O presente artigo tem como objetivo analisar a relação entre a produção cinematográfica nacional e o processo de modernidade e modernização brasileiro. A partir da associação entre temas pictóricos apresentados nos filmes que completam a trilogia dirigida por José Mojica Marins - "À meia-noite levarei sua alma" (1964), "Esta noite encarnarei no teu cadáver" (1966) e "Encarnação do demônio" (2008) - e da realidade social em que foram produzidos, temos como objetivo compreender o cinema enquanto espaço onde os problemas e limites dos próprios processos sociais são projetados e corporificados.
Entendemos dessa forma que o medo ou as ansiedades sociais são o combustível que compõem a produção do cinema de horror, assim como este gênero cinematográfico possui um sentido social que é ignorado pelo lugar de marginalidade que o mesmo ocupa na produção cultural mais geral. Ignoraremos aqui explicações simplistas em que este fenômeno social à respeito do cinema de horror é explicado mecanicamente enquanto simples demanda de mercado, uma vez que tais explicações assumem um caráter eminentemente ideológico, reproduzindo assim relações de poder próprias ao campo artístico.
A indústria cultural terá centralidade em tal análise e será entendida neste trabalho não apenas enquanto o lugar na cultura onde bens culturais ou artefatos culturais são produzidos, mas principalmente como espaço onde normas, valores e sentidos sociais são produzidos e reproduzidos assim como socializados de forma mais intensa (CAMARGO, 2006). As dimensões ideológicas assumidas por tais produtos culturais também entram como objeto da análise aqui proposta, pois compreendemos a tentativa de ofuscamento das contradições sociais nestes produtos culturais emergidos da indústria cultural. Entendemos por ideologia aqui a tentativa de ou a conciliação de tensões e contradições sociais em uma ordem imaginária que são socialmente inconciliáveis (JAMESON, 1989).
Dessa maneira o horror não será encarado unicamente enquanto recurso estético, mas também enquanto linguagem - no trabalho em questão cinematográfica - dotada de um sentido político explicitamente político (FOUCAULT, 2001). Procuraremos entender a partir disso a relação entre os valores universalizáveis do projeto da modernidade e a maneira como estes foram instituídos na modernidade brasileira. Entendemos que as formas sejam alegóricas ou de representação da realidade que são apresentados nos filmes aqui analisados podem nos fornecer dados que nos permitam entender de forma mais elaborada o processo tipicamente moderno próprio a experiência social nacional.
Metodologicamente utilizaremos a sociologia do cinema cunhada por Siegfried Kracauer (1988), por nos permitir localizar e estabelecer a relação entre produtos cinematográficos e valores sociais. Além de nos possibilitar a construção de uma análise sociológica que possua uma dimensão histórica, fazendo com que os filmes sejam entendidos enquanto índices históricos impressos (HANSEN, 2009). Como também essa sociologia do cinema nos permitirá fazer a conexão entre valores sociais e produção cinematográfica, permitindo que possamos perceber os contornos morais apresentados em tais obras, assim como a partir dessa dimensão histórica entender os dilemas e ansiedades que ali são representados.
O recorte temporal em que estes filmes foram produzidos influem diretamente no conteúdo dos mesmos, por mais que a forma do horror seja mantida de uma maneira geral. Por isso o horror – aqui entendido como os elementos que compõem tais obras - apresentado nas três obras analisadas nos servirão como fontes para compreender os momentos históricos em que foram produzidas. Os três filmes apesar de fazerem parte de uma trilogia e serem dirigidos e escritos pelo mesmo autor – José Mojica Marins – possuem maneiras distintas de construírem suas imagens de terror, deixando bastante evidente as mudanças tanto estruturais como em termos de valores operadas na sociedade brasileira durante os processos sociais próprios a modernidade.