa o movimento denominado de ciclo ativismo feminista contemporâneo, que tem como foco a dinâmica desenvolvida na relação entre as mulheres e a bicicleta na atualidade. Para esse movimento, historicamente, a bicicleta é uma importante ferramenta de luta pelo empoderamento feminino, combatendo o machismo, além de instrumento potencial para a conquista da liberdade das mulheres e da reivindicação do direito delas à cidade, tendo contribuído desde o seu surgimento para uma nova configuração social e modernizando os papéis das mulheres na sociedade, inclusive tendo uma forte influência sob suas vestimentas e comportamentos.
O objeto de pesquisa elencado são grupos ciclo ativistas feministas mais preponderantes na contemporaneidade no Brasil e no mundo. O estudo iniciou-se com a compreensão das atividades desenvolvidas no projeto ciclo feminista Pedalzinho das Mina, grupo de mulheres ciclistas localizadas na cidade de Fortaleza, estado do Ceará, no Brasil e, dando continuidade a esta análise, expandimos a pesquisa para outras regiões deste país e do mundo.
Parto assim da perspectiva de que as políticas trazidas por este grupo específico se relacionam com diversas pautas reivindicadas por outros grupos não só a nível local, mas com um alcance global, sendo responsáveis pela integração cada vez maior das mulheres na sociedade contemporânea em busca de um ideal comum.
A inquietação acerca desse tema surge quando do desejo de praticar ciclismo em 2016 e deparar-me com uma situação de impotência em meio ao trânsito caótico e aos constantes assédios por que toda mulher passa ao tentar “aventurar-se” nas ruas de uma cidade. Foi então que decidi procurar grupos de pedal que pudessem me auxiliar e, para a minha surpresa, encontrei o projeto Pedalzinho das Mina, onde realizei entrevistas e observações-participante e que, além de ensinar mulheres a pedalar e promover passeios de bicicleta, aborda várias questões relacionadas ao respeito às mulheres ciclistas no trânsito, a extinção do assédio sexual nas ruas, à uma melhor mobilidade urbana, à infraestrutura adequada ao ciclismo nas cidades e, principalmente, incentivam o uso da bicicleta como transporte e como meio de assegurar uma cidade menos poluída, menos engarrafada, com uma forte pauta acerca da sustentabilidade e do uso consciente dos espaços públicos. Elas realizam oficinas de mecânica básica de bicicleta, seminários, rodas de conversa, ciclo viagens (viagens feitas de bicicleta), ensinam como empreender com a bicicleta, promovem eventos de corrida de bicicleta como o 100 gurias 100 medo e o Velo-City, além de se fazerem presentes em diversos encontros mundiais, como o Bicicultura e o Fórum Mundial da Bicicleta que visam colocar em pauta o uso da bicicleta como meio de transporte não-poluente sustentável, propagando e incentivando outras mulheres a adentrarem nesse universo tão amplo de promoção de igualdade de gênero, direito à cidade e sustentabilidade.
Ao aprofundar a pesquisa em vários sites e noticiários das redes sociais acerca do tema, observamos que existem diversos outros grupos espalhados pelo mundo que trazem essas e outras pautas para debate. Descobrimos pelo menos 30 coletivos distribuídos nas mais diferentes regiões do Brasil e outros grupos ou mulheres ciclo ativistas em destaque em diversos lugares do mundo como Arábia Saudita, Iêmen, Los Angeles, EUA, Washington, Dinamarca, Holanda, Uruguai, Equador, Amsterdam, entre outros. Este fato nos fez perceber a magnitude da dimensão do alcance desse movimento, a nível global e, nos permitiu uma atualização dos objetivos da pesquisa que, agora, tenta compreender de que maneira as pautas locais, como por exemplo, a reivindicação do direito à cidade pelas mulheres, refletem nas diversas políticas globais de infraestrutura, urbanização e mobilidade urbana da sociedade contemporânea.
Ou seja, buscamos entender como se dá a interconexão e a interdependência entre as políticas locais e globais do ciclo ativismo feminista contemporâneo. Para isso, partimos do seguinte questionamento: Quais são os links que configuram as relações de cumplicidade e lutas de resistência entre as mulheres ciclo ativistas no Brasil e no mundo? Ou seja, quais os pontos que unificam essas mulheres, que tem a bicicleta como instrumento de expressão de suas lutas, mesmo que estas vivenciem realidades tão diferentes? E ainda, que tipos de cumplicidade e lutas de resistência perpassam os vários grupos ciclo ativistas feministas em escala mundial? Como é possível observar a interconexão entre as expressões “o pessoal é político”, tão difundido no feminismo do século XIX, e “o político é pessoal” relacionado com nossa atual onda do feminismo, chamada de 4° onda? Para tanto, me baseio em alguns referenciais teóricos que tratam do tema para conhecer melhor as situações e condições em que essa interconexão acontece.
Giddens (p. 194, 2002) define que

[...] a política emancipatória é como uma visão genérica interessada, acima de tudo, em libertar os indivíduos e grupos das limitações que afetam negativamente suas oportunidades de vida. Ela envolve dois elementos principais: o esforço por romper as algemas do passado, permitindo assim uma atitude transformadora em relação ao futuro; e o objetivo de superar a dominação ilegítima de alguns indivíduos e grupos por outros.

Ainda Segundo Giddens (2002, p. 195), “[...] a política emancipatória torna imperativos os valores de justiça, igualdade e participação. “ Por outro lado,

[...] a política-vida supõe (um certo nível de) emancipação da rigidez da tradição e das condições da dominação hierárquica (...), entretanto, a política-vida não diz respeito principalmente às condições que nos libertam para que possamos escolher – ela é uma política da escolha. Enquanto que a política emancipatória é uma política das oportunidades de vida, a política-vida é uma política do estilo de vida. A política-vida é a política de uma ordem reflexivamente organizada – o sistema da modernidade tardia – que, num nível individual e coletivo, alterou radicalmente os parâmetros existenciais da atividade social. É uma política de auto realização num ambiente reflexivamente organizado, onde a reflexividade liga o eu e o corpo a sistemas de alcance global. Nessa arena de atividade, o poder é gerador e não hierárquico” (GIDDENS, 2002, p. 197).

Nesse contexto, observamos uma forte presença da “reflexividade” (GIDDENS, 2002) das práticas sociais, grande característica da vida social moderna e pós-moderna ou modernidade líquida (BAUMAN, 2001). “Reflexividade” significa que as práticas sociais são “constantemente examinadas e reformuladas à luz de informação renovada sobre estas próprias práticas, alterando assim constitutivamente seu caráter” (GIDDENS, 1991, p.45).

O movimento das mulheres foi pioneiro da política-vida ao explorar a ideia de que o “pessoal é político”, afirma Giddens (2002, p. 198).

O feminismo pode ser visto de maneira mais apropriada como inaugurando a esfera da política-vida – embora, é claro, interesses emancipatórios continuem fundamentais para os movimentos das mulheres. O feminismo, pelo menos em sua forma contemporânea, foi mais ou menos forçado a dar prioridade à questão da auto identidade. ‘Mulheres que querem mais do que a vida familiar’, foi adequadamente observado, ‘fazem do pessoal político com cada passo que dão para longe do lar’. À medida que as mulheres cada vez mais ‘dão o passo’ para fora, contribuem para processos de emancipação. Mas as feministas logo viram que, para a mulher emancipada, questões de identidade tornaram-se de importância primordial. Pois ao se libertarem do lar, e da vida doméstica, as mulheres enfrentavam um ambiente social fechado. As identidades das mulheres eram definidas tão estritamente em termos do lar e da família que ‘davam o passo’ e entravam em ambientes sociais em que as únicas identidades disponíveis eram aquelas oferecidas pelos estereótipos masculinos (GIDDENS, 2002, p. 199).

Para dar prosseguimento a essa investigação, continuamos com a pesquisa de natureza qualitativa, entretanto, como a pretensão é analisar os grupos mais expoentes do movimento em vários países, ou seja, em escala global, não seria possível se fazer presente em todos eles, por isso optamos por fazer uma etnografia de forma virtual, ou seja, acompanhando continuamente e constantemente as relações travadas entre esses grupos via redes sociais, entendendo a importância que os aportes tecnológicos trazem para a vida contemporânea, já que a maioria das comunicações são travadas a nível virtual. Também está prevista a participação em três eventos que ocorrerão no Rio de Janeiro em junho deste ano, o Bicicultura, o 100 gurias 100 medo e o Velo-City, já citados anteriormente. Já foram estabelecidos contatos com algumas mulheres que estão à frente da organização do evento e que podem ser importantes intermediárias no estabelecimento de contato com grupos de mulheres ciclo ativistas de outras partes do mundo que se farão presentes nos eventos. Foi possível estabelecer comunicação via rede social com uma importante ciclo ativista feminista estadunidense, antropóloga, que já publicou um livro chamado Bikenomics, que trata da bicicleta como um importante meio de contribuição para a economia de um país, no caso dos Estados Unidos e que também se mostrou aberta a contribuir com a presente pesquisa. É nesse acompanhamento e no estabelecimento de contatos virtuais que buscamos realizar e aprofundar essa importante análise que visa contribuir com soluções alternativas e sustentáveis para o equilíbrio e cuidado do planeta, assim como ressaltar e reivindicar os direitos de todas as mulheres aos espaços públicos, ao fim do machismo e à igualdade de gênero.
As conclusões poderão ser colocadas na apresentação oral, com a pesquisa já encaminhada.




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* Cordeiro Maciel
Laboratório de Estudos da Violència. Programa de Pós-Graduação em Sociología. Departamento de Ciências Sociais. Ctro. de Humanidades.. Universidade Federal do Ceará - LEV/UFC. Fortaleza, Brasil