Embora a agricultura seja uma atividade em dependência estrita com os ciclos da natureza, a tecnologia vem atuando no sentido de minimizá-la, valendo-se de insumos e formas de manejo potencializadoras de resultados que se mede em volume de colheitas. Essa que parece ser uma dinâmica virtuosa, na prática instaura um ciclo vicioso, dada a dependência crescente dos agricultores para com oligopólios que monopolizam a produção e distribuição dos pacotes técnicos dos quais a agricultura parece não poder mais prescindir.
A consolidação de um circuito alimentar marcado pela liberdade de ação das corporações supõe o aniquilamento de agrossistemas constituídos em simbiose com as características edafoclimáticas e culturais que foram se determinando mutuamente. Para tanto, necessita de uma rede com articulações em diferentes escalas e que, localmente, se materializa na ação dos atravessadores que se interpõem entre os produtores e os consumidores.
Pode-se afirmar que as distorções que isso provoca são de ordem territorial, pois envolvem não apenas a qualidade e a diversidade do abastecimento alimentar, mas também a economia, porque a redução das oportunidades de os pequenos produtores acessarem os mercados repercute diretamente na desorganização da produção que, por sua vez, impacta os locais onde a agricultura comparece como setor importante para a geração e mobilização dos fluxos de renda local. Ou seja, o ciclo insumos-colheitas-dinheiro não se encerra no campo e tampouco afeta todos os agentes da cadeia com igual intensidade, a começar pelos camponeses, o seu elo mais frágil.
Essa fragilidade, determinada pela pequena escala de produção e consequente dificuldade de acesso aos mercados, também afeta os consumidores, pois envolve variações de preços nem sempre compatíveis com a renda salarial e, igualmente, a deterioração da qualidade da comida, cada vez mais produzida com substâncias tóxicas cujas implicações à saúde e ao meio ambiente já se avolumaram o suficiente para apontar a necessidade de superação da agricultura convencional de escala, sob pena de irreversibilidade do colapso social e ambiental.
As constatações, no entanto, parecem não bastar, pois o paradigma do progresso é indissociável da ideologia da segurança alimentar que, por sua vez, trabalha com o imaginário social mediante a ideia de que sem o aprofundamento das técnicas convencionais não é possível alimentar a humanidade.
Esse é o contexto de florescimento do debate político e acadêmico sobre a ecologia, contexto este que nos estimulou a desenvolver projetos de extensão que pudessem transcender a dimensão clássica do trabalho científico, que consiste numa relação unidirecional: da universidade, que produz o conhecimento, para a comunidade, que está para além dos seus muros.
Procura-se com as experiências aqui relatadas inverter esse fluxo, de modo a permitir que o saber comum adentre muros, por meio de testemunhos práticos: comida de qualidade e procedência. Como no Brasil o latifúndio vem ganhando a batalha de convencimento da sociedade de que a luta pela terra é ilegítima, trata-se de um encontro profícuo, porque confrontar o senso comum é tarefa inalienável da universidade. Fazê-lo favorecendo o desenvolvimento de autonomias em contextos de sustentabilidade socioambiental é ainda mais relevante. Isso é o que vem se dando em duas universidades com realidades distintas e temporalidades também distintas, o que faz também que as dinâmicas se diferenciem, sem a perda do elo fundamental.
O projeto Sacolas Camponesas vem sendo desenvolvido pela equipe da UEL desde 2016 e nasceu inspirado no projeto “Sacolas Agroecológicas” desenvolvido na UFMS/Campus de Três Lagoas (CPTL) desde 2014.
Atualmente, o trabalho da UFMS/CPTL articula grupo de consumo de sacolas com feira de produtos em transição agroecológica que acontece no Campus e nos Condomínios Don El Chall e Alto dos Ipês, visando atender a dois propósitos principais, a saber: ampliar as possibilidades de renda dos camponeses do Distrito de Arapuá e do assentamento de Reforma Agrária 20 de Março e oferecer, aos consumidores da cidade, a opção de produtos em transição agroecológica, tendo como referência a comunidade do CPTL. Estes propósitos permitem eliminar atravessadores do processo de comercialização, estimular laços de reciprocidade e, consequentemente, elevar a autoestima dos camponeses, a partir de uma troca de conhecimento entre comunidade universitária, agricultores e sociedade externa.
Tanto nas sacolas como na Feira são oferecidas verduras, legumes, tubérculos, raízes e variados produtos da indústria doméstica como doces, compotas, bolos, salgados, além de artesanato. Além dos produtos disponibilizados a varejo, já se encontra em funcionamento um sistema de encomendas da produção animal de quintal, como frango, ovos, carne suína, banha etc.
Até 2016 o Assentamento Vinte de Março não tinha recebido financiamento público para produção ou reforma de área – embora sejam direitos previstos em lei. O histórico das famílias assentadas é o da omissão do Estado mesmo no provimento de infraestrutura mínima para se viabilizarem como camponeses. Em razão disso, muitos assentados se veem obrigados a vender sua mão de obra, muitas vezes às empresas de celulose instaladas em Três Lagoas, para que seja possível a reprodução social do grupo familiar.
Não obstante, esses camponeses não desistiram de produzir na terra e, mais, produzem de forma mais equilibrada, se afastando do uso de agrotóxicos e adubos químicos em direção à agroecologia. Atualmente, no PA Vinte de Março há 21 pessoas trabalhando com produtos de base agroecológica. Além das vendas diretas nas feiras e grupos de consumo, atendem mercados institucionais do governo e alguns mercados privados, abastecendo refeitórios industriais.
Em Londrina, o Projeto Sacolas Camponesas começou com 40 mulheres do Assentamento Eli Vive, onde parte das 512 famílias vive em situação precária, pois embora a imissão de posse tenha ocorrido em 2014, a liberação dos lotes se deu sem que a infraestrutura que deveria acompanhar a constituição do assentamento estivesse concluída.
A isso acrescente-se o fato de as famílias terem chegado à terra depois de um tempo médio de sete anos de permanência em acampamentos, situação que erodiu ao limite seu patrimônio familiar e pecúnia solvável. Atualmente, aproximadamente 30% das estradas para acesso aos lotes ou às sedes ainda estão por ser abertas e muitos não dispõem de água em quantidade suficiente sequer para a criação de aves e animais de pequeno porte, sem falar no problema das habitações, já que esse recurso até o momento não foi liberado, sendo comum moradias precárias e improvisos de diversas ordens, incluindo-se as duas escolas nas quais estudam mais de 500 crianças.
O acesso aos bens e serviços é difícil, em vista da precária conservação da estrada não pavimentada que promove a ligação com a sede do distrito e com a cidade de Londrina, até porque só há transporte coletivo quatro vezes e em dias úteis, desde que não chova em profusão.
Considerando-se essa realidade, buscou-se o fortalecimento de sistemas agroecológicos conduzidos por mulheres camponesas, obedecendo-se o princípio do empoderamento feminino, aumento da renda familiar camponesa e inclusão tecnológica-produtiva-mercantil.
Ocorre que o objetivo não é apenas apoiar, melhorar e disseminar o processo de produção de quintal no sistema agroecológico de cultivo, mas promover simultaneamente a aproximação dos pesquisadores e da comunidade universitária de um modo geral com a realidade da agricultura camponesa, notadamente dos assentamentos de reforma agrária.
A correlação entre a produção de alimentos sanos e o consumo includente e socialmente justo ocorre em meio ao fortalecimento de uma cadeia triádica, composta pelos membros da equipe do projeto, denominados de mediadores, que se comprometem a atuar com vistas ao fortalecimento dos princípios nos quais repousam a estratégia das sacolas camponesas, que funcionam dentro de um sistema de agricultura apoiada pela comunidade.
Dentro da UEL há 40 apoiadores que, mediante pagamento fixo e antecipado, recebem semanalmente uma sacola de alimentos frescos, divididos entre verduras, legumes, tubérculos, frutas e temperos. São as mulheres que decidem quais serão os alimentos a serem fornecidos com base na disponibilidade e obedecendo-se a um rodízio para que todas as integrantes possam participar.
A dinâmica do compromisso mútuo, em que a equipe promove a capacitação para a produção agroecológica, bem como ao planejamento segundo o calendário de entregas, acabou culminando numa produção de excedentes que não consegue ser absorvida dentro da estrutura do projeto.
Isso culminou na solicitação de um espaço na feira do produtor de Londrina, sendo esse um dos resultados da autonomia que almejamos construir, pois as demandas originadas a partir da implantação do projeto Sacolas Camponesas acabaram por influenciar a organização da produção e a geração de produção de excedentes de olerícolas pelas mulheres a ele vinculadas. Nesse sentido, parece trilhar o ocorrido em Três Lagoas que, a partir da dinâmica das Sacolas Agroecológicas, evoluiu para a comercialização direta a varejo.
Ambas as experiencias permitem concluir que a criaçao e consolidaçao de espaços de comercialização direta da produção dos assentados é essencial para a construção de autonomias, extensiva a dos citadinos, que passam a ter a seu dispor alimentos livres de veneno. Neste sentido, acredita-se que a proposta iniciada na UFMS/Campus de Três Lagoas possa prosperar em igual direção na UEL, mas também em outras universidades, pois os resultados exitosos ajudam na divulgação e valorização da cultura camponesa e da agroecologia, pilares da construção da soberania alimentar brasileira.