O homem, ao longo de sua história, tem se utilizado das mais variadas fontes de energia com o objetivo de ampliar sua capacidade de realizar trabalho e assim reproduzir-se socialmente. Ao produzir aquilo de que necessita para sua sobrevivência, o homem, produz também espaço. Historicamente, a capacidade humana de produzir espaço tem se intensificado proporcionalmente ao aumento da produção e da melhora da qualidade da energia produzia. Por isso o estudo das fontes e das formas de produção de energia, sua dispersão e concentração no espaço mundial são tão importantes para a Geografia. Até meados do século XVIII destacavam-se como principais fontes de energia a força muscular, a tração animal, a força da água e do vento, transformadas em energia através dos moinhos. Embora estas fontes de energia tenham aumentado a capacidade produtiva do homem e alterado sua forma de se reproduzir socialmente, seu potencial energético ainda era extremamente baixo e sujeitava o homem às forças da natureza. Duas importantes invenções foram responsáveis pela transformação do paradigma energético até então vigente, ampliando enormemente a produção de energia pelo homem e aumentando e muito sua capacidade de realizar trabalho e transformar o espaço geográfico. A primeira delas data da segunda metade do século XVIII e resultou em um rendimento energético antes inimaginável, foi o desenvolvimento da máquina a vapor, que possibilitou a transformação de calor em energia mecânica. A segunda grande invenção foi o motor a explosão, já na passagem do século XIX para o século XX, que teve como consequências a ampliação do uso do petróleo como combustível, uma radical transformação na produção do espaço e o expressivo aumento da velocidade de circulação. Embora ainda hoje os combustíveis fósseis figurem como hegemônicos na matriz energética mundial há um indicativo de que muitas nações do mundo estão investindo na diversificação de suas matrizes energéticas. Muitas são as razões para a diversificação das fontes de geração de energia, mas certamente duas justificativas têm predominado no discurso oficial de países e organismos internacionais: a busca por menor dependência dos combustíveis fósseis, dada sua finitude e a dificuldade de controle dos preços dessas matérias-primas, o que poderia ameaçar a segurança energética desses países; e o discurso de base ambientalista, que vem incentivando a redução da emissão de gases poluentes na atmosfera através da substituição dos combustíveis fósseis por fontes consideradas renováveis e limpas. Entre as fontes que vem recebendo enormes incentivos na ampliação de seu uso está a fonte eólica. A utilização da energia eólica para geração de energia elétrica remonta ao século XIX, entretanto, foi durante o século XX que houve grande incremento em pesquisa, resultando em um consistente desenvolvimento da técnica, que viabilizou seu uso comercial. O desenvolvimento da indústria de equipamentos eólicos no século XX resultou essencialmente da combinação entre: a crise energética, instaurada a partir dos dois choques do petróleo na década de 1970; e a ascensão de uma ideologia verde, que resultou da consolidação do elevado grau de desenvolvimento industrial atingido no século XX, especialmente no setor das tecnologias chamadas verdes, entre elas os equipamentos para geração eólica. Embora as fontes renováveis de energia já fossem utilizadas há algum tempo, especialmente a fonte hidráulica e a biomassa, o uso em geral de fontes renováveis, como a energia eólica, ainda era pouco expressivo em termos da matriz energética mundial. A indústria moderna de equipamentos eólicos se desenvolveu primeiro na Europa, com destaque para Dinamarca e Alemanha, e nos EUA, marcadamente na década de 1980; e com quase uma década de atraso na China, Índia e Espanha. O que explica que já nos anos 2000, boa parte dos países europeus ocidentais utilizava a energia eólica em alguma proporção e mantinha programas de ampliação da instalação de parques eólicos com apoio governamental. Em 2003 a taxa de crescimento da energia eólica em países como Alemanha e Dinamarca, pioneiras no uso da energia eólica em larga escala, começou a cair em decorrência da escassez de locais adequados para a instalação de novos parques eólicos, em especial onshore. Em 2008 o mundo foi acometido por uma grave crise econômica, que afetou com maior intensidade países da Europa e os EUA. A indústria de equipamentos eólicos por concentrar-se nesses países sofreu com a redução de investimentos em empreendimentos para geração de energia eólica. A redução dos investimentos em novas unidades geradoras associada à elevada taxa de ocupação eólica já existente em diversos países europeus ocidentais reforçava a necessidade da busca por novos mercados por parte da indústria de equipamentos eólicos. Entre as novas áreas de expansão estavam países como China, Índia e Brasil. Embora China e Índia já dispusessem de empresas nacionais na fabricação de equipamentos, o elevado potencial eólico disponível permitia a concorrência externa. Já o Brasil se mostrava um mercado ainda mais promissor já que não dispunha de empresas nacionais na fabricação de equipamentos eólicos, mas apresentava elevado potencial eólico disponível em áreas de baixa densidade de ocupação, como o semiárido nordestino, e ainda estava entre os países, que não tendo sido fortemente afetado pela crise econômica, seguia realizando importantes investimentos na ampliação de seu parque gerador de energia elétrica. O Brasil, com elevado potencial eólico disponível e nenhuma empresa fabricante de turbinas eólicas, passou a figurar como uma nova e promissora fronteira para a expansão capitalista deste importante segmento da “indústria verde”. Importante lembrar que, não é apenas o aumento da produção de energia em quantidade e qualidade e a ampliação da capacidade humana de realizar trabalho que transformam a forma e a intensidade com que o homem produz o espaço, mas também a criação de infraestruturas para geração, circulação e distribuição de energia em si resultam na produção de espaço, sendo por isso, capazes de alterar a dinâmica dos lugares onde são implantadas. É o que vem acontecendo no semiárido brasileiro, região de maior potencial eólico no território nacional, e que vêm concentrando o maior número parques eólicos e a maior potencia de geração em operação e em construção do país. No capitalismo as crises econômicas costumam resultar em expansão geográfica e novas formas de acumulação do capital. Acreditamos que a implantação de parques eólicos no Brasil, que vem se dando concentradamente no semiárido brasileiro, é uma das saídas encontradas por uma parcela do capital para a crise econômica, que atingiu fortemente o centro do sistema capitalista a partir de 2008. Nesse sentido, acreditamos que a implantação de parques eólicos no semiárido brasileiro se caracteriza como um dos novos mecanismos de acumulação criados pelo capital no período atual, que David Harvey (2010; 2016) chamou de acumulação por despossessão. O contexto da chegada desta técnica para geração de energia através dos ventos no Brasil é o da crise econômica mundial instaurada em 2008, crise esta que atingiu primeiro os países centrais, detentores do conhecimento técnico para geração eólica, e que vem se desenrolando ainda nos dias atuais. O Brasil nesse sentido figura como uma nova fronteira para o avanço das empresas transnacionais fabricantes de equipamentos, bem como para empresas interessadas na exploração dos ventos para geração de energia. A captação dos ventos para a geração de eletricidade configura um processo de mercantilização do espaço aéreo brasileiro. Entendemos que os ventos (ar em movimento) podem ser caracterizados como um bem comum, ou seja, um bem essencial ao desenvolvimento da vida, mas que estão sendo apropriados através do processo de privatização. Trata-se da coisificação de uma riqueza natural, que ao ser apropriada privadamente se converte na mercadoria, a energia elétrica, que tem como objetivo ultimo a acumulação e a reprodução ampliada do capital. Entendendo que as contradições possuem um sentido objetivo, um fundamento na realidade, colocamos no centro de nossas preocupações a identificação e análise das contradições existentes no processo de implantação de parques eólicos no semiárido brasileiro, com o objetivo de buscar compreender a realidade em movimento e em sua totalidade.