Neste artigo reunimos obras de diferentes artistas contemporâneos latino americanos que, a partir dos anos 90, possuem como temática os “desaparecidos” na América Latina, verificando a importância do fotográfico e do fílmico na construção de suas poéticas visuais, principalmente no que estas propõem relações entre estética e política. Ao conferir vida, pelo uso destes dispositivos, a imagens destinadas ao desaparecimento, como fotos de jornais, álbuns fotográficos, fotos e vídeos forenses, entre outras, percebe-se que estes acentuam a intermitência entre memória e esquecimento em suas produções artísticas como um ato de sobrevivência das imagens.
Ao refletir sobre as consequências da globalização na contemporaneidade, Andreas HUYSSEN (2014) observa que o discurso da memória que se estabeleceu nos estudos políticos e culturais nos anos 1980, os quais privilegiam as relações entre história e memória onde o Holocausto e o Terceiro Reich aparecem como referências, migra, nos anos 90, para outros contextos políticos, como o dos desaparecidos na América Latina, transformando-se em debates públicos transnacionais.
Para o autor, discussões como a dos desaparecidos na Argentina ou a das Comissões da Verdade que multiplicaram-se mundo afora influenciaram a política, assim como a literatura e as artes visuais de modo geral. Apesar de algumas radicalizações que surgem ao se evocar lembranças traumáticas, essas considerações nos permitem aqui refletir sobre o enfoque de alguns artistas latino americanos que, ao utilizarem como pensamento a fotografia, colocam em cena, por meio de suas propriedades de fazer aparecer e também apagar, uma aproximação entre poética e política.
O colombiano Oscar Munõz , a brasileira Rosangela Rennó e a mexicana Teresa Margolles reconciliam através do fotográfico o que há de trágico no ato de lembrar e de esquecer, ressaltando sua intermitência. As séries fotográficas do chileno Christian Kirby propõem repensar os modos de criar imagens do desaparecimento por meio de figuras como marcas, colocando em relação fotos de rostos de desaparecidos com os espaços urbanos em que foram seqüestrados. Marcelo Brodsky, argentino que pertence a memory art, “uma arte que faz memória” evidencia através da ausência a melancolia que há na própria passagem do tempo.
Ao comentar a importância da fotografia em seu trabalho, Oscar Munõz, artista colombiano de Cali, ressalta que inicialmente era o elemento fotográfico que oferecia uma suposta carga de documentalidade e de verdade ao desenho, convertendo-se posteriormente em um instrumento de reflexão. Em sua série Cortinas de Banho (1985), a relação entre imagem e ilusão coloca o espectador em dúvida sobre o que está por trás da imagem, através da sua própria dissolução. O ato da imagem se dissolver se encontra presente também em seus desenhos em carvão, o qual possui como propriedade a pulverização.
O encontro entre o carvão e o processo fotográfico está presente em diversas séries realizadas pelo artista, como em Tiznados (1991), na qual ele utiliza cópias de fotos antigas de cadáveres impressas em jornais de Cali durante a década de 1980, onde as imagens das pessoas aparecem difusas, pela maneira com que eram reveladas através do uso da “frottagem” pelo próprio, ele as preenche com carvão. Como metáfora da própria vida, da criação e da morte, as imagens que ali se formam através do pó escapam ao controle do artista e do retrato como expressão de captação e fixação de um momento adquire ressonância na fotografia, por seu caráter indexal (o momento em que se faz contato com a realidade). Assim, por meio do fotográfico, o artista torna presente pessoas ausentes, intervindo no processo de lembrança e construção da memória na Colômbia. Diferentemente de eventos traumáticos como o Holocausto ou o 11 de setembro, que demarcam acontecimentos, a guerra ininterrupta da Colômbia, com sua tenebrosa máquina de fazer desaparecer, se repete cotidianamente.
Rosângela Rennó desenvolve, desde 1992, um projeto chamado Arquivo Universal no qual, recorrendo ao uso do fotográfico, ela organiza diferentes séries. Em Apagamentos (fig.V) a artista se apropria de fotografias feitas pela polícia legista australiana e, com intervenções como cortes, ampliações e sequências, propõe novas leituras das imagens reunidas em um fotolivro. Rennó assegura que realiza um documento de amnésia com o uso de fotos que por pouco não foram apagadas. Feitas por fotógrafos policiais para preservar a cena do crime, visando compor o processo de acusação, elas possuem uma temporalidade definida, destinadas ao anonimato e ao esquecimento. Para SCHOLLHAMMER (2013), o valor desse arquivo, além de compor uma arqueologia disciplinária, adquire uma existência entre a memória forense e o processo amnésico da sociedade.