Na vasta bibliografia que discute acerca da chamada “cultura popular”, diferentes autores ressaltam o potencial de transformação ou de subversão desta, que aparece, por exemplo, como tática de dominados (CERTEAU, 2008), forma de luta (HALL, 2003) ou “arte da resistência” (SCOTT, 2013), ao mesmo tempo em que apontam as contradições envolvidas nesses processos. No contexto brasileiro, onde a “cultura popular” se constitui e se relaciona de forma muito imbricada com certas elites e com o Estado, as ambiguidades e as contradições em torno dessa classificação e das práticas que ela agrupa têm instigado relevantes reflexões acerca de tais aspectos (cf. CAVALCANTI, 2012; DAMATTA, 1994; GONÇALVES, 2001; ORTIZ, 1985).
Diferentes faces dessa dimensão política das culturas populares tem aparecido de modo importante em uma pesquisa etnográfica que atualmente desenvolvo sobre a prática cultural popular do Bumba-meu-Boi, na cidade de Fortaleza (Ceará, Brasil), tanto em minhas reflexões sobre a relação entre Estado e culturas populares, quanto nas próprias falas de diversos atores sociais que percebem ou apresentam o folguedo como arma simbólica para o enfrentamento das desigualdades e a desconstrução de “estigmas” (GOFFMAN, 1988).
Na região costeira da referida cidade, há um aglomerado de bairros conhecido como Grande Pirambu, comumente reduzido pelo senso comum à violência, à pobreza e à criminalidade, num processo de formação de estigmas que acabam por recair de variadas maneiras sobre os moradores e reforçar os efeitos das desigualdades e do sofrimento social na região. Por outro lado, nos últimos anos, tem ocorrido ali a intensificação de um movimento amplo de reconstrução de identidades (HALL, 2000) e de “memórias coletivas” (HALBWACHS, 2013), processo no qual um “passado” de lutas sociais e efervescência cultural popular dessa área é atualizado e acionado por certos sujeitos e coletividades, que se implicam nas dinâmicas do presente por meio de diversas práticas políticas, no sentido amplo do termo.
Dentre essas práticas, que obtêm parte de sua potência da reconstrução do passado, destaca-se a brincadeira do Bumba-meu-Boi, retomada e difundida na região após anos de “esquecimento”. A pesquisa sobre este teatro-ritual, baseada sobretudo na análise de performances (SCHECHNER, 2012) observadas diretamente e na interpretação de entrevistas abertas com os brincantes, tem destacado a constante reconstrução de identidades, performadas a cada apresentação dos grupos de Boi, e também construídas por discursos e narrativas, que organizam, atualizam e disputam memórias coletivas em torno dessa manifestação.
Embora o retorno ou o “levantamento” dos Bois tenha se iniciado de forma um tanto “espontânea” e localizada, a brincadeira passou a viabilizar aos atores outras formas de estar, de agir e de ser visto na cidade e a transformar estigmas sociais em signos identitários, constituindo-se como uma tática (CERTEAU, 2008). Tal tática parece criar brechas no interior de um sistema marcado pelo multiculturalismo que, como sugere Silva (2000), ora celebra, ora suporta a “diversidade”, mas não deixa lugar efetivo para a diferença e a “multiplicidade”.
Desse modo, cabe refletir sobre a tensão que esta prática cultural carrega, entre a identificação como investimento subjetivo e coletivo, inacabado, potente e performativo, por um lado, e a reprodução ou remarcação de linhas classificatórias que, em alguma medida, aprisionam o “popular”. Assim, o presente trabalho busca refletir sobre as potências e impotências (DELEUZE; GUATTARI, 1995) da referida prática, a fim de compreender como ela toma parte num movimento mais amplo de reconstrução identitária e como aspectos da reestruturação de memórias coletivas se evidenciam na performance e se relacionam com os novos vínculos entre Estado, movimentos sociais e brincantes.
REFERÊNCIAS
CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. Reconhecimentos: antropologia, folclore e cultura popular. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2012.
CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano: Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2008.
DAMATTA, Roberto. Treze pontos riscados em torno da cultura popular. Anuário Antropológico. 1992. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994, p. 49-67.
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: 34, 1995. v.1
GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.
GONÇALVES, José Reginaldo Santos. Autenticidade, memória e ideologias nacionais: a questão dos patrimônios culturais. In ESTERCI, N. et al. (orgs.). Fazendo antropologia no Brasil. Rio de Janeiro: DP&A/Capes, 2001, p. 15-33.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução de Beatriz. Sidou. 2ª ed. São Paulo: Centauro, 2013.
HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG; Brasília: Representação da Unesco no Brasil, 2003.
HALL, Stuart. Quem precisa de identidade? In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org.). Identidade e Diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Editora Vozes, Petrópolis, 2000.
SCHECHNER, Richard. From ritual to theater and back: the efficacyentertainment braid. In: SCHECHNER, Richard. Performance Theory. London: Routledge, 1988. p. 106-152.
SCOTT, James C. A Dominação e a Arte da Resistência. Tradução: Pedro Serras Pereira. Letra Livre, Lisboa, 2013.
SILVA, Tomaz Tadeu da. A produção social da identidade e da diferença. In: ________. Identidade e Diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Editora Vozes, Petrópolis, 2000.
ORTIZ, Renato. Cultura popular: românticos e folcloristas. São Paulo: PUC, 1985.