O estatuto das imagens na contemporaneidade, especialmente quando relacionado à crescente cultura audiovisual, é tema que interpela os estudos da cultura e da comunicação a partir de diferentes filiações teóricas e objetos empíricos, levando-nos a reflexões que articulam a questão do imaginário, as tensões entre identidade e alteridade, e os modos de construção da representação de minorias sociais nos mais diversos meios. Os conceitos de identidade e identificação em sua relação com as noções de visibilidade e reconhecimento ensejam, assim, caminhos nos quais problematizar criticamente a produção e a circulação audiovisual em nossa sociedade. Por se colocar em perspectiva crítica, tal processo se faz no entremeio entre a estética e a ética, desafiando discursos cristalizados e apontando suas aberturas. Esse movimento nos leva a questionar, a partir de produções audiovisuais brasileiras, se tais imagens operam apenas como reforço de discursos estabilizados (ou circulantes) ou se, por outro lado, permitem o surgimento de discursos de ruptura (ou de resistência), rearticulando as possibilidades de partilha do sensível e ampliando os regimes de visibilidade por elas ensejadas. Considerando as produções audiovisuais presentes nos meios enquanto formas culturais articuladas por meio de discursos e dotadas de uma dinâmica sobretudo narrativa (especialmente em ambientes digitais online, tais como redes sociais, sites e blogs), buscaremos apontar a problematização de estigmas sociais em relação às culturas juvenis por meio da observação de produções de coletivos de comunicação voltados para a periferia ou nelas situados, especialmente aqueles formados por jovens mulheres e atuantes na cidade de São Paulo (Brasil). Desse modo, investigaremos, ao mesmo tempo, suas políticas de representação e estratégias de reconhecimento, além de seus possíveis sentidos em relação ao deslocamento dos estigmas sociais nelas articulados, apontando para as relações por vezes conflituosas entre os diversos atores sociais, especialmente aquelas relacionadas às juventudes. A análise será feita por meio de três eixos: 1) o jornalismo enquanto prática social considerando os sujeitos envolvidos nesse processo comunicacional como integrantes de uma cultura audiovisual e sua relação com a crítica dos meios; 2) os deslocamentos juvenis e a ocupação do espaço urbano realizada por grupos periféricos em sua relação com a cidade de São Paulo (Brasil) e as diferentes maneiras de representá-la; 3) a análise das mediações audiovisuais empreendidas por esses grupos periféricos, contribuindo para o entendimento do fazer jornalístico e sua problematização enquanto produtor e reprodutor de discursos hegemônicos ou contra hegemônicos. Incluem-se, nesse investigação, as concepções de jovens em seus modos de ser e viver, considerando as narrativas de si e dos outros, a experiência da visualidade e da sonoridade, os modos de agrupamento, a percepção da violência, as práticas de consumo, as diferentes expressões estéticas e culturais, as alternativas de produção e apropriação das culturas digitais, sempre com ênfase para as articulações entre cultura e o caráter político das ações culturais, cada vez mais permeadas pelas tecnologias de comunicação e informação. É nessa vertente que inserimos a presente proposta, relacionada a investigações anteriores em torno dos discursos dos meios e dos estigmas sociais neles presentes, para propor uma nova abordagem, consolidando e adensando os referenciais teóricos, expandindo os procedimentos metodológicos e estendendo a pesquisa a diferentes materiais empíricos. Nosso objetivo principal será apontar as visualidades e visibilidades em relação às juventudes contemporâneas e, além disso, investigar os modos como os jovens, enquanto receptores, se apropriam dessas representações, ressignificando as imagens produzidas; e também os modos como eles se tornam produtores de novas imagens (especialmente por meio dos meios digitais), interferindo no imaginário social a eles relacionado.