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Resumen de ponencia
Ideologia de gênero: A invenção de um dispositivo policial paralizador do debate político-democrático.

*Murilo Cavagnoli
*Myrian Aldana Vargas Santin



Este resumo apresenta problemática política associada aos efeitos da presença da expressão “ideologia de gênero” em múltiplos cenários de negociação dos sentidos das relações de gênero, no Brasil. Sustentamos que a noção “ideologia de gênero” integra dispositivo policial voltado a hierarquização de distintas formações discursivas, constituindo axiologia própria, que dicotomiza e desiguala o valor dos enunciados, cindindo: de um lado, aqueles cunhados sobre axiomas religiosos e biologicistas; e de outro, aqueles pautados por teorias ligadas às relações de gênero. As teorias de gênero, nas ciências humanas, desenvolvem categoria de análise que permite compreender relações sociais e de poder. Como define Scott, a perspectiva de gênero propõe não ser apenas elementos biológicos dos sexos os determinantes das relações binárias consensuais e desiguais que se estabelecem entre homens e mulheres. Seriam, de modo mais amplo, relações de poder e modos de subjetivação que territorializariam identidades e naturalizariam sentidos ao sexo biológico. Em franca oposição a esta perspectiva, a expressão ideologia de gênero foi cunhada por religiosos católicos: na Conferência Episcopal Latinoamericana, realizada no Peru, em 1998, a definição do que seria a ideologia de gênero e de seus efeitos perniciosos à sociedade foi tema central. Do encontro resulta perspectiva que associa gênero a “[...] “ideologia” de raiz marxista e ateia [...]”. Sob esta ótica, “o sistema ideológico de gênero” imporia a homens e mulheres comportamentos em desacordo com “a natureza”. Negaria “o instinto natural” das meninas à maternidade, e aos homens, sua “necessidade de trabalhar fora de casa a fim de melhor sustentar a família”. Esta definição é primeira referência oficial da igreja e se consolida no documento Veritatis, de 2008. O documento afirma esconder-se, por trás da palavra gênero, uma ideologia que pretende ferir a estrutura bipolar natural das relações homem/mulher. A expressão é equiparada a categoria de análise “relações de gênero”, desenvolvida pelas ciências humanas; Ao contrário do que sustentam os conservadores, o estudo das relações de gênero contribui à produção de um plano ético, próprio a constituição das famílias, tornando as relações mais humanas, menos violentas e desiguais. A categoria gênero oferece condições para que tanto homens quando mulheres compreendam a constituição de seus corpos, seu mundo, suas identidades, a diversidade e as possibilidades de afirmar-se sujeito de maneiras múltiplas e não binárias. No plano político, em diálogo com Rancière, sustentamos que o campo social se engendra perpassado por modos de partilha do sensível: arranjo estético e simbólico intrínseco a realidade que compartilhamos e determinante a configuração de um sensorium comum. A partilha incide sobre a configuração da experiência de cada sujeito, fazendo-a idiossincrática aos contornos da própria realidade, formando um plano de experiência pulsante, sentido e pensado como comum por uma “comunidade estética”. O tensionamento e a variação, ou a manutenção deste plano, caracteriza o jogo que perpassa o político. A manutenção de consensos é paralisante de transformações políticas. O consenso reitera diferenças de natureza e diferenças de valor entre humanos, que restringem a apenas alguns a possibilidade de determinar os sentidos e expressões deste plano comum, relegando outros a condição de ruído. A este movimento, de estabilização de um modo de partilha do sensível que nos desiguala, Rancière dá o nome de “polícia”. Já suas possíveis reconfigurações seriam possíveis graças a “política”. Esta, por sua vez, é catalizadora da desmontagem da lógica policial, em prol da emancipação, atravessada à demonstração da igualdade sempre rompida pelo hierarquia consensual. O caráter moralizador e transcendente da “ideologia de gênero”, como definida no consenso teológico constitui, portanto, dispositivo policial que integra o sistema consensual e impossibilita a existência de um cenário político democrático apropriado a emergência de litígios e dissensos (fundamentais à gênese de processos de subjetivação política). O embate entre estas duas categorias é, por isso, urgente questão política. A apropriação da categoria gênero, por parte de grupos religiosos que imprimem sobre ela o significado de ideologia de gênero, vem limitando as possibilidades de um debate político. Discutimos assim a existência, ou não, da democracia. A instauração de litígios democráticos neste cenário exige que se problematizem os fundamentos que determinam a possibilidade do diálogo, em relação ao estado laico, e não apenas as definições duras dos conceitos e sua validade no campo já constituído.




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* Cavagnoli
Universidade Comunitária da Região de Chapecó - Unochapecó. Chapecó - Santa Catarina, Brasil

* Aldana Vargas Santin
Universidade Comunitária da Região de Chapecó - Unochapecó. Chapecó - Santa Catarina, Brasil