Nas últimas décadas, a vida urbana na cidade do Rio de Janeiro transformou-se intensamente visto à sua inclusão no ranking de grandes eventos internacionais, o que acabou por fortalecer a agenda da segurança pública no que vem a ser o problema da violência urbana. O crescimento da violência urbana, neste contexto, passa a ser a gramática que articula um conjunto de práticas sociais e estrutura um novo padrão de sociabilidade (MACHADO DA SILVA, 2004; 2010). Com quase uma década de atuação, o modelo de pacificação implementado nas favelas da cidade, que tem como eixo central as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), passa a sofrer desmantelamentos, abrindo espaço para novos problemas de segurança, orientados, por exemplo, por insatisfações na interrupção dos negócios. Este trabalho tem como foco observar, a partir da atualização das disputas e conflitos na forma de se fazer políticas na cidade, as novas ações direcionadas a uma determinada concepção de segurança promovidas pelas camadas médias de um bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro, ao acompanhar os Conselhos Comunitários de Segurança de Copacabana/Leme e a participação destes moradores no incentivo a projetos privados ou em parcerias com as redes de mercado, como os projetos Segurança Presente e Rio Seguro e Vigilante, em atuação desde 2015 e 2017, respectivamente, que trazem um outro caráter à militarização (e a securitização) da cidade.
A pesquisa, portanto, pretende relacionar de diversas maneiras os diferentes conceitos e representações, para dar conta da complexidade de tais relações, como o controle e a coerção sociais, que, neste caso, são realizados tanto pelo estado, através do exército, como pelos governos estaduais e municipais – implementadores da política de segurança pública em questão –, pelas suas polícias e órgãos penais e punitivos; as estratégias, técnicas e dispositivos das redes de mercado, que, a partir da nova racionalidade governamental, propõem políticas integradas e noções de “integração” por uma via aquém da cidadania, juntamente com seus resultados na mudança (ou não) da sociabilidade na cidade; e as representações de determinada camada social residente em áreas do entorno de duas favelas com UPP, pacificadas em 2009, Chapéu Mangueira e Babilônia, no bairro do Leme, na Zona Sul da cidade, sobre tais políticas, bem como a mídia como reprodutora e legitimadora de discursos. Os bairros de Copacabana e Leme, localizados em área nobre da cidade do Rio de Janeiro, são econômica e simbolicamente considerados como bairros de interesse das camadas média e alta, visto sua proximidade com os aparelhos da cidade e com suas belezas naturais – como a praia. Porém, em sua encosta, na ocupação de seus morros, há também diferentes grupos de favelados que interagem, integram e disputam os espaços e os acessos destes bairros.
De certo, como por muito já argumentado e debatido em muitos trabalhos também sob outras temáticas afins, o espaço urbano e, principalmente, as metrópoles contemporâneas estão em constante transformação e em constante disputa de interesses, que são ordenados e reordenados por diferentes agentes – públicos e/ou privados – em um tempo impetrado pela racionalidade neoliberal (DARDOT; LAVAL, 2014). Nesse contexto, a cidade do Rio de Janeiro, sede de megaeventos internacionais nas últimas décadas e midiaticamente reproduzida enquanto uma “cidade maravilhosa”, é uma das cidades que passa a adotar essa nova agenda de políticas. No caso do Rio de Janeiro, a agenda visa solucionar, primordialmente a violência urbana. E é sobre este debate que este trabalho se coloca, especificamente por meio das representações sociais das camadas médias sobre esta “violência”.
Neste novo contexto de disputa pela cidade, portanto, as representações coletivas das camadas médias sobre o potencial inimigo urbano de quem devem-se defender, são ampliadas e atualizadas, dada a ampliação do próprio espaço de atuação e reconhecimento dos interesses específicos dessas camadas por meio da abertura de tantos canais – como os Think Tanks. No contraste, quando há ampliação da participação das camadas médias nos debates não apenas públicos, mas na agência de decisões também privadas sobre os programas públicos ou na proposição de programas privados para atender a questões públicas, a lógica que permeia tais programas é a lógica do interesse “close to home” (ELIASOPH, 1997), que nega os problemas enquanto problemas sociais para focá-los apenas no que atinge pessoal e emocionalmente cada um de seus propositores. Agora, com o incentivo e as bases de financiamento de políticas e projetos partindo com total abertura dos setores da sociedade civil e do empresariado – como os exemplos do Programa Segurança Presente e Rio Seguro e Vigilante –, as denúncias e as demandas baseadas em preconceitos e elitizações são escancaradas com naturalidade na pauta de seus programas, já que são eles próprios os responsáveis pela implementação de propostas que vão favorecê-los.
Assim, a caracterização das favelas como territórios da violência urbana e a então necessidade de delimitação e militarização destes territórios e de seus moradores em específico, para resguardar a sociabilidade de seu entorno de camadas médias, não mais basta para o atendimento das demandas por cada vez mais controle e segurança deste setor, sob o que se entende a respeito da ordem pública. Para se sentirem seguros de fato, as camadas médias dos bairros de Copacabana e Leme, por exemplo, preferem priorizar e privatizar uma militarização que esteja ordenada em seu próprio território, por meio de um controle cada vez mais ostensivo das polícias, juntamente com a nova Guarda Municipal, e uma vigilância cada vez mais técnica, em modelo de gestão integrado, e tecnológica, no uso de novas tecnologias e dispositivos, a partir do lema “Segurança é um dever de todos”. Portanto, neste caso – para além das favelas –, há uma privatização e uma securitização (HIRATA, 2014) dos espaços urbanos da cidade para assegurar determinadas áreas de transtornos e desordens causados ainda, é claro, pelos “indesejáveis” favelados, mas também pelos pobres em geral, identificados como moradores de rua, camelôs e moradores de periferias distantes que, a partir das propostas dos moradores de Copacabana e Leme, não teriam direito ao acesso à cidade e deveriam ser, portanto, afastados desses bairros, renovando, neste caso, a segregação socioespacial.