Na obra infantil de Lewis Carroll “Alice do Outro Lado do Espelho”, a personagem - Alice - atravessa o espelho que está sobre a lareira da sala de sua casa e chega a um mundo em que tudo está ao contrário, de “pernas para o ar”; um mundo em que as coisas “trocam de lado”, tal como as linhas de um livro quando é observado, aberto, refletido num espelho.
Tal como a Alice de Carroll, também em Portugal, durante o regime fascista houve quem virasse as costas a uma situação estática e inerte, progredindo para a ação, optando por uma vida, clandestina, em que lutando contra a ordem vigente experimentava os limites de si próprio.
Assim como na obra de Carrol, propomo-nos neste artigo, que resulta de uma investigação encetada para a realização de uma dissertação de doutoramento (Nogueira, 2009), espreitar por detrás do espelho, para um outro mundo em que tudo o que parece não é. É o mundo da clandestinidade comunista que ousou, de forma sistemática e permanente, lutar contra a ditadura portuguesa instaurada a partir do golpe de 28 de Maio de 1926.
Na história contemporânea portuguesa 1974 é o ano charneira, que marca o antes e o depois. Foi o ano do golpe de estado que ocorreu a 25 de Abril, transformado em revolução, que se fez com cravos mas também com coragem, determinação e luta. Foi o ano de todos os sonhos, de todas as utopias, de todas as expetativas. 1974 foi um ano em que os acontecimentos provocaram alterações profundas nas existências individuais e coletivas (Godinho, 2017). Para trás ficava a ditadura, o cheiro bafiento do “orgulhosamente sós”, um país atrasado e com fome e uma ditadura instaurada em 1926, que a partir de 1933, com a aprovação da Constituição, adotou a designação de “Estado Novo”, e foi a mais longa da Europa, terminando apenas ao fim de 48 anos. Durante quase cinco décadas, este regime conseguiu resistir a várias ameaças, nomeadamente ao impacto da guerra civil espanhola, ao fim da II Guerra Mundial e consequente derrota dos regimes fascistas na Europa, ao afastamento daquele que durante décadas foi o rosto e o espírito do regime – Salazar - a um longo período de guerra colonial (1961-1974) que sugou ao país uma parte significativa da sua riqueza humana e financeira e ainda a uma resistência que se fez sentir no país, quer através de várias tentativas de golpes de Estado, quer através de movimentos sociais que ao longo dos anos foram tomando várias formas, protagonizados por diversas camadas da população.
É neste contexto que muitos homens e mulheres se decidiram a lutar contra o regime, pois a repressão existente ao longo de 48 anos não impediu que a oposição e resistência assumissem por vezes formas latentes, mas também formas de resistência, de contestação e mesmo de confrontação aberta com o regime. Num Estado em que são proibidos os partidos políticos e qualquer forma de associação e expressão fora dos parâmetros estabelecidos pelo próprio Estado, a resistência e oposição mais aberta ao regime fez-se de forma ilegal, através de movimentos clandestinos e de forma semi-legal ou mesmo legal, durante alguns períodos, através dos movimentos de oposição ao regime. Em Portugal os dois tipos de movimentos, resistência e oposição, conjugaram-se, interpenetraram-se e entrelaçaram-se, sem que se possam estabelecer limites rígidos para uns e para outros.
É contudo situação de clandestinidade, portanto de ilicitude e de secretismo que o PCP sobreviveu durante os anos do regime fascista português. Os militantes clandestinos passaram a viver na clandestinidade, ou seja, toda a sua vida passou a ser secreta e ilícita. Não era só a sua ação política que era clandestina, era toda a sua vida. Eram homens e mulheres que abandonavam as suas famílias, as suas terras, os seus amigos, as suas profissões e que iam organizar lutas contra o regime instituído em Portugal. A vida na clandestinidade revestia-se de regras e formas de conduta específicas. Cada um, para permanecer clandestino, tinha de mascarar a sua identidade e fingir ser um outro. Transmutar-se em alguém anónimo e desconhecido. Camuflar-se de tal forma até se tornar invisível na sua atividade política.
A vida clandestina implicava ainda a normatividade de aspetos fundamentais da identidade individual de cada um: o nome e o aspeto físico. Mergulhar na clandestinidade significava assumir uma outra identidade, era preciso criar uma personagem e representar um papel, criar uma ilusão. Como na história de Carrol tudo era diferente daquilo que aparentava ser. Era um mundo virado ao contrário!
A memória da resistência e consequentemente da opressão é uma memória forte ou fraca, utilizando a tipologia estabelecida por Traverso (2007), conforme a situação política e social que se vive a cada momento. A existência de uma maior influência por parte de movimentos conservadores permite que a história das ditaduras europeias e também a portuguesa sejam branqueadas, desvalorizadas e mesmo negadas. Ouvir os testemunhos e desocultar as memórias daqueles que formam parte ativa no combate a essas ditaduras, que foram resistentes, é uma forma de resgatar o passado e não permitir que ele se apague. Este passado é importante para olhar o presente e o futuro...num momento em que temos de estar particularmente alerta para não deixarmos que a história se repita!