Este trabalho trata-se de uma proposta de pesquisa sobre como as mulheres inseridas em grupos produtivos rurais, mesmo diante de um cenário de dominação masculina, conseguem ter visibilidade para sua comunidade, nas atividades que executam. Foi escolhido um grupo de mulheres, na comunidade Lagoa Alegre no município de Cocal de Telha – PI, a Associação das Mulheres Guerreiras do Campo, que trabalham com a fabricação de vários produtos, dentre eles, a cajuína, bolos, doces e cocadas.
O interesse por pesquisar tal tema surgiu a partir de um trabalho que desenvolvi como Assessora de Gênero do Núcleo em Extensão e Pesquisa em Desenvolvimento Territorial – NEDET Carnaubais, vinculado à Universidade Federal do Piauí (UFPI) e financiado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), em parceria com o Conselho Nacional de Pesquisa Tecnológica (CNPq) e Secretaria de Política para Mulheres (SPM), realizado durante o período de fevereiro de 2015 a outubro de 2016, no Território Carnaubais, do estado do Piauí – Brasil.
Dentre as atividades da assessoria, havia o acompanhamento a grupos de mulheres produtoras rurais, onde a postura e a atitude das mulheres da referida associação me chamou bastante atenção, pois percebi que neste grupo, diferente de outros grupos observados, as mulheres mostravam ter mais autonomia nas suas famílias e nas relações de poder existentes na comunidade, quando comparadas às outras mulheres da comunidade e de outros grupos observados no Território.
Durante o trabalho de assessoria, foi formado um Comitê Territorial de Mulheres, que tinham reuniões periódicas, abordando várias temáticas para o fortalecimento do processo de empoderamento feminino e a participação das mulheres nas instâncias do colegiado territorial. Por meio deste trabalho, foi possível observar as peculiaridades dos grupos produtivos de mulheres dos municípios do Território.
Vale considerar que, no meio rural, a dominação masculina é mais acentuada. Ela continua marcando e reproduzindo métodos já utilizados, que têm como resultado a superioridade nas relações de poder entre homens e mulheres, marcando a visão patriarcal na agricultura familiar. Mas, à medida que essas mulheres se familiarizam com o protagonismo que o trabalho feminino exerce na produção, passam a ganhar espaço e ter mais consciência de suas próprias necessidades neste processo de emancipação.
Ao estudar e acompanhar as atividades das mulheres rurais, a observação que pude fazer é que ela passa a ter uma tripla jornada de trabalho, adequando o trabalho doméstico, com o cuidado dos filhos e o trabalho produtivo. Em muitos casos, as mulheres rurais passam a dividir com o companheiro a tarefa de prover o lar, entretanto, seu trabalho aumenta, pois ela se torna mais um sujeito financeiro em casa, porém, o trabalho doméstico ainda está sob a sua responsabilidade, mesmo ela exercendo outro tipo de atividade remunerada (externa do âmbito doméstico), que aparentemente lhe deixa com uma sensação de completude. Neste sentido, percebi que as políticas públicas quando são ofertadas a elas, parecem não favorecer um processo de empoderamento de fato.
Importante citar que existem sim políticas públicas de incentivo à produção no meio rural, mas as mulheres ainda não eram assistidas por essas políticas. A Associação das Mulheres Guerreiras do Campo, em Cocal de Telha, foi criada com o intuito de ter acesso ao mercado para comercializar através de uma dessas políticas, o Programa de Aquisição de Alimentos – PAA.
Existem outras políticas públicas destinadas a oferecer apoio a grupos produtivos da agricultura familiar, porém a maioria das mulheres narraram não ter informações suficientes sobre como funcionam. Essas mulheres também afirmaram não receber nenhuma assistência técnica, nem pública e nem privada, que pudesse estar orientando-as em sua produção e/ou comercialização.
Posto isso, a investigação busca compreender como as mulheres da Associação das Mulheres Guerreiras do Campo, da comunidade Lagoa Alegre, no município de Cocal de Telha – PI (Território dos Carnaubais) estão conseguindo mudar suas vidas e servindo de apoio mútuo a outras companheiras da comunidade, reforçando a solidariedade entre elas e se fortalecendo enquanto grupo e enquanto sujeito. De tal modo, estudarei a história de vida dessas mulheres para entender como elas se superaram de uma situação predominantemente de dominação masculina para uma situação de construção de autonomia.
Interessa-me então saber como essas mulheres conseguem adquirir autonomia e estão se empoderando. Considero importante estudar a história de vida dessas mulheres para compreender como elas constroem autonomia e empoderamento, pois ao descobrir as estratégias de como elas conseguiram modificar suas vidas ao formarem grupo produtivo, espero que esta pesquisa forneça elementos que possam servir de subsídio para estudos posteriores. A pesquisa também tem como intuito contribuir para os estudos de gênero, ruralidades e territorialidades no Piauí, bem como, fornecer subsídios para execução e elaboração de futuras políticas públicas voltadas para mulheres rurais.
Para atingir este objetivo, utilizarei a pesquisa bibliográfica, que auxiliará na compreensão das categorias analíticas que irei trabalhar, onde realizarei um apanhado sobre os principais trabalhos científicos já realizados (e atualizado) sobre o tema escolhido. Pretendo utilizar também a técnica de história de vida, entrevistas semiestruturadas, observação participante, diário de campo e análise de discurso.
A primeira etapa consiste na realização de um levantamento de informações sobre as 27 (vinte e sete) mulheres participantes da Associação Mulheres Guerreiras do Campo.
Na segunda etapa serão realizadas as entrevistas individuais com algumas participantes da Associação. Pretendo entrevistar 10 (dez) mulheres do grupo referido, com a utilização de um roteiro semiestruturado, combinando perguntas abertas e fechadas, onde as mulheres poderão discorrer sobre o tema proposto, falando de forma livre sobre suas histórias, com o intuito de dar mais profundidade às reflexões.
Após o trabalho de campo, farei a análise das entrevistas por meio da análise de discurso, pois ela é utilizada também para se fazer uma comparação entre linguagem, discurso e ideologia, mostrando os problemas enfrentados pelo indivíduo em virtude das especificidades de sua vida pessoal, e acaba fornecendo meios para que se chegue a uma solução. Nesse momento, as anotações do diário de campo também serão analisadas juntamente com as informações advindas das entrevistas.