Resumen de ponencia
“A cidade foi repartida e nós não fomos convidados”: ação coletiva e a construção de uma noção de cidade no Coletivo Debaixo
*Jonatha Vasconcelos Santos
A presente comunicação é resultado de uma dissertação sobre a emergência de um coletivo cuja pauta de luta é o “direito à cidade”. Com base nessa pesquisa, o objetivo deste artigo é apresentar o processo de construção de uma noção de “cidade” vocalizada e representada pelo Coletivo Debaixo na cidade de Aracaju/SE. O Coletivo Debaixo surge em 2013 após o ciclo de protesto que ocorreu no Brasil e ficaram conhecidos como “as manifestações de junho de 2013”. O coletivo é composto por uma grande maioria de estudantes universitários e os integrantes possuem algumas características comuns que auxiliam na identificação do perfil do grupo como i) o envolvimento em expressões artísticas consideradas marginais como o punk e o hip-hop, ii) o engajamento em partidos políticos, movimento estudantil e outros movimentos sociais mais alinhados à esquerda como o PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) e o Movimento Não Pago e iii) a crítica às estruturas de poder oficiais como os partidos políticos – baseados em experiências de engajamento anterior – a partir das ideias de manipulação, profissionalização e burocratização da política. Após esse período, o coletivo inicia um conjunto de ações intituladas Sarau Debaixo que aconteceu mensalmente, toda terceira terça-feira do mês, entre os anos de 2013 e início de 2017 com intervenções artísticas e políticas embaixo de um viaduto localizado em uma área central e de muita movimentação. A partir disso, o coletivo construiu toda uma narrativa de luta pelo “direito à cidade” a partir de várias pautas relacionadas aos problemas da cidade como a mobilidade urbana, o genocídio da juventude negra e a presença dos corpos femininos e transexuais na cidade. As ferramentas metodológicas utilizadas para recompor a noção de cidade elaborada pelo grupo são as entrevistas semiestruturadas e conversas informais, as observações diretas realizadas durante os eventos promovidos pelo coletivo e os diversos materiais de audiovisual e imagem produzidos grupo. Os materiais coletados através das ferramentas metodológicas utilizadas nesta pesquisa contribuem para a busca de reconstrução da noção de cidade mobilizada pelo grupo. Por exemplo, as ideias e imagens de uma “cidade repartida”, “cidade desigual”, “cidade privatizada”, “cidade-concreto” e “cidade sem afeto” são montadas pelo grupo através de vários repertórios de ação coletiva. O ato de ocupar mensalmente o viaduto José de Carvalho Déda, mais conhecido como viaduto do DIA por estar localizado no Distrito Industrial de Aracaju, através de um uso não negociado do espaço do viaduto constitui uma dessas demonstrações de que é preciso se apropriar de uma cidade repartida e privatizada. Além do Sarau Debaixo, outros repertórios de ação coletiva mais simbólicos foram utilizados pelo coletivo como a produção de vídeos e materiais impressos no qual, através da poesia, da música e da encenação teatral, também construíram uma narrativa sobre a cidade. Na cidade de Aracaju, alguns acontecimentos e situações que antecederam a emergência do Coletivo Debaixo contribuíram para o processo de mobilização dessa noção de cidade pelo grupo. Primeiro, os debates que ocorreram em torno da causa pública das condições e gratuidade do transporte público através do Movimento Não Pago, o Movimento Passe Livre e a participação de alguns militantes no Fórum Social Mundial de 2005 que constituiu um marco importante para as pautas do transporte público. Segundo, a circulação dos idealizadores do Coletivo Debaixo nos movimentos de Sarau que ocorre em várias capitais do Brasil; no caso dos integrantes do coletivo analisado, o Sarau Bem Black que ocorre em Salvador foi uma referência importante para a construção do Sarau Debaixo em Aracaju. Terceiro, as ações de conflito entre os manifestantes e os agentes policiais durante o ciclo de protesto de 2013. E quarto, a requisição do aumento de lugares de lazer gratuito frente ao processo de crescimento de espaços e opções privadas. É importante destacar que diante do crescimento da organização da reivindicação do direito à cidade a partir de diversos olhares como a presença dos corpos indesejados na cidade, a luta pela moradia nos centros urbanos através de ocupações de espaços não utilizados ou a disputa pela destruição de referências patrimoniais para a construção de empreendimentos e do processo internacional de luta pelo direito à cidade, essa pesquisa busca compreender como uma causa não local é traduzida e apropriada por um grupo específico. O Coletivo Debaixo, além de outros movimentos locais que surgem após o coletivo como o Ensaio Aberto, o Coletivo Entre Becos, o Cultura da Periferia e o Arte na Praça constitui algumas expressões locais dessa pauta mais ampla do direito à cidade. E diferentemente de outros modelos de ação coletiva que atuam nessa mesma causa, o Coletivo Debaixo assim como os demais citados são caracterizados principalmente por um perfil de atores engajados, a utilização de repertórios e narrativa sobre a cidade específica e que se distingue de outras formas de reivindicação do direito à cidade como, por exemplo, a luta pela moradia. Portanto, esse artigo propõe analisar o processo de construção da narrativa, elemento comum aos diversos tipos de ações coletivas que propõem solução aos problemas públicos, através da luta pelo direito à cidade em um coletivo na cidade de Aracaju.