O ensino superior e a sua relação com os avanços sociais e crescimento econômico vêm configurando uma das principais ordens na agenda política de diversos países nos últimos anos. Somado a esse fato, há uma crescente ênfase na eficácia e eficiência das universidades em suas atividades de ensino e pesquisas financiadas pela iniciativa pública e privada. Isto é, a necessidade de otimizar a alocações de recursos exige que avaliações sistemáticas sejam realizadas, de modo a reorientar e reestruturar o apoio à pesquisa, na tentativa de racionalizar as organizações e aumentar a produtividade. Em vista disso, estimulou-se ou impuseram-se atividades de avaliação de tais instituições.
Assim, por razões de governança, responsabilidade e garantia de qualidade, existe um crescente interesse por parte dos políticos, empresário, sociedade e demais stakeholders em como aferir a excelência das instituições de ensino, por meio de técnicas de benchmarking. Além disso, a globalização e massificação da educação superior fez com que diversos órgãos competentes ao redor do mundo repensassem a maneira que os sistemas regulatórios vêm sendo conduzidos, de modo a garantir um padrão internacional de educação, principalmente nos programas de pós-graduação. As universidades se esforçam para alcançar status e visibilidade internacional, em um contexto competitivo, promovidos por uma tendência globalizada das últimas duas décadas, em relação ao financiamento de pesquisa e ensino superior baseado em desempenho.
No Brasil, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) desempenha papel crucial no que tange o panorama dos Programas de Pós-Graduação, com o objetivo de assegurar a existência de pessoal especializado em quantidade e qualidade suficientes para atender às necessidades dos empreendimentos públicos e privados que visam ao desenvolvimento do país. Assim, a Capes possui tradicional desempenho no que diz respeito ao fomento à pós-graduação stricto sensu, exercendo atuação em todo o território nacional.
A conjuntura nacional de pós-graduação é avaliada estruturalmente pela Capes através de um sistema de avaliação, em contínuo aperfeiçoamento. Portanto, pode-se afirmar que o sucesso da pós-graduação stricto sensu no Brasil está estreitamente relacionado ao Sistema de Avaliação da Capes, do qual o financiamento dos programas depende, vínculo entre o sistema de avaliação e as ações efetivas para a distribuição de bolsas e de recursos de fomento aos programas. Trata-se de um sistema institucionalizado na sociedade, conduzido pela Capes, mas sob a responsabilidade dos comitês das respectivas áreas de conhecimento.
No que tange a pós-graduação em engenharia de produção, é fundamental destacar que esta área da ciência inicia sua atuação onde as demais engenharias terminam: no projeto e gestão dos processos que envolvem recursos físicos (equipamentos e materiais) e humanos, para entregar produtos e serviços à sociedade. Em decorrência disto, a Engenharia de Produção defronta-se com um dilema secular: a articulação entre as ciências naturais e sociais – estas últimas caracterizadas pelos fenômenos decorrentes da psique humana, que afloram nos momentos de tomada de decisão.
Assim, um sistema avaliativo que capte todas as particularidades de uma pós-graduação em engenharia de produção se faz necessário, visto que o uso de métricas formais limitadas, embora necessário à regulação, deveria ser complementado por instrumentos para facilitar a autorregulação e ampliação do nível de autoconsciência do sistema regulado. Em linha com as escolas modernas de administração, objeto do campo de estudos da Engenharia de produção, sistemas organizacionais que requerem constante inovação devem adotar modelos de gestão que facilitem a visão crítica e sistêmica de seus agentes.
É importante frisar que a necessidade de manter um sistema avaliativo é incontestável, na medida em que o mesmo promove um modelo de melhoria contínua dos Programas de Pós-Graduação nacionais. Continuar o comentário. Isto porque o modelo de regulação adotado pela Capes, é hierárquico e externo ao sistema avaliado, não incentivando a avaliação crítica e a regulação distribuída, capazes de promover a avaliação formativa.
Face ao exposto, este trabalho busca investigar, em diversas dimensões, como a condução da avaliação Capes da engenharia de produção pode ser estruturada, com foco no processo que uma Pós-Graduação desencadeia na formação de pessoas. O objetivo final do processo consiste em promover o desenvolvimento contínuo e sustentado dos programas vinculados e dos seus resultados para a sociedade. Aqui, portanto, se propõe o uso de uma metodologia de Pesquisa Operacional Soft, para a estruturação deste problema social complexo, envolvendo diversos agentes de atuação, com interesse e ações distintas, que representem a complexidade, conflitos e incertezas existentes.
Esta investigação baseia-se no método CHAP2 (Complex Holographic Assessment of Paradoxical Problems), uma metodologia sistêmica de estruturação de problemas, baseada em mapas metacognitivos, que auxiliam na gestão de problemas sociais complexos, e que envolve interações entre os componentes humanos, tecnológicos, organizacionais e ambientais. Essa metodologia, assim, apoia a estruturação do problema da avaliação aqui exposto, incluindo o Sistema de Avaliação Capes da Engenharia de Produção.
Cabe ressaltar que o CHAP2 é um método de estruturação de problemas, que se propõe a facilitar a percepção dos processos organizacionais pelos agentes envolvidos e a auto-regulação/autogestão de atividades em sistemas complexos. Seu uso decorre do impasse e a falta de alternativas para lidar com problemas em políticas públicas, tanto pela abordagem das ciências econômicas, quanto de administração, engenharia e ciências da gestão.
A pesquisa conduzida aponta que a simplificação imposta pela gestão hierárquica da Capes se orienta pela lógica de mercado. Assim como no caso do desenvolvimento socioeconômico, onde o sistema financeiro substitui as necessidades da população e qualidade de vida pelos indicadores econômico-financeiros, também no caso da pós-graduação, o mercado editorial substitui a contribuição para o desenvolvimento nacional pelos indicadores cientométricos.
Em ambos os casos, protela-se o desafio de lidar com a complexidade dos sistemas organizacionais, o que é particularmente grave quando se trata da gestão de organizações ou indivíduos humanos. Exemplo disto é o crescente desinteresse dos professores da engenharia de produção em conduzir projetos de extensão, uma vez que isto não aparece nos indicadores da Capes, embora tenha alto impacto para a sociedade. Evidências na prestação de serviços de interesse público não deveriam ser descartadas em nome de uma pretensa isenção proporcionada por indicadores quantitativos.
Esta situação é agravada pela crença de que é a competição por recursos escassos que promove o desenvolvimento humano, e não a responsabilidade social, princípio que justifica a existência das organizações públicas. Sabemos que alguns programas de engenharia de produção se pautam por uma prestação de serviços em larga escala espaço-temporal, seja na formação de profissionais qualificados para atuar no setor educacional e produtivo, seja em pesquisas que apoiam iniciativas sociais.