Desde 1984, quando surge o primeiro artigo sobre a prostituição masculina no Brasil, outras pesquisas têm explorado a temática no intuito de compreender as vivências de sujeitos que optam por praticar sexo tarifado para complementar sua renda. A partir de um levantamento bibliográfico, o presente estudo encontrou quarenta e cinco produções teóricas sobre prostituição masculina no Brasil. Com as pesquisas catalogadas, foi criado um perfil sociológico do que vem sendo discutido no país. Pretendemos mostrar como este conhecimento é organizado regionalmente no Brasil em termos de produção. Além disso, apresentaremos as transformações operadas no campo nas últimas três décadas, a partir, por exemplo, da apropriação de diferentes espaços para o desenvolvimento deste “negócio”. Por fim, daremos especial atenção às questões que perpassam sexualidade, raça, profissão e estigmatização. A produção teórica sobre prostituição masculina ainda é tímida no Brasil. Foi na década de 1980 que se passou a olhar para este fenômeno urbano. Nesse sentido, a dissertação de Néstor Perlongher , publicada em 1987 sob o título O negócio do michê: prostituição viril em São Paulo , tornou-se o documento basilar dos estudos sobre a temática no Brasil. Falar de michês no Brasil é, quase sempre, fazer algum tipo de referência a Néstor Perlongher, ou mesmo usar suas categorias e conceitos. Não apenas porque ele foi pioneiro nessa discussão, mas pela qualidade de sua obra, que está bastante atual, mesmo depois de mais de trinta anos de sua publicação. Não é um acaso que, das quarenta e cinco produções encontradas, quarenta e duas fazem da pesquisa de Perlongher o referencial teórico. Portanto, a importância teórica do antropólogo argentino é uma confluência de bons encontros: pioneirismo etnográfico na temática e genialidade na análise teórica das relações que envolvem o universo de homens que se prostituíam na cidade de São Paulo no começo da década de 1980.
Os dados iniciais de pesquisa nos permitem refletir sobre questões, tanto em relação ao que está explícito no perfil sociológico realizado, por meio do uso de figuras, quadros e tabelas, como em relação ao que não foi encontrado em nossa análise. Algumas ausências aparecem como profundamente significativas para se pensar este percurso da pesquisa. Um exemplo dessas lacunas teóricas seria a falta de trabalhos sobre prostituição masculina na região Centro-Oeste do país. Analisar de onde estão sendo feitas as pesquisas, em termos de região e tipo de instituição, bem como por quem estão sendo produzidas pode ser importante para pensar um primeiro panorama da experiência de vida de michês e seus clientes. Nesse sentido, nossa proposta é contribuir com os debates que já estão consolidados no país sobre a grande temática de Gênero e Sexualidade, a partir de um campo ainda em vias de consolidação, para que, por meio deste panorama teórico, possamos identificar os principais conceitos e categorias para a compreensão das experiências de vidas subalternas (Spivak, 2010), como a de homens que praticam o sexo tarifado, quase sempre com outros homens, no Brasil.
Nosso trabalho se insere numa gama de pesquisas que, do ponto de vista metodológico, segue uma abordagem qualitativa. Na primeira etapa desta pesquisa, foi feito um levantamento bibliográfico nas principais revistas da área, mais especificamente em suas plataformas online , seguido da leitura e fichamento dos trabalhos acessados. Neste primeiro momento, nos deparamos com a dissertação de mestrado de Néstor Perlongher, O negócio do michê (1987), que, ainda hoje, se constitui como o documento mais substancial nos estudos sobre prostituição masculina no Brasil. Além deste escrito de Perlongher, e outros quatro artigos escritos pelo antropólogo, localizamos outras quarenta e uma produções, que vão desde artigos, monografias, dissertações e teses sobre a temática geral.
Após esta sondagem daquilo que vem sendo produzido no país, por meio da leitura e fichamento dos textos catalogados, criamos um perfil sociológico da produção localizada. Por fim, fizemos uma aproximação dos trabalhos encontrados a partir da recorrência de elementos, lugares e situações.
Quando foi pensada a elaboração de um perfil sociológico do que vem sendo produzido no país, o intuito era mostrar não só o que foi discutido pelos pesquisadores, mas apresentar uma espécie de cartografia dos trabalhos a partir de seus múltiplos pertencimentos, de modo que nossa pesquisa pudesse traçar um panorama de como tem se desenvolvido esse campo de estudo no Brasil, identificar os principais marcadores sociais da diferença envolvidos na constituição da cena da prostituição masculina e analisar as categorias que dão significado ao “fazer michê”.