Durante a colonização dos países da América Latina, as populações indígenas foram as primeiras a serem dominadas pelos espanhóis e portugueses, eis que estes trouxeram materiais bélicos superiores aos dos nativos, forçados a trabalharem em minas de ouro e prata. Com a exploração e dizimação dos indígenas, os mesmos foram “substituídos” paulatinamente por escravos negros originários da África, além disso, consolidou-se a extração desenfreada dos recursos naturais.
A América Latina desde o seu descobrimento até presentemente tem sido marcada por exploração, tornando-se um cenário extrativista de exportação da natureza das colônias para as metrópoles. A medida para impulsionar tal intento são as necessidades dos países colonizadores, os quais não se desenvolvem sem guerras e política de despojo – desapropriação de recursos hídricos, agropecuários, alimentícios, etc - mediante esse processo de submissão, os países colonizados ficaram reduzidos em suas economias, totalmente na dependência do mercado internacional. Assim, suas riquezas naturais viraram capital para as metrópoles estrangeiras colonizadores, por isso, as questões relacionadas à pobreza, desigualdade e (des)proteção do meio ambiente nos países da América Latina tem estreita conexão.
Para além dessas práticas excludentes e segregadoras, rompendo com as epistemologias coloniais, em resposta a crise ecológica hodiernamente instalada, a ideia do comum surge, a qual difunde que bens comuns são aqueles inerentes a qualquer ser humano para sua subsistência, podem ser tanto recursos naturais, como recursos alcançados com a construção social. Pertencendo aos bens de natureza, têm-se o ar, terra, água, a biodiversidade os oceanos, os quais não devem ser transformados em reféns de mercado, tampouco sujeitos a um critério meramente de valoração econômica, pois são essenciais a vida do ser humano.
Neste viés, é interessante a abordagem do filme de produção espanhola También La lluvia, que entrelaça a conquista da América por Cristóvão Colombo e o conflito da “Guerra da Água” ocorrida na Bolívia em 2000, impulsionada pela privatização e controle do sistema hídrico da cidade de Cochabamba por uma empresa multinacional, retratando-se o tema da privatização da água, inclusive da água da chuva colocada sob o controle privado.
Uma nova tendência surge, ante a necessidade de uma configuração política de ruptura dos paradigmas oligarcas e patriarcais num marco que (re)conceitua o desenvolvimento em conexão com a natureza para o acesso a recursos e condições essenciais para a vida como direitos humanos, a ética do Buen Vivir a qual mostra uma forma de resistência ao modelo hegemônico de colonização, partindo-se de uma perspectiva de manifestação de descolonização epistêmica, pois trazem saber milenar dos povos nativos da região, apresentando interações complexas e plurais, impulsionando a harmonia e integração do homem com a natureza.
O conceito de Sumak Kawsay de Buen Vivir se introduziu com a Constituição Equatoriana de 2008, assumindo uma postura pluralista, uma vez que integrou as diferentes culturas que formam o povo equatoriano, rompendo com o domínio colonialista, a qual reconhece a Natureza ou “Pachamana” como sujeito de direito, dando um sentido comunitário para uma nova estruturação social em harmonia com a natureza.
Plural porque evidentemente, o Direito de proteção que outrora foi projetado adveio através de exploração, assim “as vontades coletivas” organizadas utilizando-se de práticas sociais que instrumentalizam suas exigências, interesses e carências constituem a capacidade de instituir “novos direitos”, direitos ainda não contemplados, por serem inesgotáveis e ilimitadas no tempo e no espaço, uma vez que as necessidades humanas estão em constante invenção e redefinição.
Assim, para se chegar à criação não só jurídica do “comum”, capaz de difundir uma linguagem nova, como também de transgredir a lógica do paradigma individualista, ou seja, para que haja preservação da natureza na sociedade latino-americana são necessárias rupturas com as estruturas de poder da modernidade etnocêntrica, a partir de uma base democrático pluralista, de teor comunitário participativo. Por esta perspectiva epistêmica, os objetivos econômicos e políticos devem se ajustar a outro conhecimento alternativo, expressão de uma vida em plenitude com a natureza, eis os propósitos de uma visão do “comum” para as futuras gerações.