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Resumen de ponencia
Objetividade e subjetividade na determinação da categoria classe social em Marx

*Francisco Xarão



Propomos discutir a relação objetividade e subjetividade na determinação da categoria classe social em Marx. Nesse debate viceja a interpretação, dada por muitos como se fosse de Marx, de que a transição da “classe em si” para a “classe para si” é uma decorrência necessária e exclusiva das contradições das forças produtivas. Essa formulação classifica as relações econômicas como objetivas e todas as outras como pertencentes à esfera da subjetividade. Na obra de Marx, no entanto, todas as menções à dicotomia sujeito/objeto aparecem como produto de relações sociais determinadas que engendram tanto a percepção do objeto quanto a constituição do sujeito. Por isso, sua dialética materialista da história sempre intercambia sujeito e objeto, de modo que a separação estanque entre ambos, fática no regime da propriedade privada, é sempre criticada como estranhamento do ser social. Disso resulta que através da práxis social se efetiva a determinação reflexiva do objeto e, desta, a objetivação sensível do sujeito, o que é muito distinto, por um lado, da antiga metafísica, que separava sujeito e objeto como entes constituídos de forma independentes e, por outro, do idealismo alemão, que concebia a unidade de ambos na autodeterminação da consciência. Para Marx, toda a subjetividade é objetiva, porque é produto de relações histórico-sociais determinadas que podem ser mapeadas e estudadas cientificamente, reconhecendo, assim, a singularidade humana do homem antigo, do homem medieval e do homem moderno. Do mesmo modo, toda objetividade é subjetiva, porque em todos os objetos com os quais o homem se relaciona ele encontra o produto daquelas relações sociais objetivadas; e mesmo quando se dirige à natureza tout court, o que encontra é a natureza humanizada. Assim, só podemos falar de classe social como uma categoria objetivamente determinada na medida em que falarmos de classe social como uma categoria subjetivamente percebida. Para apresentar a determinação da categoria classe social como um exemplo de como Marx entende a relação objetividade/subjetividade, percorremos com ele, por uma leitura imanente ao seu texto, o itinerário que o conduz, da crítica ao amálgama hegeliano entre ser e pensar, à sua recusa em aceitar a separação metafísica entre sujeito e objeto. Esse caminho vai configurando uma analítica materialista da história que empresta à Marx a base teórica necessária para pensar a relação sujeito e objeto de maneira distinta da tradição filosófica ocidental. Apresentamos esse percurso em três partes. Na primeira, situamos a crítica à especulação na Crítica da Filosofia do Direito de Hegel e pinçamos da tese doutoral sobre a Diferença da Filosofia da Natureza de Demócrito e de Epicuro um insight marxiano que sinalizava, já ali, uma perspectiva diversa daquela da filosofia ocidental clássica acerca da relação sujeito/objeto. Na segunda parte, sumarizamos, de forma geral e abrangente, o nó da disputa entre objetivismo e subjetivismo na determinação da categoria classe social em Marx para encaminhar, na terceira parte, um estudo, desde os Manuscritos Econômico-filosóficos, Manifesto Comunista, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte até o livro I do Capital, sobre o princípio dialético relacional entre sujeito e objeto. Ao estudar a gênese da formação da burguesia e conceitua-la como classe social, Marx descobriu um duplo aspecto/elemento característico deste desenvolvimento. O primeiro é o da constituição da classe em si – que é o lugar que um indivíduo ocupa na produção em relação à classe que detém a propriedade dos meios de produção. Trata-se das condições sociais que permitem o surgimento e o desenvolvimento daquele indivíduo que só pode ser descrito como classe pelas similitudes da situação comum que compartilha, no modo de produção vigente, com outros indivíduos. Nesse aspecto, diferentemente das outras formações sociais, no capitalismo só podemos aplicar o conceito de classe social em si relativamente à produção, porque nesse modo de produção a posição social não é fixada pelo nascimento ou parentesco e, sim, pelo que as pessoas fazem. Portanto, nesse aspecto, no capitalismo, dizer que determinado indivíduo é um trabalhador é simplesmente afirmar que, na divisão social do trabalho, ele ocupa a posição de assalariado. Dizer, ao contrário, que determinado indivíduo é um burguês equivale a dizer que é proprietário dos meios de produção. Contudo, na medida em que essa condição na produção passa a ser percebida por esses indivíduos como uma relação social, na proporção em que tomam consciência dessa situação, passam a organizar-se como parte da sociedade, reconhecendo-se como uma classe distinta de outra classe. Aquilo que era o lugar natural na produção econômica (senhor feudal, vassalo, servo, membro de corporação, artesão, mestre de ofício, mercador, comerciante, burguês) aparece agora na forma de uma luta política, uma luta pelo controle da sociedade inteira, em suma, uma luta entre partidos. Aqueles indivíduos atomizados, dispersos, que só podiam ser identificados pela mesma posição social que compartilhavam na produção, formam agora um movimento organizado da classe para defender sua posição social ou para mudar. De uma classe em si, transformam-se em uma classe para si. Somente quando isso acontece é que surge a luta de classes, que é sempre também uma luta política. O método de pesquisa do jovem Marx, do movimento político das representações de classe, denuncia a concepção classista do Estado que elaborava desde O glosas críticas... até o Manifesto Comunista. Segundo essa visão, que só se transforma após o aprofundamento teórico do significado do surgimento do bonapartismo, não importa o quanto as outras classes acessem ao poder político do Estado, através do sufrágio universal, pois ele continuará sendo o comitê para gerir os negócios comuns da burguesia, a forma constitucional da sua dominação social. Portanto, cada vitória política no marco da República Burguesa será uma vitória da classe burguesa, uma comprovação da eficácia de sua forma de dominação política. Quanto mais político o proletariado se faz, mais burguês ele se parece e mais distante da revolução se coloca. Daí que Marx e Engels desenvolvem desde o Manifesto Comunista até O Capital uma teoria da revolução que coloca a classe proletária como sujeito de sua autoemancipação. Portanto, as condições materiais objetivas só podem ser transformadas pela classe que almeja a emancipação se elas forem subjetivamente percebidas como a causa de sua opressão e disto resultar um projeto antagônico ao estado de coisas realmente existentes.




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* Xarão
Universidade Federal de Alfenas UNIFAL-MG. Alfenas-MG, Brasil