A tradução de Celso Furtado: um estudo tradutológico-historiográfico, considerações preliminares.
Autor: Renata Rodrigues
Coautor: Luiz Eduardo Simões de Souza
Celso Furtado (João Pessoa, 1927 – Rio de Janeiro, 2004) é estudado por pesquisadores de diversas áreas do conhecimento científico: História, Economia, Ciências Políticas e Sociais e até mesmo Direito. A área de tradutologia também manifesta interesse a respeito de suas ideias, já que seus livros foram traduzidos para várias línguas e ainda hoje levam seu pensamento sobre história e economia para outros povos e outras culturas.
As traduções, de modo geral, podem ser vistas como uma medida do fluxo internacional de ideias e a troca de informações e conhecimentos entre os falantes de idiomas distintos. Com a ausência do trabalho da tradução, os pensamentos e ideias de grandes pensadores e intelectuais dificilmente teriam deixado seu país e língua de origem e não poderiam ter influenciado outros povos e os ajudado em suas reflexões e crescimento. Evidentemente, as traduções de livros não são a única forma de difundir conhecimentos. Mas são um canal de suma importância para a construção de um intercâmbio de ideias entre grupos falantes de idiomas distintos, na formação de uma comunidade científica poli-idiomática, em sentido amplo.
Assim, estudar como as ideias de Celso Furtado teriam sido recebidas por estudiosos e pesquisadores falantes de outras línguas e qual foi a importância deste fato na constituição dessas culturas poderá ajudar no deslinde do percurso seguido por suas obras na historiografia econômica. Ao se pensar a respeito de historiografia econômica brasileira, a tradução/versão possui papel fundamental em levar o pensamento do economista Celso Furtado a outros povos e culturas e tornar conhecida a nossa história, economia e suas reflexões. É sabido que a recepção de sua obra no exterior foi excelente e o trabalho de Celso Furtado foi reconhecido como sendo de grande contribuição à teoria do desenvolvimento econômico. Desta forma, estudar um eventual caráter único dados por suas obras em relação à historiografia econômica é um objetivo válido a ser estudado na área de história econômica e tradutologia.
Os aspectos da obra de Celso Furtado referentes ao Desenvolvimentismo, em termos de políticas econômicas e da Agenda do Estado proposta por esta forma de pensar a superação da condição periférica da América Latina também são objeto deste estudo tradutológico-historiográfico, uma vez que a difusão dessas ideias em outros idiomas para além do português (e do espanhol) consiste em um transbordamento cultural de uma teoria e política formuladas na América Latina entre os anos 1940 e 1960, qual seja a do Desenvolvimentismo. Isso perpassa a própria constituição da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL, atual CEPAL-ECLAC), uma equipe desde o seu início multidisciplinar e poli-idiomática. Seu caráter eclético serviu tanto para seus objetivos de planejamento e superação do subdesenvolvimento latino-americano, quanto para eventuais críticas recebidas de economistas do centro, que acusaram repetidas vezes ao longo dos anos a CEPAL com argumentos puristas e sectários da parte de uma visão ela mesma purista e sectária da ciência econômica. Mas a interdisciplinaridade adotada pela CEPAL, reflexo da atuação de partícipes como Furtado, por exemplo, contribuiu muito mais para dar profundidade e perspectiva (histórica, territorial, social, epistemológica) a seu pensamento do que o contrário. Celso Furtado é, assim, não apenas um elemento representativo deste grupo, mas também um de seus grandes definidores.
Assim, as notas propostas nesta investigação preliminar, que se pretende de caráter mais amplo, visam estabelecer parâmetros iniciais de reflexão e análise sobre o objeto da tradução da obra de Furtado para outros idiomas como forma de: (1) difusão cultural; (2) intercâmbio e integração multicultural; (3) expansão do debate sobre teoria e política econômica; (4) debate teórico e metodológico envolvendo a prática de História Econômica em sentido amplo; (5) debate historiográfico sobre o desenvolvimento de países periféricos e a relação centro-periferia na composição do desenvolvimento desigual.