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Resumen de ponencia
O futebol à moda Bangu: representações e identidades(1910)

*Nei Jorge Dos Santos Junior



O leitor mais atento que circula pelos arrabaldes da cidade do Rio de Janeiro, pode estar se perguntando: quem nunca ouviu a expressão à moda Bangu? Certamente, um número expressivo da população carioca já ouviu ou reproduziu a famosa expressão. Na verdade, a locução adverbial de modo – à moda Bangu –, cotidianamente presente na linguagem popular, e, em particular, relacionada ao futebol, expressa de certa forma a multiplicidade do bairro suburbano: sem compromisso, amador ou de qualquer jeito. Isto é, vamos fazer isso como se faz em Bangu.
Os indicativos da locução arraigada por estereótipos marcados pela estratificação socioespacial da cidade podem ser constatados no processo de consolidação do futebol brasileiro. Os primórdios do futebol no Rio de Janeiro, na transição dos séculos XIX e XX, foram marcados por interesses e representações que relacionavam o esporte inglês à formação de um novo modelo de cidadão. Ainda que discursivamente, o moderno esporte bretão orientava-se pelos valores do cavalheirismo, do fair-play, e do amadorismo, elementos indispensáveis para uma sociedade em que adotava o modelo europeu como parâmetro cultural para a recém-instaurada República brasileira. Assim, clubes como Rio Cricket & Athletic Association (RJ), Fluminense Football Club (RJ), Club Atlético Paulistano (SP), Associação Atlética do Mackenzie College (SP), Paysandu Cricket Club (RJ), entre outros, mantinham tal tradição elitista e com isso se caracterizavam como símbolo de elegância e sofisticação, imputando-lhe um significado próprio nem sempre condizente com suas reais condições sociais
Contudo, ainda na primeira década do século XX, o esporte começava a sentir as ambivalências do momento. A sua difusão pelos mais distintos bairros do Rio de Janeiro desencadeou conflitos ao redor da imagem de distinção social desejada pelos sportsmen vinculados aos clubes frequentados pelas elites cariocas. Tratava-se de um número cada vez maior de negros, operários e indivíduos das camadas populares, que incomodava àqueles que revestiam a modalidade de um caráter “civilizacional” superior.
Esses novos personagens, tanto a torcida quanto os jogadores, adotavam certos comportamentos que, no olhar dos setores sociais mais privilegiados economicamente, eram considerados lamentáveis. Essa mudança de sentidos reforçava um fator ideológico, já que as páginas dos principais periódicos da cidade deixavam de celebrar a sofisticação e a fidalguia para declarar a desmoralização e o repúdio pela prática nos centros mais pobres da cidade.
Buscava-se no comportamento desses sujeitos, ações que diferenciassem das propostas idealizadas pelos sportsmen, reproduzindo, efetivamente, um conjunto de reações extraídas das agremiações da Zona Sul. Em outras palavras, criava-se uma noção estereotipada de subúrbio, marcada por estigmas ligados à estratificação socioespacial da cidade.
Dessa forma, era usual a desqualificação não só de torcedores e jogadores, como também dos bairros suburbanos como um todo. Afinal, essas ocorrências eram indícios dos conflitos que se estenderam por anos no futebol carioca, na mesma medida em que explicitavam a força da relação do esporte com os ethos em confronto. A fundação do Bangu A. C., por exemplo, marcou a difusão da prática e o acesso mais direto ao futebol entre as camadas populares, pois contrariava o discurso de refinamento e fidalguia construído pelos primeiros sportsmen cariocas. Reconhecido como o primeiro clube operário da cidade, criara um modelo que seria, ao longo dos anos, adotado por muitos de seus pares, notadamente por sua relação estreita com a Companhia Progresso Industrial do Brasil.
Fundado no dia 17 de abril de 1904, o Bangu Athletic Club teve estrangeiros entre seus precursores. Chegados à cidade, ainda em fins do século XIX, para trabalhar para a Companhia Progresso Industrial, que administraria a fábrica de tecidos fundada no bairro, em 1893, um grupo de técnicos ingleses mostrou-se disposto a criar uma agremiação nos moldes daquelas que existiam em seu país. A princípio, os diretores da empresa não pareciam dispostos a apoiar tal iniciativa; o administrador da fábrica, Sr. Eduardo Gomes Ferreira, alegava ser contra qualquer tipo de jogo. Os ingleses, porém, não esmoreceram e continuaram a pedir recursos para a fundação do clube. As restrições só chegariam ao fim com o apoio do novo administrador, João Ferrer, que enxergava benefícios na criação de uma agremiação. Com o apoio da fábrica, os fundadores do clube ampliaram o intuito inicial, atendendo principalmente aos interesses da empresa. Na própria ata de fundação percebe-se que o secretário ficou incumbido de divulgar a criação da agremiação, tanto em jornais do bairro como também entre os operários da fábrica, convidando os rapazes a entrar como sócio, expressando a possibilidade de aceitação de trabalhadores das mais variadas origens. O próprio valor para associar-se ao clube seria um importante fator para a sua popularização: 2$000 de joia e uma mensalidade de 1$000. Sendo que o salário dos operários ia de 94$800 (no setor da fiação) até 260$640 (no setor de acabamento), isto é, o clube já demonstrava, com isso, indícios que pretendia agregar o maior número de funcionários.
No entanto, aos olhos daqueles que buscavam o engrandecimento da prática pela exclusão social, a penetrabilidade desses personagens de diversos segmentos sociais só contribuiria para o empobrecimento do jogo. Nessa perspectiva, clubes como o Bangu adotavam – tanto sua torcida quanto seus jogadores – certos comportamentos que se diferenciavam das propostas idealizadas de outrora. Entretanto, acreditamos que foram justamente essas posturas – vaias, agressões aos adversários e invasões de campo – que se constituíram em um fator de identificação bairro-clube-trabalho, bem como uma estratégia de alteridade.
Considerando que estas manifestações são expressões das tensões observadas no processo de consolidação do futebol no Rio de Janeiro, bem como de uma ordem social que tentava manter privilégios para determinados grupos, esse artigo tem por objetivo discutir as representações dos clubes do subúrbio na imprensa carioca da década de 1910, procurando demonstrar os seus múltiplos sentidos e diferentes significados.
Para alcance do objetivo, pretendemos utilizar duas estratégias distintas e complementares. Inicialmente discutiremos as representações sobre o futebol suburbano em jornais de grande circulação, especialmente o Correio da Manhã e O Imparcial. No segundo momento, motivado pelo recorte espacial e temporal desse estudo, trabalharemos com o Bangú-Jornal, na tentativa de compreender a multiplicidade de conflitos existentes dentro do lócus suburbano. Quanto ao recorte temporal adotado levou em conta que se tratou de um período em que houve um aumento tanto do número de conflitos nos gramados quanto das tentativas de restringir a participação de certos grupos nas iniciativas expostas pela grande imprensa da época. Ao final, concluímos que houve um processo de estigmatização das agremiações investigadas, o que não impediu que participassem ativamente da difusão do velho esporte bretão pela, na época, capital do país.




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* Santos Junior
Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ. Rio de Janeiro, Brasil