Este resumo apresenta problemática política associada aos efeitos da presença da expressão “ideologia de gênero” em múltiplos cenários de negociação dos sentidos das relações de gênero, no Brasil. Sustentamos que a noção “ideologia de gênero” integra dispositivo policial voltado a hierarquização de distintas formações discursivas, constituindo axiologia própria, que dicotomiza e desiguala o valor dos enunciados, cindindo: de um lado, aqueles cunhados sobre axiomas religiosos e biologicistas; e de outro, aqueles pautados por teorias ligadas às relações de gênero. As teorias de gênero, nas ciências humanas, desenvolvem categoria de análise que permite compreender relações sociais e de poder. Como define Scott, a perspectiva de gênero propõe não ser apenas elementos biológicos dos sexos os determinantes das relações binárias consensuais e desiguais que se estabelecem entre homens e mulheres. Seriam, de modo mais amplo, relações de poder e modos de subjetivação que territorializariam identidades e naturalizariam sentidos ao sexo biológico. Em franca oposição a esta perspectiva, a expressão ideologia de gênero foi cunhada por religiosos católicos: na Conferência Episcopal Latinoamericana, realizada no Peru, em 1998, a definição do que seria a ideologia de gênero e de seus efeitos perniciosos à sociedade foi tema central. Do encontro resulta perspectiva que associa gênero a “[...] “ideologia” de raiz marxista e ateia [...]”. Sob esta ótica, “o sistema ideológico de gênero” imporia a homens e mulheres comportamentos em desacordo com “a natureza”. Negaria “o instinto natural” das meninas à maternidade, e aos homens, sua “necessidade de trabalhar fora de casa a fim de melhor sustentar a família”. Esta definição é primeira referência oficial da igreja e se consolida no documento Veritatis, de 2008. O documento afirma esconder-se, por trás da palavra gênero, uma ideologia que pretende ferir a estrutura bipolar natural das relações homem/mulher. A expressão é equiparada a categoria de análise “relações de gênero”, desenvolvida pelas ciências humanas; Ao contrário do que sustentam os conservadores, o estudo das relações de gênero contribui à produção de um plano ético, próprio a constituição das famílias, tornando as relações mais humanas, menos violentas e desiguais. A categoria gênero oferece condições para que tanto homens quando mulheres compreendam a constituição de seus corpos, seu mundo, suas identidades, a diversidade e as possibilidades de afirmar-se sujeito de maneiras múltiplas e não binárias. No plano político, em diálogo com Rancière, sustentamos que o campo social se engendra perpassado por modos de partilha do sensível: arranjo estético e simbólico intrínseco a realidade que compartilhamos e determinante a configuração de um sensorium comum. A partilha incide sobre a configuração da experiência de cada sujeito, fazendo-a idiossincrática aos contornos da própria realidade, formando um plano de experiência pulsante, sentido e pensado como comum por uma “comunidade estética”. O tensionamento e a variação, ou a manutenção deste plano, caracteriza o jogo que perpassa o político. A manutenção de consensos é paralisante de transformações políticas. O consenso reitera diferenças de natureza e diferenças de valor entre humanos, que restringem a apenas alguns a possibilidade de determinar os sentidos e expressões deste plano comum, relegando outros a condição de ruído. A este movimento, de estabilização de um modo de partilha do sensível que nos desiguala, Rancière dá o nome de “polícia”. Já suas possíveis reconfigurações seriam possíveis graças a “política”. Esta, por sua vez, é catalizadora da desmontagem da lógica policial, em prol da emancipação, atravessada à demonstração da igualdade sempre rompida pelo hierarquia consensual. O caráter moralizador e transcendente da “ideologia de gênero”, como definida no consenso teológico constitui, portanto, dispositivo policial que integra o sistema consensual e impossibilita a existência de um cenário político democrático apropriado a emergência de litígios e dissensos (fundamentais à gênese de processos de subjetivação política). O embate entre estas duas categorias é, por isso, urgente questão política. A apropriação da categoria gênero, por parte de grupos religiosos que imprimem sobre ela o significado de ideologia de gênero, vem limitando as possibilidades de um debate político. Discutimos assim a existência, ou não, da democracia. A instauração de litígios democráticos neste cenário exige que se problematizem os fundamentos que determinam a possibilidade do diálogo, em relação ao estado laico, e não apenas as definições duras dos conceitos e sua validade no campo já constituído.