O reconhecimento das “geometrias do poder” de Doreen Massey (2000), leva-nos também à compreensão de que existem posicionalidades distintas e hierarquizadas, espaço-temporalmente determinadas, entre homens e mulheres, pois segundo a autora, os sentidos do lugar para uma mulher, desde os espaços que ela se movimenta até as conexões com exterior, são diferentes dos sentidos dos homens. Essa afirmativa indica, sobretudo, que os níveis de mobilidade dos corpos feminino e masculino são desiguais e que, portanto, a percepção espacial desses corpos pode não ser singular e consensual. Entendido isso, este trabalho aborda duas questões centrais propulsoras desta pesquisa que relaciona espaço, relações de poder e gênero. A primeira delas refere-se ao desdobramento da asserção realizada pela geógrafa mencionada anteriormente, questionando se a apreensão do sentido do lugar para as mulheres e homens é igualmente percebida. Sendo que desta vez, considerando a desigualdade de deslocamento urbano, entre os gêneros, a partir de um bairro específico, chamado Bangu, situado no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro. Como as mulheres banguenses percebem, local e globalmente, sua mobilidade no bairro e cidade? Neste caminho, admitiu-se um expediente metodológico na Fenomenologia, para através da espacialidade dos corpos analisar como os sujeitos envolvidos estão histórica e geograficamente situados. A obra sobre corporeidade e geograficidade do geógrafo Elias Lopes de Lima (2015) foi fundamental para o desenvolvimento desta questão inicial que, por sua vez, desencadeou na segunda questão central, também apoiada por aspectos da realidade urbana contemporânea, procurando saber: o que determina a (i)mobilidade das mulheres e a liberação dos homens no espaço urbano? Orientando, a partir dela, o trabalho à uma outra abordagem metodológica, aliada ao materialismo histórico dialético e estabelecendo mais dois objetivos, além do entendimento das percepções, são eles: a identificação do momento da produção do espaço banguense que propiciou a intensificação do deslocamento das mulheres do bairro para a cidade, essa etapa da pesquisa foi indispensável para a contextualização da sua problemática, e nela conduzimos a discussão do corpo espacializado para as representações do espaço. Até que notamos, cada vez mais presente e evidente, as mensagens hegemônicas de poder e de dominação que afligem as mulheres através da liberação do espaço, exigindo, portanto, um direcionamento político da discussão. Sendo assim, resgatamos a noção de que “todo poder social é um poder sobre o espaço”, como diz Rogério Haesbaert (2014) e, inevitavelmente, inserimos o conceito de território na análise, haja visto que a tendência hegemônica de poder que determina a (i)mobilidade das mulheres é masculina. Essa inserção conceitual foi propositiva à diferenciação sexual do espaço, identificada por Silvia Federici (2017), por sê-la matriz de um território de desigualdade que abriga diferentes modalidades de “precarização territorial”, discutidas por Haesbaert (2014), que implicam diretamente nas condições de deslocamento das mulheres residentes em Bangu, pobres e suburbanizadas.
Portanto, na realização da vida cotidiana as mulheres experimentam a diferenciação sexual do espaço, estando sujeitas à uma hegemonia masculina que se espacializa. A consequência disso é que vítimas de violência simbólica e concreta, as mulheres encontram-se em situação de controle espacial, muitas vezes conformada a uma mobilidade precarizada. Assim, essas duas perguntas são propositivas para entender a situação feminina no espaço urbano, com a finalidade de respondê-las, buscamos compreender como as mulheres, numa relação global-local, percebem o lugar, através da corporeidade, e nos desafiamos discutir os processos de precarização socioespacial que implicam num território de desigualdade. Nos delimitamos numa análise da mobilidade urbana dos moradores do subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, com ênfase nas condições do deslocamento urbano feminino. Este trabalho desenvolve um percurso metodológico que vai desde as práticas sociais dos sujeitos, na cotidianidade, até as representações do espaço como concebido. Explorando, portanto, as categorias espaciais de lugar e território para discutir o conceito de “precarização territorial”, que importa à compreensão da colocação dessas disputas entre os corpos feminino e masculino na diferenciação sexual do espaço.