Elemento importante da política nacional de combate ao HIVaids, as estratégias de prevenção no Brasil têm caminhado rumo a uma maior participação das pessoas na eleição de métodos preventivos que atendam suas realidades e escolhas. O Brasil, há tempos exemplo de sucesso nas ações de prevenção ao HIV/aids desde 2017, oferece em alguns serviços públicos de saúde a profilaxia de pré-exposição ao HIV/aids – PreP –, uma combinação de dois medicamentos antirretrovirais que se tomada corretamente, reduz expressivamente a possibilidade de infecção pelo HIV. A PReP somada a outras profilaxias com base medicamentosa marcam uma nova era na prevenção do HIV/aids . Todavia, embora haja uma maior participação das pessoas e o inegável êxito das ações de prevenção, o número de novos casos de HIV permanece crescente, especialmente entre determinadas populações. Atualmente, os homens mais jovens que não conheceram a aids como uma doença fatal, engrossam os novos diagnósticos. Tendo em mente que as políticas públicas de saúde de combate ao HIV/aids têm atuado de maneira a agregar todas as pessoas, podemos nos perguntar o motivo do alto índice de diagnósticos, sobretudo entre as populações chave, ou seja, gays e outros homens que tem sexo com outros homens, pessoas trans, pessoas que usam álcool e outras drogas, pessoas privadas de liberdade e trabalhadoras (es) do sexo. Sendo uma pergunta que envolve respostas complexas, proponho uma reflexão com vistas a problematizar o tema das políticas de saúde pública no combate ao HIV/aids. Para ilustrar a discussão, apresento dados da minha pesquisa de mestrado desenvolvida na Universidade Federal de São Paulo . A investigação foi realizada entre 2015 e 2017 e teve por objetivo identificar o quê e como se fala da exposição ao HIV/aids entre homens que fazem sexo com outros homens que, no contexto investigado, por diferentes motivos têm sexo anal sem preservativo . Destaco então, três pontos observados na investigação objetivando melhor conduzir a discussão: a) ao menos no contexto investigado o uso do preservativo ou não, sucede em concordância com aspectos pessoais, eróticos e arranjos sociais tais como a masculinidade, b) o erotismo constitui fator importante no maior ou menor engajamento em práticas sexuais sem preservativo e c) as pessoas (ao menos no contexto investigado) não são negligentes em relação aos riscos envolvidos no sexo sem preservativo . Como se vê, os diferentes motivos envolvidos no sexo sem preservativo denunciam que as políticas de saúde apresentam importantes lacunas. A partir dos pontos acima citados, temos três dimensões que perpassam as ações de prevenção e que requerem maior atenção. Partindo do erotismo, embora as campanhas de combate ao HIV/aids na atualidade se mostrem mais abertas para falarem da sexualidade, não significa estarem abertas a falarem do erotismo. Sem grandes mergulhos teóricos, entendo aqui o erotismo como a forma que as pessoas obtêm prazer sexual. Há tempos – salvo exceções - as campanhas de prevenção ao HIV/aids são assépticas e cheias de pudor para falar do erótico e do prazer. As campanhas no geral retratam um sexo “padrão” com pouca ou nenhuma variação no jogo sexual, nos papéis ocupados, sem contar a recusa em abordar mesmo que discretamente os diferentes jogos sexuais. Como já demonstrado em inúmeras pesquisas, o erotismo constitui aspecto importante na hora de se prevenir. O mesmo pode se dizer do aspecto social da prevenção, ou seja, o lugar que a prevenção ocupa na vida de homens e mulheres. Aqui novamente, os dados mostram que os homens veem a prevenção diferente das mulheres o que justifica campanhas focadas nos homens e nas mulheres, e também com foco individual. Principalmente acerca dos homens, algumas ações têm focado nas relações sexuais entre homens que tem sexo com outros homens, entretanto, este universo envolve tramas que no mínimo podem dificultar as ações. Dai a necessidade de pensar em estratégias que garantam que todos os homens possam ter acesso às informações e serviços. Nesse sentido, os aspectos sociais conferidos a experiência homossexual em nosso país, deve constituir ponto primordial na formulação das ações, sobretudo porque até mesmo a mera curiosidade de se manter uma relação homossexual é muitas vezes motivo para que as pessoas sofram violências. Lembro que a violência dispensada às pessoas homossexuais abrange diferentes configurações sociais, inclusive institucionais o que justifica o afastamento de homens, mulheres, pessoas trans, travestis e qualquer pessoa dos serviços de saúde. Não podemos esquecer que a violência por vezes se expressa também por intermédio da exclusão, do gênero, da classe e da raça, categorias que somadas aos demais pontos discutidos deve fundamentar as ações das políticas públicas de saúde. Por fim, o discurso que desloca a aids de uma doença fatal para uma condição crônica deve ser pensado nas ações de prevenção. Obviamente que tal deslocamento não é negativo, pois de fato as pessoas vivem com HIV/aids e isso não significa que vivam sem qualidade de vida, sem trabalhar, estudar, se relacionar, etc. Entretanto viver com HIV/aids e com qualidade de vida deve servir como recurso para que se combata o preconceito e não para que as pessoas acreditem tratar-se de uma condição sem problemas. Não se pode perder de foco de que estamos diante de uma condição de saúde complexa. Nesse sentido, é preciso investigar como as pessoas enxergam a aids em um momento onde temos uma gama de tecnologias que não somente garantem qualidade de vida às pessoas, mas que também podem auxiliar na prevenção de novos casos de HIV. Atualmente, a prevenção estrutura suas ações com base em insumos biomédicos capazes de evitar que a aids seja consequência do sexo desprotegido. Todavia, conquanto tais tecnologias estejam disponíveis nos serviços de saúde no Brasil, ainda assim, o desafio é fazer com que todas as pessoas tenham acesso. Assim, é preciso atuar de maneira que todas as pessoas saibam da disponibilidade de tais insumos, suas características, métodos, disponibilidade, efeitos etc. Para isso de fato, não há outra saída a não ser uma pedagogia que se utilize de uma linguagem clara e eu diria porque não: obscena. É preciso romper com a salubridade imagética e léxica quando o assunto é sexo. Na persistência de dificuldades frente tal tarefa, vale recorrer a intervenções lúdicas a exemplo do teatro que como já demonstrado, pode ser utilizado para fundamentar as ações de prevenção, bem como às modernas tecnologias de interação e informação. Especialmente em se tratando do tema sexo, sabe-se que a internet cumpre papel importante na busca de parceiros sexuais, mas também como meio onde as informações têm quase “livre” difusão. A internet e mais recentemente os aplicativos de smartphones, constituem oásis sexuais e mesmo “prisões”, contudo, ainda assim configuram meios importantes para se falar da prevenção não somente do HIV/aids. Temos na internet um acesso amplo a muitas pessoas, principalmente ao público jovem, parcela da população que exige uma linguagem diferente para ser acessado, o que obriga a tarefa preventiva a adequar sua fala. Considerando todos os pontos levantados torna-se urgente que as políticas públicas de saúde considerem em suas ações preventivas, uma linguagem onde o sexo e o prazer não sejam vistos como categorias puramente epidemiológicas, reconhecendo que, o que se faz entre quatros paredes pode auxiliar no árduo trabalho da prevenção ao HIV/aids. Nesse sentido é preciso romper com a economia moral dispensada as ações de prevenção, com vistas a reduzir a margem de pessoas em zonas de risco, principalmente os mais jovens, mas não somente, já que o exercício da sexualidade é direito de todos, assim como o direito as políticas públicas de saúde que não devem desconsiderar as singularidades humanas, sob o risco de promover um grave processo de exclusão social.