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Resumen de ponencia
GRAMSCI E A TRADUÇÃO DO MARXISMO NA AMÉRICA LATINA: UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE AS REVISTAS PASADO Y PRESENTE E PRESENÇA

*Camila Góes



Essa pesquisa apresenta como objeto central o periódico argentino Pasado y Presente e a revista brasileira Presença. Ambos os coletivos editoriais foram formados por intelectuais marxistas, em grande parte oriundos dos partidos comunistas, que estiveram envolvidos com a recepção da obra de Antonio Gramsci em seus países. As iniciativas se dão em meio a contextos de crises políticas que impunham ao pensamento de esquerda uma série de dilemas para a ação política, buscando apresentar respostas para os problemas que a desdemocratização ou democratização conferiam ao pensamento de esquerda. A partir da hipótese de tradução do marxismo, propomos investigar como os dois grupos intelectuais se apropriaram de grandes concepções gerais – do pensamento de Gramsci e do comunismo italiano em especial, mas também das prévias vertentes nacionais marxistas – e produziram análises voltadas às especificidades do ambiente cultural e político do qual participavam.
De modo geral, buscamos contribuir para a reflexão a respeito dos dilemas que o marxismo encontra nos contextos nacionais considerados periféricos a partir da recepção da obra gramsciana. A escolha pelas revistas busca explorar os modos possíveis de intervenção política e as vias de resistência para a realização de críticas aos partidos. Partimos da premissa de que essas oferecem um ponto de vista privilegiado para analisar a vida política e cultural dos períodos em questão na medida em que constituem um modo de abordar a trama de relações dentro das quais surgiram e se consolidaram diversos projetos intelectuais e políticos. Ao mesmo tempo, as revistas possuem uma linguagem própria que pode ser interpretada como um modo concreto de intervir na conjuntura.
Propomos, assim, estudar as revistas Pasado y Presente e Presença, com vistas a destacar o quanto estimularam a conhecer melhor a história argentina e brasileira, mas também a forma como avançaram enquanto instrumentos metodológicos e políticos gerais – o que as possibilitam, portanto, ser comparáveis. Entendemos que a singularidade histórica de cada país não impede a reflexão proposta; bem como a referência comum a Gramsci e a sua obra não expressa uma forma homogênea e linear no modo com que interpretaram os processos históricos pelos quais passaram a Argentina e o Brasil ao longo da segunda metade do século XX. Assim, a partir de uma reflexão de fundo mais ampla a respeito de casos distintos de tentativas de tradução do marxismo para ambientes nacionais periféricos, buscaremos apreender nas revistas Pasado y Presente e Presença a identidade possível – em que pese as formações sociais e dimensões temporais distintas – e a heterogeneidade com a qual compartilharam problemáticas, objetivos e inspirações comuns.
São muito variados os “usos de Gramsci” – para recorrer à expressão de Juan Carlos Portantiero (1977) – e também bem diversos seus resultados teóricos e sentidos políticos. Nos interessa destacar, de modo especial, aqueles usos que serviram ao propósito de realizar interpretações voltadas às especificidades das formações nacionais periféricas, a partir de uma visão antidogmática e criativa do marxismo. É nesse sentido que propomos entender a produção dos gramscianos argentinos e brasileiros reunidos em tornos das revistas Pasado y Presente e Presença como uma tentativa de traduzir o marxismo na América Latina. Em oposição à ideia de “aplicação”, entendemos que há a produção de algo novo. De modo particular, é possível afirmar mesmo que o encontro de Gramsci com essas culturas nacionais tenha possuído como característica geral a criação de novos projetos políticos e uma nova ideia da política (VACCA, 2009, p. 13). Essa hipótese é de Giuseppe Vacca, que afirma ter sido assim “na Itália do pós-guerra”, “na Índia, tanto antes como depois do nascimento dos Subaltern Studies” e também “na América Latina, onde em alguns países, como na Argentina e no Brasil (...) teve um papel fundamental na renovação da história política dos grupos intelectuais, em favor das ‘revoluções democráticas’” (ibid., p.13).
A intenção em desenvolver uma comparação entre ambas as iniciativas editoriais tem em vista que ambos os grupos foram formados por intelectuais marxistas que haviam estabelecido uma relação crítica, em graus diferenciados, com os partidos comunistas de seus países e que se uniram nestas empreitadas como forma de intervir politicamente no debate estabelecido na época. Além disso, procuraram oferecer um espaço de elaboração cultural para interpretações plurais a respeito dos processos específicos de interrupção e retorno à democracia pelos quais passavam a Argentina e o Brasil. Ambas as revistas recorreram ao pensamento de Antonio Gramsci e ao comunismo italiano para formular suas visões, estabelecendo um diálogo a partir deste referencial com as vertentes nacionais de esquerda e enfrentando de modo geral os dilemas da questão democrática para a ação política. Buscaremos lançar luz sobre o pensamento político produzido por estes coletivos, tendo como hipótese se tratar de tentativas de tradução do marxismo que apresentaram como ponto de partida, em maior medida, o pensamento de Gramsci e suas categorias. Com este objetivo, buscaremos no contexto mobilizado pelas revistas as especificidades da história política de seus países e a originalidade de suas intervenções teórico-políticas.




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* Góes
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas . Pós-Graduação de Filosofia e Ciências Humanas . Universidade Estadual de Campinas - IFCH/UNICAMP. Campinas-SP, Brasil