A sociedade de acordo com Adriane Luisa Rodolpho em seu artigo Rituais, Rios de Passagem e de Iniciação: Uma Revisão da Bibliografia Antropológica vive em dois momentos: o de caos onde há ausência de lei ou regras, ou em ordem, onde as leis já estabelecidas são seguidas á risca. É nesse vão entre os tempos que podemos encontrar os rituais, onde através da repetição de ações ritualísticas que nos dá certa segurança onde apresentamos valores morais visões de mundo gerando uma sensação de coerção social, onde é reafirmado valores pré-estabelecidos pelo coletivo, garantindo a continuidade desse.
Segundo ainda a autora os rituais nos mostram o invisível, laços e subjetividades que não são explicitas porem compreendidas por todo o coletivo, sendo eles no campo do sagrado onde podemos perceber a transcendência do coletivo, ou até mesmo de ordem de relações sociais, como festas civis entre outros.
Os ritos podem ser das mais variadas ordem, como o rito de passagem (o que passou a ser outra coisa a partir do ritual), pode ser chamado de processo de iniciação, onde por meio de uma transformação simbólica algo deixa de ser o que era passado a ser uma nova coisa, como o nascimento, morte entre outros.
Turner em O Processo Ritual Estrutura e Anti Estrutura ao pesquisar sobe os rituais dos Ndembo nos mostra que eles são singulares que geralmente estão ligados ao retorno do equilíbrio da comunidade. Sendo este como um momento de descolamento do individuo, passando a ser coletivo, ele deixa sua “identidade” e passa a ser uma nova, (momento do ritual), onde o que faz importante é o que coletivo pretende.
O Bumba-Meu-Boi pode ser olhado por vários prismas: uma manifestação popular, uma festa, um auto, ou a encenação do auto, uma brincadeira, ou uma dança. Oswald Andrade comentava ser a mais exemplar, mas também a mais estranha das danças, por ter tantos elementos e um calendário específico.
O auto remonta a história de Catirina que grávida vai até seu marido e diz que está com vontade de comer língua de boi. Este, um negro velho da fazenda chamado de Pai Francisco pelas superstições da época acaba cedendo ao pedido e vai ao encontro do boi. Catirina não queria simplesmente a língua de qualquer boi, e sim do boi mais bonito e mais querido do Coronel da fazenda onde eles moravam – o Boi Manhoso.
Pai Francisco sem ter coragem de matar o bichinho simplesmente arranca a língua e o boi acaba por adoecer. Sabendo disto o Coronel fica furioso e pede para seus jagunços que encontrem Pai Francisco, pois este deveria receber uma lição. Pai Chico, como conhecido, desesperado foge para a mata, onde encontra uma aldeia indígena e pede socorro. Vendo a aflição dele os índios vão até o boi Manhoso e iniciam um ritual para curá-lo.
Deste modo o boi fica bom novamente e o Cor onel acaba perdoando Pai Chico. Porém, este boi não é um boi comum, e sim o boi encantado que adora dançar pelos terreiros nas noites de lua cheia.
Fato interessante salientar na brincadeira é que esse auto é contado e remontado anteriormente a libertação dos escravos (1888) e da Proclamação da República (1889), momento em que a igreja católica tinha uma relação de poder e domínio no Estado, dessa forma proibindo a brincadeira e colocando-a com uma festa pagã. Porém conforme a tempo foi passando e a igreja foi perdendo o controle exercido no estado a brincadeira foi cada vez mais praticada em lugares abertos chegando aos dias atuais onde a brincadeira de Bumba-Meu-Boi é reconhecida como patrimônio cultural do Estado do Maranhão e suas brincadeiras e apresentações fazem parte do calendário anual da secretaria do Estado.
Maria Laura Viveiro de Castro Cavalcanti, em seu artigo Tempo e Narrativas nos Folguedos de Boi, afirma que essas chamadas brincadeiras são formas rituais de expressão tem um comportamento simbólico, seus praticantes acreditam no “artefato bailante”, que requer um cuidado especial, um preparo, uma organização, não sendo um momento de puro lazer, mas é de fé, é ao mesmo tempo o encontro do profano com o sagrado.
Percebemos que a quebra da vida cotidiana e a nova forma de ordem social faz com que a fé dos brincantes ao auto que se baseia em morte e ressurreição fique cada vez mais fortalecida, já que este pelo menos no tempo da brincadeira é o personagem principal, sai de seu anonimato e vai ser o protagonista. Alceu Maynard Araújo quando faz sua etnografia do bumba-meu-boi conclui que a festa é para esses anônimos o momento de importância da rotina maçante diária, “O bumba-meu-boi é um folguedo noturno, uma recreação sadia e distração para os que mourejaram de sol a sol.”
Deste modo, o referido artigo se refere brevemente a uma contextualização bibliográfica do conceito ritual e apresentar o ritos e rituais presentes na brincadeira de Bumba-Meu-Boi no estado do Maranhão.