A presente pesquisa analisa como os alunos da escola pública apreendem o conceito de gênero, a partir do desenvolvimento de atividades que ressaltam a importância da participação feminina nos espaços sociais. A atividade proposta teve como base a apresentação da história de mulheres que se destacaram no cenário mundial, assim como, de que maneira as suas lutas contribuíram para a conquista da liberdade feminina nos mais diversos lugares em meio a sociedade, dentre eles podemos destacar: artes, política, ciência, cinema, literatura, etc. Foram discutidas as biografias de Maria Felipa de Oliveira, (Heroína Negra da Independência da Bahia), Carolina Maria de Jesus, (primeira e mais importante escritora negra do Brasil) Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón (Artista Mexicana), Maria de Lourdes da Conceição Alves (Cacique Pequena – líder indígena), Chimamanda Ngozi Adichie (Escritora nigeriana) e Maria da Penha Maia Fernandes (farmacêutica brasileira que lutou para que seu agressor viesse a ser condenado e que lutou para instituir a lei que pune a violência contra a mulher no Brasil que recebeu o seu nome - Lei Maria da Penha - Lei 11.340/2006). Essa exposição teve o intuito de disseminar o conhecimento acerca das questões femininas com os alunos (as), a fim de conscientizá-los (as) sobre o respeito às mulheres, a importância da igualdade entre os gêneros, além do combate ao machismo. O objetivo dessa atividade e dessa pesquisa foi traçar soluções para problemas a nível local, mas que são comuns a toda e qualquer escola, na tentativa de contribuir para a transformação da realidade social das mulheres no mundo atual.
O objeto de pesquisa elencado são alunos e alunas da Escola Pública Estadual Arquiteto Rogério Fróes, localizada na cidade de Fortaleza, no estado do Ceará, no Brasil, onde tive a oportunidade de atuar como bolsista, no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) ligado à Universidade Federal do Ceará.
Parto do pressuposto que, através da realização de atividades como essa que, evidencia e mostra a importância das questões de gênero, é possível colaborar positivamente na difusão do conhecimento acerca da realidade social das mulheres, contribuindo assim para sua transformação, já que o público-alvo ainda se encontra em processo de formação.
A motivação para o desenvolvimento dessa atividade e da pesquisa se deu a partir da necessidade de compreender e buscar alternativas para os problemas relacionados aos altos índices de evasão escolar de meninas, os quais supomos se dar em decorrência da difusão do machismo na escola. Observamos que alguns dos pressupostos que colaboraram para essa evasão foram a propagação da falta de respeito dos meninos com as meninas, do machismo recorrente em sala de aula, além do número considerável de gravidez na adolescência, fato este que desencadeou bastante preocupação na gestão da escola e no corpo docente, os quais ao analisar as turmas, acabaram percebendo uma súbita mudança no quadro de alunas, ou seja, no início do ano letivo, a escola possuía um número considerável de meninas no turno diurno e, após alguns meses, esse número diminuía em comparação ao turno da noite em que esse quantitativo só aumentava.
A partir dessa evidência e, com uma observação mais aprofundada, em relação ao comportamento dos discentes, foi possível observar uma forte situação de constrangimento que as meninas gestantes vivenciavam em decorrência do preconceito por parte dos meninos. Ou seja, existe uma forte ligação entre a gravidez na adolescência e os índices de evasão escolar de meninas, não só referente ao abandono da escola, mas também devido a muitas delas serem mães solteiras e terem o seu tempo reduzido, além das situações de descriminação vivenciadas cotidianamente. Esse processo de evasão em escolas é fato significativo e de suma importância que desencadeia questões a serem estudadas e abordadas em sala de aula e, uma das mais urgentes se dá no campo da formação desses alunos(as) junto ao contexto de suas realidades, principalmente, com relação às questões de gênero.
Portanto, para desmistificar as características machistas já predominantes na sociedade, foram trabalhadas atividades que visam ensinar a importância do respeito em relação ao outro e, a partir disso entendemos que a mudança pode se dar em valores significativos, como por exemplo, o conhecimento sobre a importância do respeito às mulheres ressaltando-as como sujeitos autônomos e, portanto indivíduos que fazem jus ao direito do mesmo espaço na escola. Precisamos atualizar a maneira pela qual a educação da crianças e jovens é ensinada, pois como cita Adiche “perdemos muito tempo ensinando as meninas a se preocupar com o que os meninos pensam delas. Mas o oposto não acontece” (p.7, 2014). Essa forma de aprendizado, se repercute em diversos lugares e culturas onde se replica a ideia conservadora e machista na educação em geral, ou seja, ensina-se as meninas a se “guardarem” e aos meninos a sempre “ganharem o mundo”. Isso fica evidente nessa fala de Adiche: “Ensinamos as meninas a sentir vergonha. “Fecha as pernas, olha o decote”. Nós as fazemos sentir vergonha da condição feminina, elas já nascem culpadas” (p.9, 2014). Temos, portanto, uma imposição de padrões que as meninas devem seguir e, se em algum momento esse modelo for violado ou corrompido, ela terá que assumir as consequências, de fato essas representações podem influenciar nas atitudes dos homens para com as mulheres ou de meninos/meninas. Conforme Bourdieu:
A dominação masculina, que constitui as mulheres como objetos simbólicos, cujo ser (esse) é um ser-percebido, tem por efeito colocá-las em permanente estado de insegurança corporal, ou melhor, de dependência simbólica: elas existem primeiro pelo, e para, o olhar dos outros, ou seja, enquanto objetos receptivos, atraentes, disponíveis. Delas se esperam que sejam “femininas”, isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas, discretas, contidas ou até mesmo apagadas (BOURDIEU, 2005, p. 82).
Na tentativa de dar outra visão sob a situação do gênero feminino em sala de aula, a atividade tinha como expectativa de público um número considerado de meninas, porém no momento das inscrições algo nos surpreendeu, pois, a procura maior se deu pelos grupos dos meninos no intuito de compreender o que acontece no universo feminino, contudo não com o objetivo de entender as lutas das mulheres em busca de sua emancipação e o combate ao machismo e ao patriarcalismo, mas sim com um único intuito: se beneficiarem com suas “investidas” junto as alunas.
Essa ideia foi ao longo da atividade sendo desconstruída, mostrando a importância histórica das lutas femininas. Após o fim da atividade, identificamos que as apresentações de histórias sob mulheres que lutaram na defesa de seus ideais, contribuíram de modo expressivo para a transformação do olhar dos meninos com relação às meninas, para uma maior disseminação do respeito e igualdade entre os gêneros e um maior equilíbrio na convivência entre os jovens na escola.
Compreendemos que temas significativos como este, em uma sociedade conservadora e patriarcal, são essenciais para formação dos jovens que ainda estão descobrindo o seu papel no meio social, ressaltando que, o simples ato de respeitar o outro mostra como essas atitudes podem mudar questões complexas, estruturais, relacionais e existenciais. E a escola, como um dos principais meios de educação acessados pelos jovens, tem um papel preponderante no que diz respeito à divulgação dessas questões e ao debate acerca de temas como este, contribuindo, a partir de um nível micro, para uma transformação mais ampla dos valores sociais.