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Resumen de ponencia
Universidade, pesquisa e extensão na relação com as classes populares, no Brasil

*Ivanise Monfredini



Neste ensaio analisam-se experiências relatadas por pesquisadores responsáveis por projetos financiados pela Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social (SECIS), as quais se desenvolvem em interação com agricultores familiares e catadores de material reciclado, valorizando a criação de conhecimentos. O foco é a análise das possibilidades formativas na relação universidade/movimentos sociais, a partir das contribuições contidas em Bringel (2014) e Arroyo (2003). Finaliza-se afirmando que da perspectiva da formação, as experiências relatadas permitem identificar possibilidades, tendo em vista que promovem práticas alternativas na relação da universidade com as classes populares no Brasil

O Brasil é um país marcado por desigualdades sociais, no qual tem sido poucos os momentos históricos em que se pode identificar a existência de um pleno compromisso dos governos com a educação pública. Ao longo do tempo as políticas públicas para a educação estão marcadas por descontinuidades, omissões, e frequentes mudanças ministeriais. Mas, em meados do século XX os avanços na ampliação do acesso à educação básica e superior foram conquistas resultantes da pressão popular, que demandava mais escolas básicas e de ensino superior.
Durante a primeira década do século XXI, ampliaram-se as vagas no ensino superior público e privado, assim como houve um esforço para incluir nesse nível de ensino, grupos historicamente excluídos. Em 2015 nota-se um incremento de aproximadamente 5% na porcentagem de alunos matriculados no ensino superior brasileiro que se identificaram como pretos ou pardos (27%), em relação ao ano anterior (22%) (INEP 2016 e 2015. Sinopses 2015 e 2014). Essas informações indicam que houve avanços, sem que, no entanto, problemas históricos tivessem sido enfrentados.
A crescente inclusão no ensino superior de negros, indígenas, populações historicamente excluídas, além dos jovens pobres, com renda familiar de até três salários mínimos foi resultado da criação da Lei de Cotas (Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012), do Programa Universidade Para Todos (PROUNI - Lei nº11.096, de 13 de janeiro de 2005) e do REUNI (Decreto 6096 de 24 de abril de 2007).
Nesse mesmo início de século XXI, em 2003, o governo federal cria a Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social (SECIS). Com a sua criação o então Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI) pretendeu imprimir uma mudança nas Políticas de Ciência e Tecnologia (PCT) brasileiras com o objetivo de promover o desenvolvimento social. A finalidade da SECIS é “propor políticas, programas, projetos e ações que viabilizem o desenvolvimento econômico, social e regional, e a difusão de conhecimentos e tecnologias apropriadas em comunidades carentes nos meios rural e urbano” (Brasil/SECIS. 2003). Este ensaio é parte de pesquisa em andamento, sobre o tema.
A proposição da SECIS sugere tanto a criação e difusão de conhecimentos pela Universidade, voltados para as classes populares, como o apoio para divulgar e transformar em tecnologias e “patentes” os conhecimentos, saberes e técnicas geradas na prática, por trabalhadores rurais, pequenos proprietários e suas famílias, os sem teto e moradores das favelas urbanas, propiciando desenvolvimento econômico e social a essas populações.
Nesse momento histórico de ampliação de vagas no ensino superior, em que populações até então excluídas começam a chegar aos campi das universidades, e em que a ciência voltada para essas populações também é incentivada (com a criação da SECIS), retomam-se temas aparentemente superados, entre eles, o da relação entre universidade e classes populares, que agora estão dentro, e não apenas, fora dos seus muros.
Para as ciências sociais é um momento importante para se pensar a relação entre universidade e sociedade, privilegiando os movimentos sociais.
Nesse sentido, Arroyo em texto de 2003, pergunta-se “o que temos a aprender dos movimentos sociais?” para, então, repensar as teorias pedagógicas. A leitura do texto nos instiga a pensar nos tempos e espaços marcados pela necessidade de sobrevivência, em que a desarticulação das condições de vida impulsionam a ação por direitos, inclusive à escola. Os movimentos populares, os sindicatos, atuaram de forma pedagógica na formação de lideranças, contribuindo para educar as camadas populares. Para Arroyo (2003, p.31) os movimentos sociais "nos puxam para radicalizar o pensar e fazer educativos na medida em que nos mostram sujeitos inseridos em processos de luta pelas condições elementaríssimas, por isso radicais, de viver como humanos."
O texto de Arroyo (2003), sugere uma percepção para aquele momento, como repleto de possibilidades, tanto para os movimentos sociais, quanto para as universidades brasileiras.
Mas, a Universidade brasileira foi pensada e criada pela burguesia no poder, durante as décadas de 1930 e 1940, para formar a elite dirigente do país, junto com a formação de profissionais para o mercado de trabalho. Apesar da grande diversificação que caracteriza o ensino superior brasileiro, a relação com o movimento social foi historicamente mais marcante durante meados do século XX, no processo de resistência ao golpe militar. Sobre esse aspecto, Bringel (2010) cita que, na América latina, foi durante as décadas de 1960 e 1970 que se identifica um compromisso maior dos acadêmicos com os movimentos sociais. Depois, a partir dos anos de 1980 houve um distanciamento provocado pela crescente especialização do conhecimento científico, pela profissionalização do trabalho acadêmico.
Para Bringel (2010, p.193) o neoliberalismo dos anos de 1990 acentuou ainda mais esse distanciamento relacionado à crescente burocratização, privatização e, em alguns casos, da “busca [por] deslegitimar o modelo de pesquisa militante”. No entanto, afirma ainda Bringel (2010, p.193), “a irrupção de um novo ciclo de mobilização social na última década, na região, parece haver avivado novas fórmulas de atualização dos vínculos entre o pesquisador/intelectual e o compromisso militante, que vão além do clássico modelo de "intelectual orgânico gramsciano".
O “produtivismo” que caracteriza o trabalho de pesquisadores e professores universitários também contribuem para tornar consensuais determinados modelos de atividade científica, que podem não informar sobre a relevância da pesquisa, refletindo muito mais, como alerta Boron (2008, p.31) "la asimetria de poder existente entre aquellas teorizaciones que articulan los intereses de las clases dominantes (y las naciones dominantes en el sistema imperialista) y las que representan al pensamiento crítico." O reducionismo trazido pelos critérios de mercado, que o autor denomina de barbárie economicista, também permeiam a avaliação, o financiamento dos programas de pós-graduação, da ciência e da tecnologia.
É nesse cenário que se implementam as políticas “inclusivas” para o ensino superior e para a ciência e tecnologia, no Brasil. Decorridos pouco mais de dez anos da implementação desse conjunto de políticas, ocorreram mudanças na relação entre as classes populares e a universidade?
Como alerta Bringel (2010) essa relação envolve alguns problemas que surgem no esforço de descolonizar e repensar a produção de conhecimentos, especialmente das ciências sociais, o que significa incorporar os diálogos com vários atores sociais, em diferentes enfoques, pressupondo a produção conjunta de conhecimento.
A pergunta se coloca também, tendo em vista o momento crítico em que direitos sociais conquistados recentemente, vem sendo perdidos junto com o desmonte do Estado brasileiro, após o golpe que destituiu o governo de Dilma Roussef.
No cenário atual de aprofundamento da agenda neoliberal, a relação com os movimentos sociais pode se constituir como uma alternativa à ressignificação social da universidade brasileira? Embora essa questão não se esgote nos limites desse artigo, foi a motivadora da pesquisa em andamento e sobre o qual apresentam-se neste texto análises dos depoimentos de pesquisadores responsáveis por pesquisas e/ou projetos de extensão apoiados pela SECIS.
Iniciar-se-á o ensaio com a apresentação dos aspectos metodológicos que envolvem o estudo e, em seguida, serão apresentados os resultados parciais da pesquisa em andamento, seguidos das considerações possíveis até o momento.
As análises indicam que na contracorrente dos modelos científicos hegemônicos, impostos pelos critérios de avaliação e financiamento da pesquisa, os entrevistados optaram por uma atuação junto às classes populares, fundando sua atuação em práticas democráticas, de respeito aos diversos conhecimentos e à população historicamente excluída, e na perspectiva de outro projeto societário que exige outra Universidade. Dessa perspectiva o desenvolvimento é sustentável, voltado para os seres humanos e a natureza. O conhecimento como fator desse desenvolvimento é público, compartilhado e acessível a todos. Os pesquisadores entrevistados evidenciam com seus depoimentos essa possibilidade que se realiza, a despeito dos reducionismos impostos pelos processos privatizantes do conhecimento e da Universidade.




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* Monfredini
Doctorado en Gestión de la Educación Superior - CUCEA/UdeG. Zapopan, México