O debate proposto nesse trabalho é uma abordagem sobre a “imprensa conselheira” e o “jornalismo de autoajuda”, enquanto significantes repertórios de narrativas de “técnicas de viver”. Apontamos ao fato de que o discurso prescritivo pautado no “cuidado de si” desenvolve por meio da comunicação de massa uma espécie de itinerário “auto terapêutico”; que promete aos indivíduos a gerência sobre suas trajetórias de vida, a partir de dois planos: o subjetivo, e o objetivo. Para além disso, apontamos esse modelo “auto terapêutico” como mais um mecanismo de transcendência para a “normalização do social”; entre os vários mecanismos de auxílio que os indivíduos têm procurado para superar descontentamentos originados de diversas esferas da vida contemporânea. Assim, as narrativas de “técnicas de viver” vinculadas a tal modelo, se presta a direcionar os indivíduos, por via do binômio: mal-estar solúvel / felicidade obrigatória. Se coloca, então, como um procedimento normatizador de uma busca metódica da satisfação para o descontentamento removível. O grande ponto de desdobramento e crítica a esse modelo de “normalização do social” em curso é seu caráter homogeneizante, que por via, pode ser apontado como um instrumento de normatização de subjetividades, não entendidas em sua pluralidade, por diretrizes sistêmicas. Dessa forma, o sucesso da autoajuda se vincula aos propósitos do capitalismo, aonde o ser humano deve corresponder ao imperativo não apenas do gerenciamento de si, mas, para além disso, do empreendedorismo de si mesmo, valorizando, assim, seu biocapital, e fazendo-o abandonar hábitos que venha a o depreciar. Tal panorama, corresponde a dois nichos de objetivos, sendo o primeiro, questões tangentes a autoestima, bem-estar e felicidade; e o segundo, questões de base pragmática, relativas ao sucesso, dinheiro, prestígio e saúde como fatores propiciadores do sucesso do “homem-empresa”. Buscar desenvolver a si mesmo e melhorar sua condição individual, a partir de tais dispositivos de autoajuda, deixa, então, de ser uma autoterapia prol normalização do social, e acaba se tornando uma diretriz sistêmica sobre a gerência das afetividades e biocapital, servindo assim, ao modelo de sucesso do homem-empresa forjado na lógica capitalista. Isso, pois, o sentido empregado por essa lógica do self made man, modula a ação do homem-empresa para uma prática de um conjunto de “técnicas de viver” que ao propor a remoção do mal-estar solúvel, entende por mal estar, justamente, o conjunto de características subjetivas que tendem a se refletir como empecilho na fabricação do sucesso individual mercadológico do homem. De outro modo, descarta qualquer pressuposto de fabricação de bem-estar subjetivo e felicidade que se estabeleça para fora de uma normatividade sistemicamente imposta sobre os projetos e trajetórias de vida desses indivíduos. Essa lógica, que pauta o bem-estar e a felicidade nas questões relacionadas a mobilização do biocapital humano, serve a uma ideologia de super-produção das capacidades efetivamente concorrenciais, própria sistema capitalista, na justificativa de suprir a necessidade das individualidades modernas. Tal constatação se baseia no fato de que a autoterapia proporcionada por tais “técnicas de viver” levam os indivíduos a requererem para si uma prática social forjada na ideia de superar concorrências, obter sucesso nas mais diversas áreas da atividade humana e com isso desagrega o valor de conteúdos subjetivos que possam ser forjados em uma lógica de cooperação comunitária. Isso, contudo, a partir de um discurso prescritivo que vende os valores do capitalismo e sua relação de efetivação por via do biopoder como bússola para a felicidade humana. Nossa crítica basilar a esse modelo normatizador das subjetividades contemporâneas, se dá no campo do apontamento de que a felicidade vendida a partir da autoajuda prescritiva desse modelo, dissolve relações humanas de cooperação comunitária, ao ponto de imprimir ao modelo de sucesso via cooperação o status de um caminho menos seguro ou menos indicado ao sucesso quando comparado a uma lógica da ampliação do individualismo metódico.