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Resumen de ponencia
Imigração japonesa no Brasil: uma análise de dois livros do sociólogo Hiroshi Saito

*Aline De Sa Cotrim



O objetivo deste trabalho é analisar os livros O cooperativismo na região de Cotia (1056) e O Japonês no Brasil (1961) de Hiroshi Saito (1919-1983) publicada entre 1947 e 1964 sobre imigração no Brasil. Ele fez parte do quadro de alunos e professores da Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo (ELSP), onde teve contato com cientistas sociais como Donald Pierson (1900-1995) e Emilio Willems (1905-1997). Saito dedicou boa parte de sua vida acadêmica ao estudo dos imigrantes japoneses no Brasil e os seus processos de inserção na sociedade brasileira, considerando as mudanças que ocorreram tanto para os imigrantes como para os locais onde eles se estabeleceram.
O tema deste trabalho são os estudos de relações étnico-raciais, e mais especificamente, os estudos de assimilação afeitos à imigração. Esta pesquisa está relacionada também à história das Ciências Sociais, à institucionalização da sociologia e dos estudos étnicos, e aos estudos sobre pensamento social no Brasil. Isso porque ao analisarmos a produção de Saito estamos analisando também o seu contexto acadêmico, o meio ao qual ele estava inserido quando as pesquisas de Ciências Sociais no país estavam ganhando espaço e legitimidade ao fazerem uso cada vez mais de métodos e teorias.
Hiroshi Saito foi um sociólogo que nasceu no Japão e imigrou para o Brasil em 1933. Após ter contato com o sociólogo Emilio Willems no início da década de 1940, como tradutor e informante de uma de suas pesquisas sobre a adaptação dos imigrantes japoneses, Saito começa a frequentar cursos na ELSP em 1947, de onde obtém o título de mestre em 1956. Saito defende o doutorado em Kobe no final da década de 1950. Fora do meio universitário, ele foi um dos responsáveis pela criação do Centro de Estudos Nipo-Brasileiros e do Museu da Imigração Japonesa.
A ELSP tinha sido fundada em 1933, com o apoio da elite paulista, que acreditava na importância da produção de conhecimentos científicos sobre a sociedade brasileira. A instituição foi marcada desde sua criação pela presença de professores estrangeiros, que buscavam fazer pesquisas empíricas com o intuito de gerar conhecimento sobre determinadas localidades que auxiliassem a criação de políticas públicas. Donald Pierson é um dos contratados pela ELSP, em 1939. Sociólogo formado pela Universidade de Chicago, foi o orientador de Saito no mestrado e manteve correspondência com Saito por pelo menos 30 ano. É por meio de Pierson, que Saito tem acesso a uma tradição de pesquisas empíricas vindas de Chicago, como entrevistas, histórias de vida e observação participante.
Outro sociólogo importante na ELSP foi Emilio Willems, que pesquisou sobre imigrantes alemães e japoneses. Conceitos como “assimilação” e “aculturação” são densamente discutidos por Willems, sendo o primeiro referente às mudanças na esfera social de um indivíduo, resultante do contato, direto e contínuo, dos grupos de culturas diferentes. Ele argumentava ainda que todo grupo humano tem cultura, e se ele tem cultura ele tem a capacidade de modifica-la de acordo com as necessidades, ou seja, todo grupo é assimilável. As pesquisas sociológicas realizadas por ele, e posteriormente por Saito, serviriam para conhecer os japoneses e outros grupos imigrantes e entender como seria possível ajuda-los a se assimilar à sociedade brasileira.
Os dois livros que analiso neste trabalho são frutos de pesquisas da década de 1950, quando Saito utiliza os conceitos e métodos que aprendeu na ELSP para compreender os conflitos étnico-raciais em comunidades imigrantes. Nestas pesquisas ele busca entender como o imigrante está se assimilando à sociedade brasileira, mostrando as dificuldades pelas quais ele passava neste processo longo e doloroso, e as características culturais das quais ele tem que abrir mão, como as vestimentas japonesas e os rituais religiosos, e as que adquire, como a língua portuguesa. A assimilação do imigrante japonês é compreendida pela ótica das influências de Saito que tratavam do tema, supondo uma fase inicial conflitiva com a chegada do grupo estrangeiro, em que as diferenças podem levar a momentos de tensão seguidos de um entendimento entre os grupos através de acordos que permitem a integração e incentivam as trocas culturais.
Influenciado pelas obras de Willems e Park, que utilizam esse conceito de forma central em suas análises, Saito analisa a instalação do sistema cooperativista na cidade de Cotia (SP) em sua dissertação de mestrado, em 1956. Este sistema cooperativista, que era fruto do processo de modernização que o Japão passou no final do século XIX, implicava, por exemplo, que seus membros se juntassem para que em maior número conseguissem negociar melhores valores para os seus produtos e comprar em grandes quantidades sementes e adubos. Além disso, a cooperativa em Cotia serviu como instrumento para a manutenção das características da cultura japonesa entre as suas famílias, e ao mesmo tempo ajudou a integrar os imigrantes à sociedade brasileira. Ela criou, por exemplo, uma escola onde as crianças japonesas aprendiam tanto japonês como o português. Saito mostra ainda que a cooperativa modificou os hábitos alimentares da população paulistana, inserindo batatas, verduras e frutas na sua alimentação cotidiana, e ajudou a moldar a imagem que o imigrante japonês tinha perante a sociedade brasileira, pois ele não mais representava uma ameaça imperialista, mas sim um trabalhador que ajudava a desenvolver o país.
Em 1961, Saito publica o livro O Japonês no Brasil – estudo de mobilidade e fixação, que faz uso dos dados das suas pesquisas de campo da década de 1950. Neste trabalho ele mostra que passado o período inicial de adaptação, o imigrante japonês busca se tornar proprietário, para acumular mais dinheiro e ser independente, e para isso ele, em geral, precisa se locomover espacialmente pelo país, saindo de São Paulo, principalmente, e indo para estados como o Paraná, que estavam desenvolvendo a agricultura. Com o crescimento financeiro do imigrante, e o final da guerra, quando ele desiste de retornar para o Japão, seus filhos tendem a abandonar a agricultura e mudar-se para o meio urbano em busca de outros tipos de empregos e uma educação superior. Contudo, Saito destaca que estes movimentos de urbanização e mobilidade espacial e ocupacional não são exclusividade do imigrante japonês, eles acontecem na sociedade brasileira como um todo, o que mostraria que ele estava assimilado a ela.
Em seus estudos, Saito procura destacar que os japoneses teriam trazido aspectos modernos para os seus respectivos locais de estabelecimento. Isto é, o imigrante seria o agente modernizador, civilizador da comunidade onde se instalava no país. Outra questão destacada por ele é a ideia de que os japoneses adotaram alguns aspectos da cultura brasileira, sem abandonar todos da sua cultura de origem. Para Saito, este processo de assimilação implicava na criação de uma nova cultura, que teria as características das culturas envolvidas no processo.




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* De Sa Cotrim
Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais PPHPBC. Rio de Janeiro, Brasil