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Resumen de ponencia
Vozes dissonantes e integradoras em torno do nacional na Copa do Mundo da Argentina de futebol.

*Alvaro Vicente Graça Truppel Pereira Do Cabo



No presente artigo serão abordados alguns elementos de ressonância popular durante a Copa do mundo de futebol de 1978 a partir dos veículos da imprensa brasileiros e argentinos (Placar, Jornal do Brasil, Clarín e El Gráfico) identificados como relevantes no segundo capítulo da minha tese sobre o torneio que abordou manifestações populares no evento.
Desde um interessante debate entre renomados literatos argentinos sobre a efetiva importância da realização do mundial e do futebol para o país, passando pela influência da televisão durante o torneio e culminando com importantes focos de resistência civil como os montoneros e as madres de mayo, foi possível identificar vozes dissonantes e integradoras, mesmo que representadas em apenas um dos veículos analisados.
A oposição do grande escritor Jorge Luís Borges ao futebol foi mencionada no Jornal do Brasil (Caderno , 02 de junho de 1978, p.3) em reportagem intitulada “O esporte segundo Borges” e abordada na bibliografia, por exemplo na obra, de Novaro e Palermo (2013, p.163) que relata provocações irônicas feitas pelo literato:

Quien puso el dedo en la llaga de este entusiasmo argentino fue un Jorge Luis Borges sarcástico (revista Somos, 23 de junio de 1978): “no es posible que un país se sienta representado por los jugadores de fútbol. És como si nos representaran los dentistas. La Argentina tiene dos cosas que ningún país do mundo posee: la milonga y el dulce de leche. Que más identidad pretenden?
Lejos de lamentar que ni la milonga (que compartimos con los uruguayos) ni el dulche de leche (que compartimos con los brasileños) sean una exclusividad argentina no faltó quien recogiera el guante tomando en sério la boutade; desde el mismo médio, Polakovic sustuvo que, a Borges, “se le escapó el valor etnogenético de las emociones colectivas de ser nacional ; ... las multidudes que eran un solo ser ... La nación argentina entera, como ser viviente y palpitante, estaba presente en el estádio (2013, p. 163).

Apesar da provocação do importante escritor, o discurso que predominava nos periódicos argentinos estudados alinhava-se com as afirmações do filósofo eslovaco radicado na Argentina, Estebán Polakovic, autor de um longo ensaio no Clarín (SUPLEMENTO CULTURA Y NACIÓN, n. 11.605, 22 jun. 1978, p. 6), “En el campeonato mundial, la presencia de lo nacional”. O texto trazia uma crítica direta a Jorge Luís Borges e defendia outro ícone da literatura argentina, Ernesto Sábato, que defendeu a realização do torneio.
O filósofo utilizou uma linha argumentativa que ajudava a justificar o apoio popular à realização do mundial sem comprometer diretamente os indivíduos com o “Processo”. Porém, as próprias referências à presença do presidente Jorge Rafael Videla no estádio, bem como expressões como alma e comunidade nacional não eram completamente neutras, sem nenhum vínculo com a “cidade política”.
Desde o surgimento do sentido moderno do conceito de Nação, segundo Hobsbawn (1990) existiria um vínculo político que seria operado especialmente a partir da Era das Revoluções que pode ser compreendido como “princípio da nacionalidade”.
O mundial realizado na Argentina teria viabilizado o futebol como operador de nacionalidade no país nos termos de Alabarces (2008), estabelecendo um vínculo macropolítico de integração independentemente da adesão ideológica da população ao Estado ditatorial. Os meios de comunicação argentinos estudados teriam exercido um importante papel no estabelecimento destes laços “protonacionais” que, por sua vez, eram visivelmente externados nos espaços públicos durante o mundial como por exemplo nas transmissões das partidas na famosa casa de espetáculos “Luna Park”.
Anderson (2008) aponta que as origens da consciência nacional estão vinculadas ao capitalismo moderno, a tecnologia de imprensa, a diversidade linguística e que a nacionalidade e o nacionalismo seriam produtos culturais específicos, vinculados na contemporaneidade aos domínios políticos e ideológicos.
A explosão de manifestações nacionalistas reverbera nos domínios políticos e ideológicos. No caso específico do campeonato mundial de futebol realizado na Argentina, seria complicado separar a ideia de nação da conjuntura política do país. Isso não quer dizer, que pelo fato de grande parte dos argentinos torcerem pela seleção nacional, a população apoiava a ditadura militar. Mas o evento ensejou um capital político importante para algumas autoridades governamentais como o general Jorge Rafael Videla, ou internacionais, como o próprio João Havelange, e possibilitou uma retórica nacionalista de defesa da nação potencializada pelos meios de comunicação.
Pode-se dizer que a televisão também exerceu um papel importante na construção de uma ideia de integração nacional em ambos os países. E os veículos analisados revelam indícios da mobilização popular por meio desse importante instrumento midiático que, segundo Bourdieu (1997), exerce uma fórmula perniciosa de violência simbólica:
Neste sentido, o sociólogo Horowicz (2012) interpreta os índices de audiência, que seriam o deus oculto do universo televisivo segundo Bourdieu (1997). Durante o torneio emergem como um símbolo de adesão da população ao mundial e do “esquecimento” da própria repressão contra as guerrilhas, exercida de forma cruel pela junta militar no país.
A tentativa de ocultar o caráter opressor do governo ditatorial, anulando a ideia de conflito social, se estendeu à censura aos meios de comunicação internacionais, segundo reportagens do Jornal do Brasil. Emissoras de televisão francesa teriam sido proibidas de transmitir imagens da mobilização das madres de mayo, porta-vozes da denúncia do grande número de desaparecidos e torturados durante o torneio.
O regular protesto das madres de mayo não é mencionado nos veículos argentinos estudados, visto que a exaltação das mobilizações populares após as partidas nos espaços públicos amplificariam o discurso oficial em um processo aglutinador de tentativa refundação simbólica da nacionalidade.
Segundo outra reportagem do correspondente internacional do periódico brasileiro, (Jornal do Brasil, 09 de junho de 1978, p.13), durante o torneio as integrantes do movimento eram inclusive criticadas por cidadãos argentinos, apesar do apoio dos estrangeiros.
O silencioso protesto “materno” , segundo a visão do outro brasileiro, não teria sido capaz de emocionar os compatriotas durante a realização do Mundial. Foram relatadas ofensas e indignação dos transeuntes com a manifestação pacífica das genitoras durante um momento “fundamental” para a imagem do país com a falaciosa defesa da campanha “anti-argentina”.
O destaque à presença e interesse dos jornalistas estrangeiros é emblemático para perceber a importância simbólica desse movimento, cuja solidariedade, segundo a reportagem, teria vindo apenas dos enviados especiais. O desespero desafiador oriundo do amor materno criou uma situação de desconforto para a junta militar e ameaçava o clima carnavalesco de comunhão cívica.
Queridas “madres” se transformaram em malquistas “locas” para a retórica oficial. Ignoradas nos veículos argentinos analisados, a ausência delas no Clarín e na Revista El Gráfico revela como elas incomodavam a construção da “fiesta de todos”.
Em contrapartida, uma emblemática reportagem do jornal Clarín intitulada “Las mujeres descubrieron el Mundial” relatou a participação feminina com o aumento do interesse das mulheres pelo futebol durante o torneio de forma irônica e muito caricata. (CLARÍN, n.11.602, 19 jun.1978, p.23).
A matéria foi redigida para contextualizar a representação das mulheres como integradoras da coletividade. A imagem construída no discurso do periódico argentino exaltou a participação feminina, ignorando completamente o drama das madres de mayo.
Além das populares madres, o simbólico grupo guerrilheiro dos Montoneros também só apareceu em evidência nas reportagens do jornal brasileiro, mesmo tendo adotado a princípio uma postura de “torcer” para a seleção nacional, independentemente das campanhas e denúncias ao regime.
Segundo reportagem publicada no Jornal do Brasil até mesmo a orientação do grupo guerrilheiro Montoneros aos seus membros durante o campeonato era torcer para a seleção, sobretudo na final contra a Holanda, apesar de obviamente seus integrantes não estarem apoiando a ditadura militar:
Muitos membros do emblemático grupo guerrilheiro teriam aderido à torcida pela equipe, independentemente do posicionamento ideológico. Tal fato é interessante, pois ajuda a compreender a hipótese de que o esporte é um operador de nacionalidade que estabelece manifestações populares e vínculos com o domínio político, tanto nos casos de apoio quanto para aqueles que rejeitavam a sangrenta ditadura no país.
A circulação de um material de propaganda durante o mundial contra o regime, mas a favor da seleção nacional de futebol, demonstra que mesmo em um “lapso carnavalesco” ou em um momento de tentativa oficial de refundação simbólica nacional, vozes contrárias ao regime buscavam espaço simbólico de contestação independentemente de estarem aderindo à mobilização popular em torno do futebol.

Referências bibliográficas
ALABARCES, Pablo. Fútbol y patria: el fútbol y las narrativas de la nación en la Argentina. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2008.
ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e difusão dos nacionalismos. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1997.
HOBSBAWN, Eric. Nações e Nacionalismos desde 1780: programa, mito e realidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
HOROWICZ, Alejandro. Las dictaduras argentinas. Buenos Aires: Edhasa, 2012.
NOVARO, Marcos; PALERMO, Vicente. Historia argentina: la dictadura militar 1976-1983: del golpe de Estado a la restauracíon democrática. Buenos Aires: Ed.Paidós, 2013.




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* Graça Truppel Pereira Do Cabo
UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES /UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO UCAM/UFRJ. Rio de Janeiro, Brasil