Analisando os processos de colonização e ocupação do território brasileiro e, mais especificamente, do estado do Rio Grande do Sul, e a atual situação socioeconômica, política e cultural da população negra, a questão quilombola se destaca, configurando-se como dimensão fundamental nas discussões sobre as ações do estado frente a diversidade de modos de vida de sua população .
Considerando que as populações negras do Brasil são portadoras de um amargo legado de indiferença e exclusão social, violação de direitos, privação de posse e uso da terra, chama-se a atenção para o agravamento destas condições entre os grupos rurais, onde se localiza a maioria das comunidades quilombolas. As históricas práticas estatais de extermínio da diferença, ainda ativas apesar de terem suas origens nos intentos de criação de uma identidade nacional homogênea, se utilizam dos sistemas legais e da violência tendo como alvo preferencial determinados grupos sociais. No caso dos territórios quilombolas estudados neste trabalho observam-se, atualmente, práticas de cerceamento dos territórios e do entorno natural das comunidades - o que impede atividades particulares, como a medicina tradicional, práticas culturais e religiosas - perpetradas por agentes do poder público e por proprietários rurais vizinhos às comunidades.
Frente a esta situação, os moradores dos quilombos acionam práticas de proteção e resistência que compõem seu cotidiano e, muitas vezes, encontram suas raízes nos saberes dos antepassados escravizados. Desde formas específicas de se relacionar com o entorno e com os agentes estatais, de trocar e acessar recursos públicos e privados, passando pela manutenção dos territórios e da produção agrícola até as atividades de cura - sempre vinculadas ao uso de plantas e outros elementos naturais e à dimensão espiritual - a questão da proteção permeia o cotidiano afrobrasileiro desde o período colonial. De fato, para estas populações, a sobrevivência só foi, e ainda é, possível, através de complexos mecanismos de resistência.
Partindo destas observações, o primeiro objetivo deste trabalho passa pela análise dos modos de experimentar os mecanismos de proteção e resistência, que permeiam as vivências das coletividades quilombolas, passando por dimensões como a espiritualidade e a luta frente a um entorno hostil, caracterizado por ações e discursos baseados na segregação racial, que negam o direito à existência das comunidades.
Trata-se de abordar estas questões a partir do ponto de vista das pessoas diretamente imbricadas nelas, enfocando relações espirituais, familiares, raciais e políticas locais. A conexão entre estas dimensões é efetuada a partir dos modos de pensar e agir sobre sistemas que envolvem feitiços, possessões, relações com entidades invisíveis, cura. Com o aporte de uma bibliografia que confere estatuto ontológico ao que facilmente se rotula como crenças mágicas, o escrito foi elaborado a partir do trabalho de campo de um ano, desenvolvido pela autora em uma comunidade localizada no chamado Vale do Taquari do estado do Rio Grande do Sul.
Como segundo objetivo, buscar-se-á desenvolver uma discussão sobre como esta dimensão específica do cotidiano quilombola - forjada em um contexto histórico de violência e segregação - pode se conectar a uma discussão mais ampla sobre o Bem Viver e as formas de vida de comunidades tradicionais latinoamericanas. Buscando se afastar de concepções essencialistas, pretende-se apontar, partindo da situação marginalizada dos povos indígenas e afrodescendentes, como a questão da luta, da proteção e da resistência forjou práticas e costumes que compõem o cotidiano de muitos grupos na América Latina.
As práticas quilombolas podem acionar reflexões sobre a complexidade dos mecanismos de resistência acionados, desde o período colonial, pelos habitantes de diversos povos, presentes e passados, frente a conflitos baseados na exclusão e que questionam o direito à existência das comunidades. A importância destes mecanismos na garantia da sobrevivência e reprodução social e cultural de diferentes populações pode enriquecer o debate que vem acontecendo em todo o continente sobre o Bem Viver.