CINEMA E CURRÍCULO: POSSÍVEIS AÇÕES NO COTIDIANO ESCOLAR
A presente pesquisa é um recorte da minha dissertação onde trato da tessitura de ‘conhecimentossignificações’ em conversas realizadas com estudantes do ensino médio, de uma Escola Estadual do município do Rio de Janeiro. Faço parte de um grupo de pesquisa, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde discutimos a importância da imagem no cotidiano escolar, no Laboratório de Educação e Imagem.
Neste presente trabalho, pretendo discutir o referencial teórico da minha pesquisa. Assim, ressalto a importância do cinema na sociedade contemporânea e o uso como artefato tecnológico nos cotidianos escolares, permite a troca de diversas visões e ideias acerca das temáticas dos filmes. Alves (2012) acredita que os seres humanos formam e se formam nas múltiplas redes que nos cercam, neste sentido é possível compreendermos que as vivências e relatos ‘conversados’ após os filmes sejam importantes para a nossa formação.
Para o historiador Deleuze, o virtual é uma potência do real, por mais que seja impossível uma (re)criação do real através do uso desse artefato é possível observamos e compreendermos que as sessões de conversas após os filmes é fomentador de discussão e da tessitura de inúmeras redes acerca daquelas temáticas.
Importante ressaltar que reconhecemos todas as inferências que um filme possui, não é uma verdade ou ideal de perfeição. A produção é obra do diretor, roteirista, atores, portanto defende um ponto de vista daquele assunto. Como também entendemos, que os professores e alunos que estão nas sessões podem fazer diferentes compreensões acerca dos filmes, pois como já mencionamos, cada um está inserido nas diversas redes que nos cercam, que influenciam no nosso modo de ‘ver’ a sociedade.
O uso desse artefato no cotidiano escolar nos permite trazer elementos diferentes, sensibilizar emoções através de áudio e vídeo, aguçar lembranças ou nos fazer ver esses pontos por ângulos diferentes. O cinema é uma arte multifacetada. Permite vivenciarmos outras culturas mesmo estando geograficamente tão longes. Por isso, consideramos importante também conhecermos o período da criação do filme, para compreendermos melhor as relações sociais em que estão inseridos e contextualizados.
Durante minha trajetória profissional, percebi a capacidade ímpar do cinema de provocar discussões e fomentar o senso crítico dos estudantes. As ‘conversas’ após as sessões dos filmes eram sempre muito produtivas e despertavam interesse dos estudantes em falar, contar suas vivências e partilhar suas observações, criando, sempre, ‘conhecimentossignificações’, diversas vezes inesperados. Essa minha observação, me instigou a investigar de fato quais são os motivos que interferem nos cotidianos dos estudantes e ter uma maior percepção sobre as emoções, tendo sensibilidade para perceber os efeitos do uso desse artefato cultural. Especialmente, a tessitura dessas ‘conversas’ e a relevância disto ao tratarmos diferentes temas em sala de aula, sabendo que o cinema, enquanto arte, atua em todos os nossos sentidos.
Usamos as ‘conversas’, após as sessões com os filmes, pois como Larossa (2003) acredita nunca se sabe onde uma conversa pode chegar, é rio que flui e que permite diversas curvas e nuances. Diferente de uma entrevista ou questionário, nas ‘conversas’ se está livre para comentar outros assuntos, para percorrer outras trilhas. Para o professores que atuam no cotidiano escolar, sabe-se que é impossível prever todas as ações e reações dos alunos, cada fale e participe não se pode tratar apenas de um olhar, vão surgir múltiplos olhares sobre um mesmo tema.
A escolha dos filmes também são importantes para as sessões de ‘conversa’. Pois, de certo modo, direcionamos as discussões a partir da temática do filmes ‘vistosouvidos’. No entanto, depois das sessões, as ‘conversas’ seguem livres, permeando diversos olhares e impressões dos alunos e professores envolvidos. Nessas ‘conversas’ é que estão o lócus principal da pesquisa, através delas criamos o ‘Personagens Conceituais’ que para Deleuze e Guattari (1992), criadores da ideia, o personagem conceitual “nada tem a ver com a personificação abstrata, um símbolo ou uma alegoria, pois ele vive, ele insiste”.
Com o intuito de ampliar a discussão e relacioná-la com nossas vivências em sala, indico que meus ‘personagens conceituais’ são as imagens e sons dos filmes e as narrativas que aparecem nas ‘conversas’ em sala de aula após ‘verouvir’ os filmes.
Os estudantes, quando provocados pelas imagens e sons, despertam a memória afetiva e a possibilidade de narrativas acerca dos filmes exibidos e das próprias vidas, tornam-se autores, participantes. As rodas de “conversas” realizadas após a exibição dos filmes criam narrativas acerca do movimento e das possibilidades encontradas e despertadas pelo filme, com todos os seus elementos: diálogos, trilha sonora, interpretação, cenários, acontecimentos etc. Essas narrativas tornam-se nossos ‘personagens conceituais’.
Entendemos que a tessitura das conversas provocadas pelas imagens e narrativas dos filmes, trazem possibilidades de diálogos entre o que foi ‘vistoouvido’ e as experiências individuais, na busca de um pensamento partilhado. Os olhares sobre os filmes são pessoas mas a tessitura de ‘conhecimentossignificações’ são feita de modo coletivo, partilhado e conversado por diferentes ângulos.
A presença desse artefato nos cotidianos escolares pode causar efeitos surpreendentes no processo de ‘aprendizagemensino’, são elementos que contribuem para ampliar o diálogo e os mundos ‘dentrofora’ das escolas, permite troca de relatos, experiência e vivências. Através desses ensinamentos podemos destacar importância de Deleuze para a tessitura de um pensamento que traz a relevância do cinema como um elemento para pensarmos a sociedade. Acreditamos assim que cinema não reproduz a realidade, essa é única e “irreprodutível”, mas colabora como uma potência do real, a partir de representações. Paulo César da Costa Gomes diz que cinema cria seu próprio mundo, tem linguagem própria e estruturas narrativas autênticas.
O cinema se apresenta como um artefato cultural e tecnológico, cheio de possibilidades e fomentador das ‘conversas’ no ‘espaçotempo’ escolar. É uma alternativa latente nos currículos mais tradicionais mas que se apresenta como uma potência da realidade nos cotidianos escolares, permitindo trocas e vivências importantes para o desenvolvimento pessoal e coletivo.
A fim de esclarecer que este modo de escrever estes termos, grafados juntos, entre aspas simples e, frequentemente, pluralizados – tais como: ‘ensinoaprendizagem’, ‘vistosouvidos’, ‘dentrofora’, ‘espaçostempos’, ‘conhecimentossignificações’ entre outros – é utilizado em pesquisas nos/dos/com os cotidianos e serve para nos indicar que, embora o modo dicotomizado de criar conhecimento na sociedade Moderna tenha tido enorme importância, esse modo tem significado limites ao desenvolvimento de pesquisas nessa corrente de pensamento.