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Resumen de ponencia
Uma nova abordagem analítico-conceitual para atuar sobre a dependência tecnocientífica latino-americana

Grupo de Trabajo CLACSO: Ciencia y sociedad

*Renato Peixoto Dagnino



Uma nova abordagem analítico-conceitual para atuar sobre a dependência tecnocientífica latino-americana
Renato Dagnino
É razoável a ideia de que desde quando o capitalismo se instaura na América Latina como modo de produção hegemônico se tenha buscado internalizar aqui um conhecimento tecnocientífico coerente com nossa condição periférica. E é compreensível que isso tenha sido interpretado como uma dependência tecnocientífica latino-americana.
Desde o século 19, se estuda o modo como a relação metrópole-colônia condicionou uma submissão - cambiante, mas sistemática - das elites locais de poder econômico e político às suas congêneres dos países centrais. E como isso implicou, uma produção imitativa de bens e serviços que reforçava os laços de dependência política e econômica.
No século 20, se fez evidente que ela condicionava uma dependência tecnológica que se reproduzia devido à tendência de industrializar nossas economias pela via da substituição de importações. O fato de que os bens e serviços produzidos aqui já existiam antes no "Norte" fazia com que a dependência tecnológica fosse uma consequência economicamente racional dessa tendência.
Não obstante, os integrantes da comunidade científica latino-americana (auto percebida como um enclave moderno num contexto atrasado), conseguira convencer as elites políticas e econômicas que a dependência só poderia ser evitada caso fosse internalizado um processo semelhante ao que ocorria nos países centrais capaz de, nesta ordem, desenvolver ciência e tecnologia, e promover o bem-estar.
Como era de se esperar, quando aquela tendência se converteu numa política econômico-produtiva estruturante, ainda que mimética e alinhada com os interesses da metrópole, a comunidade de científica passou a implementar uma política cognitiva (de educação e de pesquisa científica e tecnológica) que, mediante aquele processo, a suportasse.
Mas, essa política esteve emoldurada por um tipo de dependência cultural ainda mais do que aquela orientada à produção para atender uma demanda interna imitativa do em relação à Europa e, depois, aos EUA. Aquele caráter de enclave fez com que a elite científica que elaborava a "sua" política a orientasse para reproduzir a forma de disseminar e produzir conhecimento dos seus pares do "Norte". Mesmo porque essa orientação, apesar de aparentemente crítica e nacionalista no que se referia à pesquisa, era funcional em relação ao conjunto das políticas públicas que alavancavam o capitalismo periférico.
Foi mediante essa política que a elite científica, majoritariamente oriunda das ciências duras, reafirmou no âmbito das instituições públicas de ensino e pesquisa a relação específica de dependência que é o foco da análise aqui realizada.
No ambiente dos países centrais que no final dos anos de 1960 participaram do surgimento dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia não houve uma preocupação com a análise sistemática e crítica da política cognitiva. Foi o Pensamento Latino-americano em Ciência Tecnologia e Sociedade (PLACTS) que, frente a essa particular relação de dependência, proporcionou elementos analítico-conceituais para sua abordagem.
A proposta de intervenção que derivou era, como ele próprio, claramente policy-oriented e ideologicamente engajada. Tratava-se de substituir, na práxis daquelas instituições, as agendas de pesquisa e de ensino "acriticamente adotadas" do "Norte" por uma que atendesse às diversas e diversificadas especificidades latino-americanas. E, mais do que isso, às necessidades das maiorias e do "projeto nacional" a elas associado.
Essa proposta que anima a política cognitiva contra-hegemônica até hoje defendida pelos seguidores daquele pensamento, vem servindo de "cavalo" para o "implante" de um nova abordagem à questão da dependência tecnocientífica latino-americana.
Reanalisando nossa trajetória tecnocientífica a partir de um novo marco analítico-conceitual centrado no conceito de tecnociência e no questionamento de sua neutralidade e da visão determinista do marxismo ortodoxo, vem ganhando força uma abordagem analítico-conceitual que, mais do que nova na região, parece ser original no ambiente global dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia.
Coerentemente com o viés do PLACTS, essa abordagem parte de uma crítica das políticas - produtiva e cognitiva - que pretendem emular a trajetória dos países centrais. Considera-as intrinsecamente danosas do ponto de vista econômico, social e ambiental, e desaprova as receitas, crescentemente irrealistas e inadequadas, que delas emanam para o ambiente acadêmico e dos policy makers.
Talvez porque a conjuntura do PLACTS não o exigisse, essa abordagem é mais radical e abrangente. Radical, porque vai além da percepção comum de seus integrantes sobre o fato de que os atores envolvidos com a tecnociência na periferia não se comportavam como os do capitalismo central (as empresas não faziam P&D, os pesquisadores não elaboravam uma agenda nacional, etc.). Denotando-o com o conceito de atipicidade periférica, ela avança na direção de um de caráter universal. Apoiada na contribuição de pesquisadores marxistas contemporâneos dos ESCT, ela formula o conceito de anomalia para caracterizar que os atores que participam do processo decisório nessa política não defendem ali seus projetos políticos. Ao contrário do que ocorre nas políticas normais, um processo ainda mais sutil e eficaz do que a manipulação ideológica faz com que eles consintam com o modelo cognitivo elaborado pela elite científica.
Por levar em conta que nossa condição periférica confere a essa elite científica um caráter hegemônico que vai além da anômala predominância que ela possui nos países centrais, e que é muito escasso entre nós o potencial transformador da "participação pública na ciência", ela é mais abrangente no que respeita à proposta de intervenção recomenda. Inaugurando um novo campo de trabalho dos ESCT latino-americanos ela propõe a inclusão de um novo ator - os movimentos sociais - junto ao governo, a universidade e a empresa representados no "triângulo de Sabato". O que foi apelidado de o "quadrado do Dagnino" propõe colocar em pé de igualdade com a empresa os empreendimentos solidários, desenvolver na universidade em conjunto com eles a tecnologia social e a adequação sociotécnica da tecnociência das empresas, e fazer com que o governo apoie a operação da economia solidária e a financie mediante seu poder de compra.
No âmbito das instituições públicas de ensino e pesquisa, essa nova abordagem considera que mesmo que ocorra a substituição de agendas proposta pelo PLACTS, o fato de que para explorar a nova agenda, a elitista e restrita comunidade científica com ela envolvida tenderá a seguir limitada a uma práxis tecnocientífica contaminada pelos valores e interesses capitalistas, o objetivo visado não será alcançado.
Por isso, seu foco inicial de intervenção nos campos da policy e da politics é o segmento dessa comunidade já sensibilizado pela necessidade de conceber uma nova agenda orientada a materializar o ideal de uma sociedade mais justa, igualitária e ambientalmente sustentável. Sua proposta de intervenção no âmbito desse segmento se desdobra na discussão do mito da neutralidade e do determinismo da tecnociência. Isso porque entende que só na medida em que seus integrantes estejam convencidos da necessidade de contaminar o ambiente em que produzem conhecimento com outros valores e interesses que apontem para uma sociedade para além do capital será possível explorar essa nova agenda de um modo coerente com este objetivo
Não obstante, e esta é uma das razoes do apoio que vem recebendo, sua postura permanece sendo aquela, de mudança social, que, mais do que ocorreu em outras latitudes, orientou o surgimento dos ESCT latino-americanos.




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* Dagnino
Universidade Estadual de Campinas UNICAMP. Campinas, Brasil