Resumen de ponencia
TRABALHADOR ASSOCIADO EM CONSTRUÇÃO: DO ASSALARIAMENTO PARA O ASSOCIATIVISMO
*Betânia Dos Santos Cordeiro
*Maria Clara Bueno Fischer
O trabalho associado, como espaço-tempo de enfrentamento das desigualdades sociais, é lócus de recriação de conteúdo e de gestão do trabalho. Entretanto, trabalhar de forma associada e autogestionária, num contexto histórico em que o trabalho heterogerido é hegemônico, é um desafio profundo e permanente. É a partir do contexto de fortalecimento de políticas neoliberais, no final do século XX, que multiplicam-se no Brasil, organizações econômicas associativas de trabalhadores(as) do campo e da cidade. Para sobreviverem e/ou se contraporem à lógica capitalista, por meio da ação coletiva e autogestionária, os(as) trabalhadores(as) expulsos(as) do mercado de trabalho assalariado ocupam fábricas fechadas, criam associações, cooperativas de produção, consumo e crédito. Em torno de um movimento que internacionalmente ganha a denominação de Economia Solidária, trabalhadores(as) criam unidades de trabalho associado, articulam redes de produção e comercialização, complexos cooperativos e cadeias produtivas. Imersos(as) em suas experiências de trabalho associado e solidário, esses trabalhadores(as) experimentam, no dia a dia da produção da vida, uma divisão social e técnica do trabalho diferente da estabelecida na fábrica capitalista e/ou do trabalho autônomo, inauguram uma cultura do trabalho associado (TIRIBA; SICHI, 2011) e saberes do trabalho associado (FISCHER; TIRIBA, 2009).
São mulheres e homens com histórias marcadas por trajetórias de trabalho em áreas profissionais mais ou menos continuadas. Carregam patrimônios de saberes e valores e identitários que estarão presentes na construção e/ou desconstituição de uma cultura do trabalho associado. Elementos constitutivos das biografias de trabalhadores(as) que realizaram a travessia do trabalho assalariado ou autônomo para o trabalho associado foram identificados e analisados durante a realização da pesquisa. Levou-se em consideração as possíveis relações estabelecidas entre tais trajetórias e a ressignificação do que é ser profissional, no âmbito do trabalho associado e solidário. As compreensões sobre esses pontos emergem das experiências de trabalho vividas no cotidiano do trabalho associado vis à vis às anteriores. Ao narrarem as histórias e os percursos que compõem sua construção como profissionais, os sujeitos da pesquisa evidenciam valores e saberes aprendidos ao longo das experiências laborais; apresentam elementos que marcam suas entradas e saídas no mercado de trabalho; indicam processos formativos e aprendizagens para o trabalho e realizam reflexões sobre qualidade no trabalho, sobre a experiência da criação e sobre diferenças entre o trabalho assalariado e o associado.
Foram analisadas as trajetórias de sete trabalhadoras e um trabalhador de uma cooperativa do ramo da confecção, localizada no Sul do Brasil. A UNIVENS – Unidas Venceremos – há vinte anos se reinventa, calçada em conteúdos e valores do trabalho associado e orientada por objetivos de sustentabilidade social e ecológica. A cooperativa produz bolsas, camisetas, jalecos, calças em algodão e poliviscose com serviços de serigrafia. Ela também compõe, junto com outras oito cooperativas, a Rede Justa Trama , constituindo uma cadeia produtiva solidária do algodão agroecológico. Em torno de 760 trabalhadores(as) estão integrados à Rede: agricultores familiares do Ceará e do Mato Grasso do Sul; coletores de sementes de Rondônia; fiadores e tecedores de Minas Gerais e costureiras do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
A UNIVENS é uma experiência do ramo da confecção que faz parte dos 40% de iniciativas de trabalho, no Brasil, que possuíam até trinta sócias/os e que tinham de 10 a 19 anos de atividade, de acordo com o II Mapeamento Nacional da Economia Solidária (GAIGER, 2011). No momento da pesquisa, 22 trabalhadoras e um trabalhador compunham a cooperativa, trabalhando de forma integrada em três setores: corte, costura e serigrafia. Durante a pesquisa, trabalhadoras dos três segmentos foram entrevistadas. Foram matéria-prima para a realização de análises as entrevistas, os registros feitos a partir da participação dos integrantes da pesquisa em espaços de convivência, de militância e de organização das trabalhadoras e o video documentário produzido pela equipe de pesquisa.
A necessidade de se analisar as trajetórias das trabalhadoras com o intuito de buscar marcas que pudessem dar pistas de como elas se tornaram as profissionais que são hoje, surge por meio de pesquisas anteriores realizadas na mesma cooperativa. Tais pesquisas indicaram que no trabalho dos diferentes setores da cooperativa havia marcas do patrimônio individual. Havia indícios que o mesmo era mobilizado e, ao mesmo tempo, se refazia no cotidiano da produção interferindo nos processos e resultados do trabalho. Diferenças simples como costurar um bolso de um jaleco até a maior ou menor desenvoltura para assumir tarefas de gestão na cooperativa indicavam a existência de experiências profissionais e saberes prévios fonte de debates de normas e de escolhas no cotidiano. A experiência de trabalho nas suas relações com outras experiências de vida se reafirmava como espaço de formação.