COLONIALIDADE DA NATUREZA
Para compreender as influências que a colonialidade teve e tem sobre a natureza faz-se necessário compreendermos como aquela tem efeitos ainda hoje. A linha teórica que estrutura este trabalho supõe uma coexistência entre a modernidade e a colonialidade. Veremos como essa coexistência tem na compreensão sobre a natureza e no seu domínio um ingrediente fundamental. Para tanto, será importante entender o papel da ciência moderna nesta construção.
Historicamente, a modernidade é explicada como o período em que a racionalidade humana alcançou seu auge. Esse processo teria ocorrido na Europa, estabelecendo-se como centro do mundo capaz de irradiar seus efeitos modernizantes. De acordo com essa concepção, eventos como Renascimento, Iluminismo, Reforma, Revolução Francesa e Revolução industrial consolidaram a organização de um sistema-mundo centrado na Europa. Este continente teria reunido as condições necessárias para alcançar um nível de desenvolvimento supostamente nunca antes visto na história humana. Isso lhe daria condições de assumir um protagonismo antes as outras regiões do mundo.
Este tipo de explicação perdura até os dias atuais, mas esconde, segundo pesquisadores como Walter Mignolo e Enrique Dussel um importante elemento que permitiu este desenvolvimento. Para eles, este avanço só foi possível através da colonização da América, já que mediante a exploração da natureza e das populações que aqui viviam, reuniu-se os bens essenciais para o desenvolvimento do capitalismo e dos países europeus como entendemos hoje. Desta forma, a América não foi incluída em um sistema capitalista global pré-existente, mas sim foi um requisito necessário para a criação desse sistema.
A Modernidade criou uma relação distante entre indivíduo e natureza, tratando esta enquanto um material passivo. Assim, retira-se o ser humano da natureza e passa-se a encará-la apenas como uma fonte de obtenção de lucro por meio de manipulação e uso desenfreado de seus recursos considerados apenas como matérias-prima destinadas a criar e alimentar novas tecnologias. Uma relação dependente e abusiva, associando a natureza à criação de riquezas justificada por critérios científicos.
Mignolo (2010) defende uma problematização sobre a criação da ciência questionando as razões e os interesses defendidos por ela, apontando a possibilidade de se tratar apenas de uma ferramenta justificadora de ações dominadoras. Nesta perspectiva, há uma problemática importante a ser analisada: nesta construção histórica surge uma hierarquização de conhecimentos, a fixação de parâmetros epistemológicos, enquanto validação e legitimação de uma realidade, por apenas uma forma de compreensão, desconsiderando quaisquer outras visões e possibilidades. Essa valorização do conhecimento europeu sobre os demais é o que chamamos de eurocentrismo.
A natureza compreendida majoritariamente como fonte de recursos é fruto de uma visão eurocêntrica e moderna, acorde ao sistema capitalista. Considerada em separado do ser humano e inferior em importância, ela pode ser instrumentalizada tendo em vista sua utilidade para o desenvolvimento do aparato industrial existente. Segundo Lander esse processo de inferiorização da natureza e de separação do que é humano e do que é natural foi importante, pois:
Ao fazer-se a abstração da natureza, dos recursos, do espaço e dos territórios, o desenvolvimento histórico da sociedade moderna e do capitalismo aparece como um processo interno e autogerado da sociedade moderna, que posteriormente se expande às regiões “atrasadas”. Nesta construção eurocêntrica, desaparece do campo de visão o colonialismo como dimensão constitutiva destas experiências históricas. Estão ausentes as relações de subordinação de territórios, recursos e populações do espaço não-europeu. Desaparece assim do campo de visão a presença do mundo periférico e de seus recursos na constituição do capitalismo, com o qual se reafirma a ideia da Europa como único sujeito histórico (LANDER, 2005 p. 19).
Além da instrumentalização da natureza, há também um ocultamento dos povos subjugados e colonizados que habitavam esses espaços. Lander explícita como há um processo de encobrimento da participação do “outro” colonizado e da sua importância como fornecedor de matéria-prima e mão-de-obra que foram essenciais para o desenvolvimento dessas sociedades. Ao mesmo tempo, em uma via de mão dupla há a extrema valorização da ciência e dos conhecimentos criados por essa sociedade, o que além de a classificarem como superiores criam um objetivo de desenvolvimento a ser alcançado que jamais será possível sem a mesma exploração a qual a Europa subjugou a América e a África.
Nesta perspectiva, as teorias descoloniais irão buscar entender como se desenvolveu esse sistema de dominação eurocêntrico e quais as alternativas de análise são possíveis a partir de referenciais mais locais, neste trabalho especificamente, a partir da América Latina.