A constatação de que os estudantes da Faculdade de Educação do Campo da UNIFESSPA, criada com e para camponeses, não se identificam como tais, provocou o questionamento sobre quais são então as identidades do campesinato e quais são, aonde é o lugar dessas epistemologias como princípio orientador de um programa de pesquisa. Que identidades camponesas há nessa “implosão do logos eurocêntrico” (B. de Souza Santos, 2011) sobre a questão agrária? Quais seus componentes, quais suas relações, interesses, metas e modos de operação? Quais e como são os discursos e representações que delas foram feitos na literatura eurocentrista? Com que interesses, para que fins foram construídas essas imagens da forma em que hoje as conhecemos e criticamos? Quais as possibilidades de resistência epistêmica que surgem desses discursos? Rastreamos tais questões nas obras literárias dos próprios criadores da ideia de América Latina e Caribe; polígrafos dos séculos XIX e seus opostos do século XX que afirmam, criticam, resistem ou desmontam a dicotomia entre cidades letradas e campo atrasado.
Acaso ressuscitou a antiga ameaça da desaparição do campo e a questão agrária em mãos das mudanças na estrutura do capital? Martins (2004), Van der Ploeg (2008) e Sevilla (2013) demonstram que se trata de mais uma expressão negativa da imagem que sobre a condição camponesa e a questão agrária foi construída e fortalecida mediante um conjunto de crenças, representações e discursos orientados a representar o campesinato e a questão agrária como ultrapassados, com personagens ancoradas na tradição e que rejeitam o “progresso”. Essa “diferencia colonial epistémica [que] hizo posible la descalificación de lenguas y tradiciones de pensamiento no greco-latinas” (Mignolo), nos impulsa a buscar na literaturas as imagens e sentidos que ainda hoje representam o campesinato.
Apresentaremos os achados parciais de um ambicioso programa de pesquisa engatinhando que pretende examinar, na produção literária de vários países latino- caribenhos, o campo cultural latino-americano e caribenho, conformado pelo conjunto dos diversos discursos e representações da questão agrária, o campesinato e os camponeses nas literaturas latino-americanas e caribenhas, entendendo esse campo enquanto raiz e fonte das ficções fundacionais, as imagens, imaginários e imaginações que sobre estes, as múltiplas sociedades nacionais latino-caribenhas desenvolveram em momentos diferentes da sua história. Tal campo cultural latino-americano e caribenho está sendo construído, primeiramente, a partir da revisão geral das literaturas nacionais, tendo como foco principal a questão agrária; problema central na construção dos Estados-nação latino-caribenhos, embora negado.
Aderimos aqui à definição ampla da questão agrária, que entende a questão agrária como uma área de conhecimento que pretende entender e explicar como a humanidade organizou o uso, a posse e a propriedade da terra em diversos momentos históricos e em lugares diferentes, e como foram desenvolvidos variados processos produtivos ancorados a essas terras, em sociedades e ecossistemas diferentes (Stédile 2014, Martins 2004). Precisamente por essa diversidade, além da sua persistência em existir e dar trabalho neste continente, consideramos que a questão agrária é elemento fundamental na conformação da identidade e das epistemologias do sul. Ora, essa questão agrária como eixo caracterizador duma identidade camponesa e mestiça, é a nossa primeira hipótese de navegação.
Como assinalado por Bernard e Gruzinski (1992, cit em Oliveira, 1998) a existência de “algumas lacunas significativas na investigação etnológica [...onde] os mestiços constituiriam o lado verdadeiramente esquecido da antropologia americanista, cujo maior defeito seria o de operar suas próprias pesquisas como se existisse uma “clivagem epistemológica entre índios de um lado e não autóctones de outro” (Ibid.: 67).
A outra hipótese a ser examinada sobre a questão agrária na América Latina e o Caribe: o entendimento dos seus principais atores, os camponeses, se encontra dificultado pelo desconhecimento das estruturas agrárias que antecederam à chegada dos europeus (Stavenhagen, 1972), Enquanto que lhe são aplicadas ferramentas analíticas e históricas herdadas da questão agrária do velho continente. E ao mesmo tempo, como o assinala R. Stavenhagen (1972), é falso que a integração nacional em América Latina seja produto da mestiçagem, pois esta, entendida como branqueamento, oculta uma série de dispositivos de diferenciação racial que mais que alterar fortalecem a estrutura socioeconômica vinda da colônia, favorecendo a exploração dos grupos mestiços.
Os trabalhos de Fanon (1952, 1961), Césaire (1950), Dussel (1992), Castro-Gómez (1996), Lander (2000, org.) e Rivera Cusicanqui (2010), entre outros, norteiam desde o sul essa pesquisa, criticando o olhar eurocêntrico e sua adoção por parte das elites e a academia dos países do terceiro mundo. Os conceitos de colonialidade e descolonialidade, (Mignolo e Escobar, 2010), orientam a crítica desses processos culturais desde a perspectiva latino-americana, situando a existência mesma da américa latina e o caribe dentro do contexto do sistema mundo, como já enunciado por Quijano e Wallerstein (1992) e Quijano 2014.
De maneira paralela, Ojos imperiales, literatura de viajes y transculturación (2010), de Mary-Louise Pratt, e Ficções de fundação, os romances nacionais da América Latina (2004) de Doris Sommer, subsidiam a análise dos processos discursivos mediante os quais são construídos o olhar imperial, isto é, as leituras e identidades das populações do continente americano e o arquipélago caribenho, e os dispositivos de dominação e identificação com as estruturas de poder na fundação das nações americanas; todo isso desde a perspectiva europeizante que ainda hoje contamina as sociedades latino-americanas e caribenhas.
Para o contexto do continente latino-americano, Sevilla e González (2013), propõem a existência de uma matriz do pensamento popular latino-americano, cujos elementos são “(1) a existência de etnicidades profundas negadas por um marco de legalidade no que se constrói um imaginário que nega, igualmente, o reconhecimento social da mestiçagem; (2) desde a homogeneidade de uma elite crioula, de origem europeia; (3) que controla as bases legais e morais das formas históricas de dominação política. No amplo mapa latino-americano persiste uma sincronia manifestada pelas realidades políticas e pela homogeneidade das classes privilegiadas. No entanto frente a isso, aparece uma (4) heterogeneidade sociocultural nas classes oprimidas, portadoras de (5) diferentes formas de conflitividade latente vinculadas à heterogeneidade sociocultural, articuladas não poucas vezes a um catolicismo popular (como sincretismo das crenças ancestrais das cosmovisões de suas etnicidades profundas) com um potencial liberador.” (Ibid., 2013:19 Esta matriz de pensamento latino-americana serve para desencadear processos de reconhecimento coletivo das identidades locais concretas, conectadas com modos específicos de manejo dos recursos naturais numa região determinada. Disso se trata a nossa pesquisa: de evidenciar os fantasmas, as raízes, os imaginários e representações que constituíram esses discursos e determinaram os avessos e reversos das epistemologias camponesas, e com eles, a diversidade de identidades que nutre a questão agrária. Para tanto, tentamos desenhar um panorama dos discursos e representações sociais que sobre a questão agrária se encontram na literatura latino-americana e caribenha do século vinte, como ponto de partida para um programa de pesquisa sobre o pensamento latino-americano e caribenho ao redor da questão agrária que esteja impregnado pelos conhecimentos e sentidos que as experiências de escravidão, servidão e resistência matizam um possível leque de epistemologias camponesas do sul.