A partir da Conferência de Viena, em 1993, a luta pelos Direitos Humanos obteve maior notoriedade social, consolidando determinações importantes em relação à igualdade e liberdade entre os indivíduos das diferentes nações. Nesse contexto, a luta em favor do respeito às pluralidades, aos poucos, ganhou impulso e reconhecimnto, constatando a necessidade de elaborar leis e práticas sociais de inclusão aos grupos que, durante séculos, foram negligenciados e impedidos de exercer seu papel macrossocial (CANDAU, 2008).
Dentre as diferenças existentes nos espaços onde os grupos atuam, é possível dizer que as relações de gênero constituem uma das maiores no contexto sócio-histórico determinado pela sociedade ao longo dos anos, especialmente quando se trata de direitos e papéis estabelecidos, sobretudo na separação entre o feminino e masculino. Culturalmente, ambos já nascem com atribuições e tarefas específicas que limitam sua performance no meio.
Apesar das mudanças de concepções acerca da temática de gênero, diversidade sexual e da participação mais efetiva da mulher em atividades que, até pouco tempo atrás, eram exercidas majoritariamente por homens, ainda é comum separar comportamentos, vestimentas, linguagens e até mesmo preferências artísticas baseadas nos esteriótipos criados para o feminino e masculino.
O movimento cosplay, que surgiu originalmente em 1930 nos Estados Unidos e ganhou rapidamente um número grande de seguidores (FIALHO, 2015), conseguiu alcançar públicos de diferentes idades, sexualidades e gêneros, sendo referência no âmbito cultural por trazer, através da representação de personagens conhecidos em séries, filmes, desenhos animados e livros, diversidade artística para os eventos sociais destinados à cultura pop oriental.
Pereira (2013, p. 25) explica o conceito da cultura pop oriental e nipônica baseando-se nos produtos comerciais e artefatos visuais que se utilizam de “aspectos contemporâneos midiáticos e tecnológicos como forma de propagação ao mesmo tempo em que contém e transmitem informações de seu lugar/cultura de origem”.
Os eventos organizados para trazer esse tipo de conteúdo englobam mídias específicas de países orientais como, por exemplo, o Japão e Coréia do Sul, que atualmente são conhecidos pela arte envolvendo desenhos, novelas dramáticas e grupos de dança coreografadas, além de abrir espaço para novos tipos de mídias culturais e tecnológicas vindas de outras partes do mundo.
Atualmente, o cosplay não só integra papel relevante nesses eventos como também se torna uma atração fundamental para chamar atenção das pessoas que participam dos encontros com o objetivo de conhecer e tirar fotos com cosplayers caracterizadas de seus personagens favoritos. Nesse sentido, também são espaços onde a socialização e manifestações coletivas/individuais são expressadas através de ações afetivas, envolvendo sexualidade e identificação de gênero.
Para além de realizar o cosplay e imitar um personagem fictício, a pessoa que pratica essa atividade também está afirmando, mesmo que não explícitamente, seu direito de ser, vestir e atuar como considera melhor para si, negando posturas e pápeis deliberados socialmente que não representam suas identidades e diferenças. É partindo desse ponto de vista que percebo a importância do movimento cosplay para o confronto entre a liberdade de gêneros e intolerância sexual, uma vez que sua dinâmica ultrapassa limites de gênero e sexualidade, permitindo aos atuantes autonomia para escolher como e quem representar.
Pretendo, nessa pesquisa, realizar um estudo onde os jovens que praticam a atividade cosplay no município de Fortaleza-CE irão relatar suas experiências, desafios e dificuldades nos eventos que possibilitam tal ação, especialmente na escolha de personagens que representam outros gêneros e sexualidades, a fim de compreender a dimensão social, cultural e colaborativa desse exercício para formação dos jovens e sua influência para o possível engajamento nas lutas de enfrentamento às discriminações e desigualdades.
Dos relatos poderão emergir fatores positivos e negativos de realização do cosplay, que ajudarão nas discussões sobre a efetividade do movimento para a conscientização social em relação às diversidades de gênero e sexualidade, assim como os mecanismos de superação que poderiam colaborar para o encorajamento de posturas tolerantes.
Considerando a metodologia um elemento fundamental na busca pelos objetivos propostos em uma pesquisa, o estudo opta por utilizar uma abordagem qualitativa que valoriza as subjetividades dos sujeios e “corresponde a questões muito particulares, trabalhando com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes que não podem ser reduzidas a operacionalização de variáveis” (MINAYO, 1994, p. 21).
Buscando compreender as relações de gênero e diversidade sexual que se estabelecem entre os jovens cosplayers e os personagens representados por eles, considera-se a importância de fatores sociais, culturais e subjetivos para a composição do estudo, uma vez que influenciam diretamente nas ações e performances disseminadas nos eventos de cultura pop no município de Fortaleza – Ce.
Para coleta de dados será utilizada entrevistas individuais e grupos focais com jovens ativos no cenário cosplay de Fortaleza, especialmente aqueles que estão inseridos regularmente nos encontros bimestrais, como a Super Amostra de Animes – SANA, caracterizando-se de personagens com gêneros e sexualidades iguais ou opostos aos que se identificam. Esses recursos poderão possibilitar alcance a informações detalhadas sobre as motivações “valores e comportamentos que mobilizam, conduzem e constroem sujeitos” (PEREIRA, 2013, p 49).
A pesquisa qualitativa é constituída de diversas possibilidades metodológicas, permitindo um processo dinâmico, de engajamento com novas formas de coletar e analisar dados. Dentro desse contexto, o grupo focal simboliza uma técnica de coleta de dados que, mediante a interação grupal, estabelece uma problematização ampla sobre determinado tema ou foco apresentado (BACKES, et al, 2011).
Na busca por uma caracterização dessa técnica, pode-se argumentar que se trata de uma entrevista em grupo, na qual a interação configura-se como parte integrante do método. No processo, os encontros grupais possibilitam aos participantes explorarem seus pontos de vista, a partir de reflexões sobre um determinado fenômeno social, em seu próprio vocabulário, gerando suas próprias perguntas e buscando respostas pertinentes à questão sob investigação. Desse modo, o grupo focal pode atingir um nível reflexivo que outras técnicas não conseguem alcançar, revelando dimensões de entendimento que, frequentemente, permanecem inexploradas pelas técnicas convencionais de coleta de dados (Idem, 2011, p. 439).
Allun, Bauer e Gaskell (2002) admitem que a união de técnicas de produção de dados, como a observação, grupos focais e entrevistas individuais possibilitam que o pesquisador se aproxime de informações mais detalhadas sobre assuntos específicos. Além disso, a observação e análise do ambiente onde a coleta de dados será efetivada também permite a percepção de acontecimentos e fatos que, em alguns casos, fogem aos conteúdos adquiridos por meio da utilização de apenas uma técnica (PEREIRA, 2013).
Nessa perspectiva, é importante compreender a construção sócio-histórica da juventude no âmbito brasileiro e a dimensão política na efetivação de propostas que valorizem as atividades culturais protagonizadas pela juventude como o movimento cosplay, reconhecendo que o mesmo constitui papel significativo na construção identitária dos jovens, dado que suscita a oportunidade de interpretar diferentes personalidades, independente de suas características e singularidades.
Historicamente é possível identificar o protagonismo da família, estado e escola na formação macrossocial do jovem. No entanto, essa realidade tem mudado aos poucos e a influência de espaços externos, com novas estruturas de aprendizagem e comunicação, ocupam papéis cada vez mais consistentes na construção identitária dos jovens e, sobretudo, no modo de se relacionarem entre si.
Os estudos das culturas juvenis são adotados como referenciais para a discussão sobre os modos de vida, os estilos e as sexualidades juvenis. Assim, os saberes já elaborados sobre grupalidade e modos de vida juvenis dialogam com as reflexões sobre a experiência empírica da pesquisa. Este dialógico (teoria/prática), ao passo que permite o questionamento dos saberes culturalmente instituídose hegemônicos de nossa sociedade, possibilita compreender os contornos das sociabilidades em interações juvenis e suas negociações simbólicas e estruturais com a vida contemporânea (JOCA, VASCONCELOS, 2015, p. 54)
Pais (1990; 2003) reitera que a sociologia da juventude precisa colocar como foco central, para além das similaridades existentes entre os jovens e os grupos formados por jovens, as diferenças sociais existente entre eles. Os estudos sobre juventude têm considerado a influência sociocultural de novos espaços para compreender sua performance no meio e, a partir dos grupos, perceber como as diversidades se constituem e apliam seguimento no âmbito político-social.
A partir dessa análise, o estudo tem como escopo norteador pesquisar como as relações de gênero e sexualidade se manifestam no movimento cosplay de Fortaleza- Ce, especificamente nos eventos de cultura pop oriental, compreendendo que é um espaço novo capaz de possibilitar percepções atuais sobre a juventude cearense, seu modo de atuar no âmbito urbano e de constituir diversidades.