Resumo
Tratar empresas não financeiras como tomadoras de empréstimos é uma abordagem cada vez menos realista. Investimentos financeiros fazem com que os juros, os proventos e a própria valorização dos ativos tenham presença cada vez mais relevante no resultado das empresas, frente a seu lucro operacional.
O mais recente relatório trimestral do Banco de Compensações Internacionais (BIS) corrobora o fenômeno ao identificar as grandes empresas como provedores de recursos aos Tesouros Nacionais e a outras empresas, via compra de títulos de dívida pública e privada.
Não obstante trate-se de um movimento estrutural, a expressiva expansão da liquidez por parte dos Bancos Centrais após a crise de 2008 reforçou o processo, na medida em que o aumento de caixa das grandes empresas transacionais possibilitou um maior acúmulo de ativos financeiros em seus balanços.
Outro prisma dessa manifestação são as operações com derivativos, tradicionalmente usadas pelo departamento financeiro das empresas como estratégia de reduzir riscos. Se uma corporação tem receitas em moeda nacional e dívidas em moeda estrangeira, é prudente buscar proteção à alta da divisa estrangeira no mercado de derivativos. No entanto, a lógica dessas operações estão, progressivamente, migrando para a esfera especulativa.
A despeito das fiscalizações do aparato regulatório dos Estados, é comum casos de empresas que vão à bancarrota por especularem com operações em instrumentos como mercado futuro e opções, derivativos naturalmente alavancados, ou seja, que negociam valores muito superiores àqueles efetivamente empenhados. A expectativa da empresa é acertar o movimento de preço do ativo e ter ganhos financeiros que inflem o resultado abaixo da linha, o lucro líquido. O problema reside no fato de que é impossível prever movimento de preços no mercado financeiro. Quando os preços vão na direção “errada”, o prejuízo pode levar a instituição a um passivo a descoberto.
O objetivo da pesquisa é identificar os albores desse processo, hoje denominado financeirização. Autores como Karl Marx, Rudolf Hilferding e John Hobson aparecem como figuras centrais para a investigação. O primeiro, na emblemática obra O Capital, desenvolve o conceito de capital portador de juros e o desenvolvimento do crédito. A avaliação de Marx deve ser vista como uma análise profunda daquilo que será a estrutura sobre a qual o capital fictício emergirá. Em Hilferding encontra-se um estudo mais acurado da centralidade do capital financeiro. Segundo a definição do autor, no seu livro O Capital Financeiro, este nada mais é do que a junção entre o capital bancário e o capital produtivo, com a patente dominância daquele sobre este.
A importância de Hobson está em identificar, ainda no século XIX, problemas no mercado financeiro que não diferem, na essência, do ocorrido hodiernamente. Em A Evolução do Capitalismo Moderno, verbi gratia, o autor elabora uma minuciosa crítica daquilo que hoje é denominado “enfeite de noiva”. Trata-se de uma melhora artificial do balanço da empresa para suas ações serem lançadas a um preço mais elevado junto aos compradores. Tal prática prejudica os novos acionistas, enquanto beneficia o fundador e o banco contratado para fazer as emissões.
A relevância do tema financeirização encontra-se em seus impactos sobre a própria dinâmica econômica. Houve muitos estudos sobre relação entre o patrimônio e o consumo. O assim denominado efeito riqueza atesta um maior consumo por parte das famílias quando seu patrimônio cresce. Mas não apenas as decisões de consumo privado obedecem à lógica patrimonial. Decisões de investimentos produtivos das grandes corporações concorrem com a possibilidade de acumulação de riqueza financeira.
Entender esse processo tornou-se fator relevante para entender o próprio crescimento econômico. Cabe ressaltar, outrossim, que o aumento da riqueza financeira ou imobiliária descolado dos fundamentos dos ativos abre espaço para crises corretivas que penalizam o conjunto da economia, devido a seus efeitos sistêmicos, enquanto as benesses do ciclo de alta estão reservadas a um conjunto restrito da sociedade.