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Resumen de ponencia
"Eu, latino-americano": a formação de professores para grupos minoritarizados e a busca da identidade latino-americana

*Thayane Silva Campos



A América Latina está composta por 20 países, que possuem como uma das características em comum a língua, tendo em vista que suas línguas oficiais são latinas, também conhecidas como línguas românicas e/ou neolatinas, provindas do tronco linguístico do latim. De acordo com Irineu (2014), “o termo América Latina se define mais do ponto de vista cultural que do ponto de vista estritamente geográfico” (p. 22). Apesar de fazer parte da América Latina, o Brasil tem um histórico de silenciamento com relação ao "ser latino-americano". Irineu (2014) cita como um dos lugares desse silenciamento, os cursos de Letras que se dedicam a formar futuros professores, tendo em vista que, em grande parte, acabam por valorizar mais a cultura europeia e norte-americana.
Um outro silenciamento que percebemos na formação de professores é a falta de práticas de ensino para grupos minoritarizados (CAVALCANTI, 1999), que, comumente são marginalizados em nossa sociedade, mas que possuem direitos, como qualquer outra pessoa, de ter acesso a educação de forma gratuita e atendendo as particularidades necessárias, conforme a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) (BRASIL, 1996).
Podemos apontar como um desses grupos, pessoas que cometeram algum tipo de crime e foram condenadas, estando presas no sistema carcerário brasileiro. De acordo com Barreto (2006), "as roupas uniformizadas, assim como os cortes de cabelo e as medidas de tratamento padronizadas para diferentes tipos de sujeito, são reflexos da perda da individualidade. Os indivíduos, sempre possuidores de personalidade e comportamento próprios, são igualados somente por terem cometido algum tipo de crime" (p. 589).
No entanto, desde 1974 foi criado no Brasil o Método APAC, por Mário Ottoboni. Tal Método possui 12 elementos que contribuem de maneira indissociável na recuperação do recluso, auxiliando tanto ele quanto sua família e possibilitando uma nova chance de reinserção social ao condenado. "Trata-se de metodologia de cogestão prisional, em que o Estado e particulares gerem, conjuntamente, um modelo de Unidade Prisional que enfatiza a ressocialização em detrimento a segurança, conta com a mobilização da sociedade civil e custos minimizados" (FALCÃO; CRUZ, 2015, p. 4).
Atualmente o Brasil possui 49 APACs em funcionamento e 71 em processo de implantação, estando grande parte localizada no estado de Minas Gerais. Apesar disso, são poucos os que têm conhecimento do trabalho que ali é realizado, sendo o espaço alvo de comentários preconceituosos e pela falta de mais ações por parte da comunidade. Além disso, os cursos de licenciatura ignoram o fato de ali existir escolas de educação de jovens e adultos, excelente campo de estágio para os futuros professores, que terão que lidar com um contexto diferente da escola regular e com um público diferente dos que costumam estar nas práticas de estágio.
Considerando essas duas principais problemáticas que surge o projeto "Eu, latino-americano", que tem como objetivo permitir a formação docente de alunos do curso de Letras em Língua Espanhola, tendo como prática as aulas interdisciplinares ministradas na APAC, para alunos que foram condenados por ter infligido de alguma forma a lei, ou seja, estão privados de liberdade. Desse modo, este trabalho pretende apresentar o Método APAC (OTTOBONI, 2006) e mostrar os resultados alcançados a partir do relato das experiências e atividades que foram realizadas ao longo de 2017/2018. O objetivo foi permitir que os futuros professores tivessem a oportunidade de repensar o "ser professor" em um espaço marginalizado por parte da sociedade e pudessem adquirir uma identidade latino-americana, assim também como os reclusos, ao ministrar/ter aulas das diversas disciplinas que compõem o currículo escolar, em língua espanhola e com temáticas voltadas para a América Latina.

Referências bibliográficas:
BARRETO, M. L. S. Depois das Grades: Um Reflexo da Cultura Prisional em Indivíduos Libertos. Psicologia, Ciência e Profissão, 2006, 26 (4), p. 582-593.
BRASIL (1996). Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Lei No 9.394, de 20 de dezembro de 1996. (2005).
CAVALCANTI, M. C. Estudos sobre educação bilíngue e escolarização em contextos de minorias lingüísticas no Brasil. São Paulo: PUC-SP. Revista D.E.L.T.A., Vol. 15, nº especial, 1999, pp. 385-417.
FALCÃO, A. L. S.; CRUZ, M. V. G. O Método APAC - Associação de Proteção e Assistência aos Condenados: análise sob a perspectiva de alternativa penal. Brasília, VIII Congresso de Gestão Pública, 2015, pp. 1-26.
IRINEU, L.M. Memórias sobre a América Latina na formação de professores de espanhol. IN: A (In)Visibilidade da América Latina na Formação do Professor de Espanhol. Campinas, SP: Pontes Editores, 2014, p.21-39.
OTTOBONI, M. Vamos matar o criminoso? Método APAC. São Paulo: Paulinas, 2006.




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* Silva Campos
Faculdade de Educação. Universidade Federal de Minas Gerais - FaE/UFMG. Belo Horizonte- MG, Brasil