Históricamente, a cidade de São Paulo é o destino de imigrantes oriundos de diversas partes do mundo. Nesse contexto migratório, destaca-se, a partir do século XX, a massiva imigração boliviana impulsionada pela proximidade entre Brasil e Bolívia, acordos de intercâmbio cultural e, mais recentemente, a associação da Bolívia ao bloco Mercosul. A cidade de São Paulo é escolhida pelos imigrantes bolivianos principalmente pela alta oferta laboral, em comparação com outras regiões brasileiras. A presença e futura inserção de famílias bolivianas nos diversos espaços de interação social existentes - trabalho, escola, e locais de lazer, promove e exige reestruturações, uma vez que esses espaços precisam acolher a diversidade que os imigrantes trazem consigo.
Em São Paulo, as famílias, que em alguns casos já chegam à cidade com filhos, ou geram novos filhos que, embora tenham nascido no Brasil, estão influenciados por suas raízes bolivianas devido ao contexto familiar que fazem parte, precisam inserir seus filhos na escola e em locais de exercício de lazer. Ao sair do círculo familiar, as crianças se deparam com uma série de barreiras que dificultam seu desenvolvimento e bem-estar, enquanto criança e cidadã, como o idioma, o preconceito e o despreparo por parte das pessoas que lidam com elas no cotidiano.
No contexto escolar, as dificuldades de adaptação enfrentadas pelas crianças são diversas. Entre elas, destacam-se a falta de preparo por parte das educadores e educadores que trabalham diariamente com as crianças no cotidiano escolar, a violência escolar por parte das outras crianças brasileiras que frequentam a mesma instituição de ensino, as limitações curriculares de projetos pedagógicos que não apresentam um currículo diverso e multicultural, capaz de incluir crianças provenientes de outras culturas e contextos sociais e, consequentemente, desenvolver nelas habilidades dentro de suas próprias particularidades.
Outro obstáculo encontrado pelas crianças bolivianas diz respeito ao exercício do brincar. Moradoras, em sua maioria, de bairros localizados na periferia da cidade de São Paulo e da Grande São Paulo, elas, assim como as demais crianças, encontram dificuldades para localizar lugares adequados para brincadeiras fora do período escolar. Os empecilhos vão além daqueles enfrentados pelas crianças brasileiras, uma vez que as crianças bolivianas também encontram resistência para se integrarem socialmente às outras crianças devido a sua nacionalidade. Desse modo, seu desenvolvimento e lazer também fica comprometido pela falta de espaços apropriados para exercê-lo e pela dificuldade de integração.
É importante atentar-se à complexidade e riqueza existente nas relações entre crianças. Uma criança imigrante convivendo diariamente com outras crianças que não são imigrantes de outras regiões e/ou países pode ser capaz de criar uma verdadeira mudança nas relações ao representar a diversidade, os aspectos de seu país e região de origem ou ao falarem em sua língua materna. Nesse sentido, é importante enxergar a diversidade entre as crianças como um fator que contribui para a construção de relações mais harmônicas e na formação de cidadãos mais tolerantes. Faz-se necessário a construção de espaços que sejam capazes de acolher a pluralidade cultural, valorizando, assim, as diferenças.
Outra barreira encontrada pelas crianças bolivianas é o idioma, fator que possui forte influência na constituição de suas identidades e ressalta suas raízes. Embora muitas delas tenham nascido no Brasil, em alguns casos o idioma que predomina no ambiente familiar é o Espanhol e, ao chegarem na escola elas são obrigadas a se comunicarem em Português. Isso se torna uma dificuldade a partir do momento que a criança ainda não foi alfabetizada em nenhum dos dois idiomas e utiliza os dois, em diferentes contextos. Embora o ensino da língua espanhola seja obrigatório a partir do Ensino Médio no Brasil, as crianças bolivianas costumam encontrar poucas oportunidades para difundirem seu idioma fora do contexto familiar. As escolas também encontram dificuldades para inserirem o idioma em suas jornadas escolares. É importante, então, pensar em um projeto pedagógico capaz de incluir crianças que se comunicam em outros idiomas, utilizando essa diversidade linguística à favor de todas as crianças e da própria escola.
Tantas diferenças e complexidades exigem uma reestruturação no modo de refletir e agir. Não é possível ignorar a presença de crianças com aspectos culturais tão diversos e que são cidadãs ativas na sociedade. É necessário um olhar sensível e respeitoso a uma parcela da sociedade que frequentemente é subestimada e ignorada: as crianças - independentemente de suas nacionalidades.
Esse trabalho tem como objetivo mapear, discutir e problematizar as políticas de inclusão criadas com o objetivo de atender as crianças bolivianas na cidade de São Paulo e a adaptação dessas crianças aos locais de interação social que pertencem.