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Resumen de ponencia
Os paradoxos e desafios na relação entre escolas e famílias

*Nathacha Monteiro Ferreira



Na contemporaneidade a relação entre escola e família vem ganhando especial destaque nos debates acerca do desenvolvimento integral do indivíduo, em especial, no âmbito das políticas de educação (em tempo) integral.
A análise das mudanças ocorridas na sociedade nos últimos anos, com a incorporação de novos discursos e olhares frente a diferentes questões como a diversidade e tecnologia, requer que os papeis da escola e da família sejam também repensados. As instituições escolares necessitam conhecer a realidade das famílias com as quais atua e desenhar estratégias reais de aproximação, reconhecendo ações possíveis de participação das famílias e respeitando suas condições e bagagem histórica.
Em contrapartida, as famílias também precisam se comprometer com as questões da escola e pelos caminhos os quais ela irá trilhar. Os princípios da gestão democrática indicam a necessidade de diálogo constante para a elaboração de ações pelo coletivo.
As relações estabelecidas entre famílias e escolas dialogam diretamente com a concepção da Educação Integral, que compreende uma formação plena do ser humano, considerando todas as suas dimensões e o reconhecendo como um ser de direitos. Neste sentido, o engajamento das famílias e comunidade enquanto protagonistas no processo educativo de crianças e adolescentes é de fundamental importância para a ratificação das premissas da Educação Integral: novos tempos, espaços e atores.
A reflexão acerca da importância da participação das famílias e comunidade no contexto escolar, na atualidade, se tornou um consenso comum na literatura educacional, na mídia, nos discursos dos profissionais escolares e das próprias famílias, evidenciado ainda em pesquisas internacionais e regulamentado em leis, que deliberam sobre a necessidade da educação ser uma responsabilidade compartilhada entre Estado e sociedade.
O reconhecimento sobre a importância desse engajamento se desdobra em novos desafios, pois em um discurso consensual, a sociedade corre o risco de culpabilizar apenas uma parcela dos atores envolvidos, atribuindo a falta de interesse da família como o ponto determinante nas relações estabelecidas.
Pesquisas apontam que muitas famílias não acreditam no valor do seu envolvimento, por entenderem que têm pouca influência sobre a aprendizagem das crianças e adolescentes, por terem baixa escolaridade e/ou porque não sabem como participar. A mesma reflexão se aplica à comunidade, que por muitas vezes não consegue se entender enquanto parte do contexto educativo.

[...] é importante destacar que os pais, ao exprimir seus desejos quanto ao futuro profissional dos filhos, tendem, frequentemente, a desconsiderar-se profissionalmente, a “confessar” a indignidade de suas tarefas; almejam para sua progênie um trabalho menos cansativo, menos sujo, menos mal remunerado, mais valorizador que o deles.
Lahire, 1995, p 334

Tratar sobre a aproximação entre escola, família e comunidade requer uma reflexão mais profunda, que identifique os reais desafios para uma relação sinérgica entre os envolvidos. É fundamental ressaltar que o desafio no estabelecimento desta relação não se resume apenas às famílias e, dessa forma, atribuir a todos os envolvidos sua parcela de participação e responsabilidade.
A identificação deste discurso consensual sobre a temática implica na superação do mito da “omissão parental”, que segundo Lahire (1995, p. 335):

Os discursos sobre a “omissão” dos pais são emitidos pelos professores principalmente quando os pais estão ausentes do espaço escolar. Eles não são “vistos”, e essa invisibilidade é imediatamente interpretada – principalmente quando a criança esta com dificuldade escolar – como uma indiferença com relação a assuntos de escola em geral e da escolaridade da criança em particular. Alguns professores até parecem pensar que a ausência de relações, a ausência de contatos com algumas famílias (populares, é claro), explicaria o “fracasso escolar” das crianças. Por isso é preciso fazer os pais irem, de qualquer jeito, à escola: nas diversas reuniões, festas escolares...

O cenário de culpabilização das famílias se desdobra na manutenção de relações distantes e pouco harmoniosas. Pensar em estratégias para a solução desta questão envolve, primeiramente, a compreensão sobre o que é participação, pois o fato de os responsáveis não estarem presentes fisicamente na escola, não significa necessariamente desinteresse e ou falta de engajamento. Neste contexto faz-se necessário refletir acerca de algumas questões: se os pais estão presentes fisicamente na escola, em que medida isso significa participação? Que papel essas famílias tiveram no evento? Foram ativos ou apenas receptores de recados? A escola esta aberta a receber críticas e sugestões? A escola reconhece outras formas de participação sem necessariamente ser a presença da família em seu espaço físico?
Por muitos momentos, a relação das escolas com as famílias e comunidade é impregnada por uma visão idealizada e romantizada, onde famílias e comunidade possuem apenas uma participação representativa. Porém essa participação pode ocorrer de diversas maneiras, inclusive no apontamento de questões desafiadoras da unidade escolar. Neste sentido, é imprescindível que a escola reconheça com legitimidade as práticas que questionem suas ações e consiga desenhar estratégias para uma ação compartilhada, de maneira democrática.
A construção dessa relação de parceria pressupõe a criação de canais eficazes de comunicação, que permitam o compartilhamento de demandas e necessidades atreladas às possiblidades de atuação do outro, de maneira colaborativa, e, principalmente, o reconhecimento de que todos os alunos e todas as famílias possuem potencialidades. Essa construção pressupõe ainda, o estabelecimento de combinados e responsabilidades compartilhadas.
Outro importante desafio a ser enfrentado neste cenário é a valorização dos docentes, principalmente no que se refere à sua formação e seu reconhecimento enquanto facilitador na criação dessas redes com famílias e comunidade. Por muitas vezes, o engajamento das famílias, mesmo que tanto desejado no senso comum, esta suscetível a desconfortos quando acontece, pois a participação pode gerar reações de defesa. A “omissão parental”, segundo Lahire (1997), por muitas vezes esta atrelada à um sentimento de respeito e confiança à equipe escolar. Logo, pensar na formação destes profissionais, que lidam mais diretamente com as famílias, significa incluir processos de reflexão e compreensão sobre engajamento familiar, na perspectiva de compreensão sobre a importância da bagagem histórica de cada familiar em sua relação com a escola e sobre como reconhecer, valorizar e fomentar a participação da família no processo educacional de seus filhos.

Os pais podem ser vistos como que se intrometendo um pouco demais num domínio pedagógico considerado reservado e, assim, despertar reações de defesa. Um professor confessa assim que o respeito – que leva alguns pais de meios populares a uma delegação total de autoridade pedagógica – e é muito confortante para os professores.
Lahire, 1995, p 337

Repensar essa relação entre escolas e famílias requer um processo contínuo e cíclico de olhar para prática, construir referências formativas, fomentar reflexão da prática e vivência, contando com diferentes olhares e atores. A concepção de gestão democrática propõe uma grande mudança nas relações que a escola estabelece com a comunidade e com as famílias, onde estas se sentem reconhecidas e parte do projeto educativo, sendo ativas no processo de gestão e nas decisões da escola.




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* Monteiro Ferreira
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro PUC RIO. Rio de Janeiro, Brasil