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Resumen de ponencia
Considerações sobre o conceito de crítica a partir de Charles Sanders Peirce

*Fernanda Araujo Perniciotti



Vale convocar conceitos e, principalmente, o movimento do pensamento de Charles Sanders Peirce, para elucidar algumas possibilidades sobre o entendimento de crítica. Na arquitetura do pensamento de Peirce, a crítica está configurada nas ciências normativas (estética, ética e lógica) como um dos ramos da lógica. As ciências normativas se codeterminam, uma vez que a estética, ciência dos ideais – admirável sem razão prévia – sustenta a ética – ciência da conduta autodeliberada, autocontrolada e aceitável – na determinação do summum bonum. E, respectivamente, a lógica – ciência do pensamento autocontrolado e deliberado – depende do estabelecimento dos princípios éticos que, por sua vez, já estão ligados aos estéticos, se para tornar possível o pensamento, do ponto de vista de sua aceitabilidade. Para pensar a lógica e, assim, aproximar-se da crítica, precisamos compreender que:
"Logic, regarded from one instructive, though partial and narrow, point of view, is the theory of deliberate thinking. To say that any thinking is deliberate is to imply that it is controlled with a view to making it conform to a purpose or ideal. Thinking is universally acknowledged to be an active operation. Consequently, the control of thinking with a view to its conformity to a standard or ideal is a special case of the control of action to make it conform to a standard; and the theory of the former must be a special determination of the theory of the latter." (PEIRCE, 1931, s/n)
A crítica, em vocabulário peirceano, é o segundo de um terceiro. Para Peirce, a lógica se ramifica em três operações: gramática especulativa (primeiro), lógica crítica (segundo) e metodêutica (terceiro). É importante esclarecer que primeiro, segundo e terceiro não correspondem a uma ordem cronológica, mas remetem às três categorias peirceanas: primeiridade, secundidade e terceiridade. As categorias são os processos pelos quais todas as coisas são possíveis, existem e são representadas; processos simultâneos e inseparáveis. Por isso, cabe evitar a saga classificatória e pensar conceitualmente no movimento do pensamento proposto pelo autor.
Vale observar a arquitetura do pensamento, porque, em Peirce, as categorias estão interligadas e é necessária uma visão panorâmica para entender a especificidades. Por exemplo, é imprescindível deixar no horizonte que a filosofia é um segundo entre as ciências, as ciências normativas é também um segundo em relação à filosofia, a lógica é um terceiro em relação às ciências normativas e a lógica crítica é um segundo em relação à lógica. A reincidência de segundos e o terceiro no campo da Lógica já aponta para a necessidade de pensar a mediação (terceiro) em sua intersecção com o objeto (segundo), só pela arquitetura do pensamento, pela organização diagramática do modo como as coisas aparecem em Peirce.
O elemento mediador, como uma convocação a estabelecer elo entre uma ou mais ideias, é a característica da terceira categoria. A terceiridade tem como operação uma consciência sintetizadora, capaz de mediar. Apresenta-se como uma tendência à generalização que organiza o maior número possível de fenômenos ao universo conceitual, ao âmbito da generalidade. O terceiro traz consigo o fluxo do tempo, uma vez que reúne a particularidade da experiência ao universo da generalidade, do que se repete, de modo a garantir-lhe um estatuto de representação. Pensamento é entendido como elemento de mediação, que não pode ser desvinculado do tempo – associado ao passado e dotado de intencionalidade futura. (DIBRI, 2015)
A segunda categoria, entendida na dualidade ‘ação e reação’, é a principal responsável pela noção de outro, a alteridade. A partir da ideia de negação – a oposição que constitui o ‘em relação a’ –, como uma força bruta que reage de modo a sobrepor uma dualidade bruta, que convoca a ação e a reação. A alteridade na segunda categoria tem um caráter não-mediato, uma experiência imediata de negação, sem a mediação do cógito (uma oposição ao cartesianismo). A lógica é uma mediação que lida com questões de fato, ou seja, precisa encontrar no mundo externo equivalência às suas premissas, o que é uma propriedade da operação de análise de natureza crítica. (DIBRI, 2015)
Atada ao segundo de um terceiro (a lógica), a crítica é, por natureza, a pergunta pela relação entre um objeto e seu signo, ou seja, conduz a questão: em que medida o signo é capaz de representar o seu objeto? A ênfase no segundo, como aquilo que diz respeito à natureza da crítica, leva a associá-la à importância do fato, de algo que está necessariamente fora do discurso, separado dele, e ao que ele, necessariamente, remete.
Já é possível concluir como uma primeira formulação: a associação da operação crítica com o que diz respeito ao outro, à alteridade, àquilo que não é interior à coisa, mas separado dela.
Antes de seguir com a noção de operação crítica, é preciso convocar os dois outros ramos da lógica, sem os quais, entendendo a noção de codependência entre as tríades peirceanas, não é conceitualmente sustentável continuar a discussão. A gramática especulativa é o estudo de todos os tipos de signos e formas de pensamento que eles possibilitam. A lógica crítica toma como base as diversas espécies de signos e estuda os tipos de inferências, raciocínios ou argumentos que se estruturam através de signos. Esses tipos de argumentos são a abdução, a indução e a dedução. Por fim, tomando como base a validade e força que são próprias de cada tipo de argumento, a metodêutica tem por função analisar os métodos a que cada um dos tipos de raciocínio dá origem. (SANTAELLA, 2008, p. 3 e 4)
A argumentação – que pode ser dividida em abdução, indução e dedução – é a força da inferência do argumento associado ao que ele diz respeito, como já vimos, ao segundo, ao fato, ao externo. Sem o estudo dos tipos de signos – ou melhor dito, da natureza da representação – advindo da gramática especulativa, a operação crítica perde o critério da pergunta inicialmente colocada: em que medida o signo é capaz de representar o seu objeto? E por fim, a metodêutica enquanto método de análise dos tipos de raciocínio, ou seja, dos tipos de argumento, depende da força das inferências, da relação entre objeto e signo. Como o terceiro de um terceiro, a ênfase de uma operação de natureza metodêutica é do pensamento deliberado, que desemboca no discurso organizado para um fim, uma vez que teria o subsídio da análise da representação (gramática especulativa) e da relação do signo com seus objetos (lógica crítica).
Ainda com Peirce, é possível convocar o conceito de razoabilidade concreta, que é a razão em processo de crescimento, para compreender o continuum do pensamento, que não está na ‘cabeça’, mas no mundo. O pensamento está no mundo. O termo ‘concreta’ enfatiza a necessidade do esforço dos interpretantes para a concretização de sua continuidade. Peirce classifica três tipos de interpretantes: interpretante emocional, interpretante enérgico e interpretante lógico. Interpretante não é intérprete, propriamente humano, mas uma representação no sentido de mediação. A condição para o desenvolvimento do interpretante lógico, que é o campo em que a crítica se desenvolve, depende do empenho do interpretante energético, que é de ordem ética, dentro das Ciências Normativas (SANTAELLA, 2016).
Em 2016, “pós-verdade” foi eleita pelo Dicionário de Oxford como a palavra de maior destaque do ano. Registros do Google revelaram que o uso da palavra cresceu em 2000%, que foi citada 20,2 milhões de vezes em inglês, 11 milhões em espanhol e 9 milhões de vezes em português. A consagração da palavra vem depois de 13 anos do lançamento do livro The post-truth era – Dishonesty and Deception in Contemporary Life, de Ralph Keyes. Obviamente, Keyes não poderia ter noção da dimensão do termo, inclusive do ponto de vista conceitual. Depois da eleição norte-americana, em que o empresário Donald Trump tornou-se presidente dos EUA, com o uso da estratégica da tecnologia da informação Big Data, outros termos se associaram à era da pós-verdade. A assessoria de imprensa do presidente norte-americano é redundante, desde o período eleitoral, no uso de termos como “fatos laterais” / “fatos alternativos”; e a área da comunicação – assim como as da política, da economia e das artes – assusta-se com a proliferação e a legitimação do que passa a ser chamado de fake news.
É necessário convocar a teoria corpomídia (KATZ e GREINER, 2005) para entender que todo esse universo é produzido e produto, ao mesmo tempo, de tipos de corpos, o corpo da informação, da política, da arte, dos sujeitos leitores, dos sujeitos (ditos) críticos.
Ao reconvocar a noção de lógica crítica em Peirce, um fator parece ser decisivo na compreensão do conceito de crítica: o deslocamento do objeto, do fato, do externo. Todo o universo associado à “era da pós-verdade” traz uma contradição no seio da noção de objeto: a que o discurso remete se não tem nenhum compromisso com o fato, ou melhor dizendo, com qualquer noção de exterioridade? Vale dizer que não é uma oposição entre verdade e mentira ou mesmo uma visão que ignore a discussão das narrativas, não é uma defesa pelo “fato verdadeiro” ou a “informação imparcial”, apesar de o conceito de verdade em Peirce poder colaborar com a reflexão. É uma construção de operação lógica. Aqui, a discussão não é pelo resultado verdadeiro ou falso da construção de um discurso, mas, sim, da natureza da operação para se chegar a ele.
A hipótese propõe que o objeto não desapareceu no processo de representação da informação, até porque isso seria uma mudança ontológica na perspectiva peirceana, mas foi deslocado para o centro do próprio discurso. Isso significar dizer que a operação que remete à elaboração do discurso tem ênfase na metodêutica, em suspensão da gramática especulativa e da lógica crítica, em relação àquilo que o discurso inicialmente pretende enunciar. Este contexto apresenta uma baixa probabilidade da crítica.




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* Araujo Perniciotti
Programa de Pós Graduação em Comunicação e Semiótica - PUCSP COS - PUCSP. São Paulo, Brasil