Alimentos saudáveis e seguros, em quantidade suficiente, economicamente viáveis, ambientalmente e socialmente justo, com custo baixo para as famílias consumidoras e rentáveis para as famílias produtoras, esses são alguns dos desafios para garantir a alimentação humana na contemporaneidade. Segundo o Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional - FBSSAN (2012) o conceito de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) está relacionado ao direito de todas as pessoas estarem livres da fome e de se alimentarem de forma saudável e adequada às suas culturas, com o acesso de forma permanente e regular aos alimentos de qualidade. É nesse sentido que muitas experiências envolvendo a construção de hortas comunitárias e de agricultura urbana (AU) são realizados. As experiências com agricultura urbana, não são recentes, pauta-se nas tradições de hortas familiares e produção de alimentos para o autoconsumo. Essas práticas são retomadas na Agricultura Urbana, aliando os saberes da agricultura familiar com grupos e pessoas que moram em áreas urbanas e sem acesso a terra para produção em escala comercializável, mas que podem produzir em pequena escala, garantindo parte de sua alimentação. Conforme destacado pela FAO, no documento Cidades Verdes: "A horticultura urbana e periurbana ajuda as cidades em desenvolvimento a enfrentar esses desafios. Primeiro, contribui para o fornecimento de produtos frescos, nutritivos e disponíveis o ano todo. Segundo, melhora o acesso econômico dos pobres aos alimentos quando a produção familiar de frutas e hortaliças reduz os gastos com alimentos e quando os produtores obtêm renda com as vendas" (2012;8) Também é importante destacar nesse processo a diminuição dos custos ambientais com a produção e comercialização, além de contribuir com a diminuição das longas cadeias de distribuição alimentar, reduzindo o impacto na pegada ecológica. Este artigo centra-se sobre experiência com agricultura urbana no município de Curitibanos/SC/Brasil e o papel desempenhado pelas mulheres no desenvolvimento de estratégias de vida para as famílias, em situação de vulnerabilidade social. O projeto Agricultura Urbana é desenvolvido pelo Centro de Ciências Rurais, da UFSC/BR, tem como objetivo central desenvolver, incentivar e assessorar o desenvolvimento de hortas urbanas, coletivas ou familiares. Esse projeto iniciou em 2013 com a promoção de horta comunitária na periferia urbana e depois ampliou-se para atuação conjunta com Centro de Educação para Pessoas com Deficëncias - APAE, atuando com as famílias, na implantação e recuperação de hortas familiares. Nessas duas fases do projeto, as mulheres foram os sujeitos centrais. Histórias diferenciadas, mas situações de vida semelhantes, compartilham vulnerabilidade sócio-econômica e papel de cuidadoras, no segundo caso, agravadas pela existências de familiares (filhos/netos) com alto grau de dependência, são crianças e jovens com deficiências mentais e múltiplas. O projeto tem como uma de suas metas desenvolver práticas de agricultura urbana junto a famílias que integram a APAE, construindo espaços de produção alimentar familiar e espaços culturais eco interacionais, contribuindo para melhoria da qualidade de vida e de processos de inclusão social. A metodologia para a coleta das informações que fundamentam este trabalho foi feita através dos diagnósticos participativos realizados durante a aplicação do projeto, bem como das observações realizadas durante as visitas de campo. Estas informações foram sistematizadas e sua análise proporcionou a construção deste texto no qual procuramos refletir sobre as mulheres, suas estratégias e ações na garantia das condições básicas de alimentação. Estudos demonstram a relação e o importante papel da mulher nas estratégias e formas organizativas das famílias e do seu papel no desenvolvimento da segurança e soberania alimentar, intensificados aqui com os cuidados com a família. Quase sempre invisíveis esses saberes e estratégias estão disseminados no cotidiano e são vitais para a manutenção da vida. Nesse contexto, estrutura-se as responsabilidades das mulheres em famílias com vulnerabilidade social e condição especial no cuidado com a saúde, considerando que em suas famílias um das pessoas precisa de cuidados especiais e contínuos tendo suas autonomias comprometidas e o quanto a manutenção da horta familiar e da participação no grupos contribui, com o pertencimento e o fortalecimento de seus espaços de vida.
Assim, explicitar as formas diferenciadas de atuação das mulheres no delineamento e na construção dos modos de vida faz-se importante. Desde a conferência internacional da Mulher em Beijing (1995) que se destaca a necessidade de se considerar a questão de gênero como transversal aos programas e políticas e as pesquisa necessárias para entender a desigualdade existente e identificar esses padrões de desigualdade. Mas também de dar visibilidade aos diversos espaços de construção de autonomia, de subjetividade e de atuação da mulher. Sabe-se dos diversos graus de subjugação e vitimização, mas procura-se dar visibilidade ao papel da mulher no enfrentamento das condições de vida. Articulando essas dimensões através do trabalho na horta, no cultivo alimentar, assim observa-se a configuração da horta como espaço de troca de saberes, de compartilhar cuidados, esperanças além de produção alimentar.
Referências
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